quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Pensamento em Devir: Uma história do Logos

 

 

 

Eliane Marques Colchete de Morais

Pensamento em Devir: Uma história do Logos

 

 

Eliane Colchete

Pensamento em Devir: Uma história do Logos

(integrando contribuições do meu manuscrito iniciado em 2017; elaborado em setembro a novembro 2018; revisado e publicado na Web em Junho 2020)

 

Introdução Breve

 

1) O Logos e Nós

 

2) Hesíodo entre estrutura e história

 

3) Aletheia, por antinomia

I Aristocracia e Polis : o complexo cultural, p. 376

 

II Escritura e Verdade, p. 404

 

III Entre o Mito e a Antropologia : O estabelecimento do platonismo, p. 454

 

a) Theuth : um mito platônico

b) Um mito? 479

c) Da Farmácia ao Escritório… e ao Aviário 490

 

IV) O Fedro e o Gorgias p. 536

 

V) A Grécia Antiga e a Globalização : os dois gumes da Escritura 557

 

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Introdução Breve

 

Este livro, iniciado em setembro de 2018, está sendo escrito sob o impacto da desvastação que há cerca de um mês destruiu pelo fogo o Museu de Antropologia do Rio de Janeiro, onde estavam conservados inúmeros documentos fundamentais à compreensão do nexo do homo americano com a evolução arqueológica e cultural. Como se constatará na sua leitura, vários aspectos das questões relacionadas à origem da civilização desenvolvida como democracia e princípio de legalidade estão sendo ampliados pela intercessão dos estudos sobre a Grécia Antiga e os conhecimentos recentes sobre a antropologia da Ásia. As relações que deveriam estar sendo desenvolvidas entre as descontinuidades mesmas das formações pré-históricas e sociológicas da América ao contexto internacional ficaram assim sabotadas. Quanto ao que restou nos museus remanescentes do continente americano e em demais cidades brasileiras, aqui registro o apelo a que se tornem efetivamente utilizadas, e em escala de conhecimento público pela colaboração do mercado editorial, nesse impulso de compreensão das origens e transformações no rumo da liberdade desde o fundo obscuro dos despotismos e da violência, que a antropologia tem conhecido desde a segunda metade do século passado. As contribuições para esse impulso, que vieram tão oportunamente da metodologia estrutural, não são aqui minimizadas. Independente das questões de interpretação e das tomadas de posição política, é na assimilação das informações que se tornaram assim liberadas e por meio de textos tão talentosamente construídos, que podemos atualmente desenvolver os questionamentos que assim se possibilitaram. Destes se constitui a compreensão do desenvolvimento humano, da emergência do Estado de direitos civis com a democracia e da atribuição de subjetividade.

  1. Uma vez que não houve qualquer aperfeiçoamento genético da humanidade, desde a violência arcaica até a consciência dos direitos civis, torna-se evidente o lugar e o papel das Ciências Humanas na organização política e na inteligibilidade da espécie, pois só elas poderão auxiliar na compreensão dos fatores do desenvolvimento, contra as circunstâncias que ainda hoje mantêm os despotismos da “ordem” arcaica.
  2. Os estudos antropológicos do século XX alteraram premissas teóricas usuais. O leitor verá que a sinonímia de “desenvolvimento” - no sentido aqui especificado, excetuando a atribuição formal de subjetividade - e “modernidade ocidental” como referencial cultural e econômico, deixou de ser a priorística. Primeiro, a Grécia como referência de um processo real entre a sociedade arcaica e a democracia, já está bastante conhecida como o pivô da diversidade teórica a propósito do seu sentido, o que estudamos aqui. Ela já oferece pois motivos para atribuir um processo de desenvolvimento ao mundo antigo, e quanto à questão da subjetividade, aí localizar uma espécie de gênese de modo a ser pertinente ao próprio conceito o problema desse limite na Antiguidade. Também não só a Grécia Antiga exibe regime democrático, havendo entre etnias aborígines variedade de regimes e entre algumas o que pode se considerar assim. Porém essa variedade, sendo entre tribos ou nacionalidades, não comporta habitualmente estudos sobre a evolução social como um processo histórico, ao contrário do que a antropologia da Grécia nos permite. Assim como em meu já publicado “Filosofia, Ceticismo e Religião, com um estudo sobre Diógenes Laércio” (Quártica editora), visei mostrar como é constatável a relação entre as teorias que intentam explicar a modernidade ocidental e a estipulação da Grécia como origem do Ocidente, relação que nos estudos atuais, já na pós-modernidade, se tornou o pivô de muitas contestações, como ao cerne ideológico do imperialismo ocidentalista.

Neste livro amplio consideravelmente as intuições que motivaram a publicação citada, concentrando o foco, e corrijo a lacuna da brevidade da menção que fiz ali ao estudo de Vernant sobre Hesíodo.

 

 

 

1) O Logos e Nós

 

1 A palavra grega “logos” é a base de todas as ciências que conhecemos – claro está que em tudo que aqui expomos trata-se da Grécia antiga, não dos gregos modernos ou da Grécia medieval, cuja língua, mentalidade, religião nacional e posição geopolítica nada tem a ver com o que se estuda na rubrica dos “gregos” da Antiguidade.

2 Compostas como são as designações de muitas de suas especialidades pelo sufixo “logia”. Em grego, “logos” é a palavra da “palavra”, o significado mais simples de “linguagem”. Parece ser por uma semelhança ideológica da linguagem com aquilo que é ordenado, que tem ordem e ordena, ao contrário do que é confuso e desordena, que “logos” vem a denotar também “razão”, pelo que traduzimos o sufixo “estudo” determinante de cada ciência.

3 O termo “estudo” implica condução racional de certa prática que, envolvendo a linguagem, designa o pensamento, assim um sentido exclusivo do pensamento como racionalidade. Na Antiguidade grega “ciência” e “estudo” não eram tão prontamente relacionados, não obstante a nossa concepção de racionalidade ter origem na Grécia Antiga, a partir não tanto das ciências específicas que lá se desenvolveram, mas daquilo mesmo que ironicamente fazia problema à relação, a saber, a filosofia, esta que por primeiro enunciou um status definido do pensamento como racionalidade.

4 O termo “mathemata” designando “estudo” vemos utilizado em Laércio (1, 12) na referência à invenção da palavra “filosofia” por Pitágoras. Nessa referência, o “estudo” da filosofia na Grécia se designou como um cultivo envolvendo a função de um mestre, um professor. Já pensadores como Heráclito exemplificam uma vertente da filosofia inicial como produto da recém-conquistada autonomia do livro, tendo retornado a prática da escrita nessa época. Em todo caso, em grego “filosofia” é expressão construída, designando “amizade à sabedoria” ou “ao saber”, com uma reserva de não ser o próprio saber por uma questão de respeito religioso. O saber em si pertence só ao deus. O homem pode apenas pretender, cultivar, ser afeito aos estudos. O deus não precisa estudar para saber e o estudo não chega portanto a ser um saber divino, é o que delimita a humanidade do homem. Assim o que habitualmente consideramos nesse termo quanto à Grécia, é o caráter laico das atividades de estudos, das matemáticas às ciências especializadas, que os atribuídos filósofos gregos cultivavam, ao contrário da pertença a castas sacerdotais que tipifica cultivos científicos de outras nacionalidades antigas. Essa reserva leiga é o elemento mínimo que permite distinguir uma prática exclusivamente racional do pensamento, e esse elemento é a irrupção da racionalidade na história do homem, portanto um acontecimento datado e localizado na Grécia Antiga entre os séculos VII e VI ac. A reserva não era algo praticado mas não definido como a humanidade do homem, como vimos Pitágoras tinha plena consciência do que significava ao conceituar professor alguém que conhecia o limite do saber humano como estudo, filosofia, apenas amizade à sabedoria.

5 Porém ao nosso ver atual a questão da gênese da filosofia se mostra assim algo complexo, por um lado o mesmo que da gênese da ciência enquanto racional, por outro lado não o mesmo. Um filósofo dos tempos pioneiros da filosofia grega, entre os séculos VII e VI a.c., é quem aprende e/ou ensina um estudo definido como “sophia”, em grego não “ciência” no sentido do próprio Logos como linguagem especializada ou racionalidade, mas apenas “sabedoria”, um termo cujo sentido é demasiado amplo para qualquer apreensão direta do significado. A palavra grega para Ciência, Episteme, só foi introduzida por Platão, quatro séculos depois de Pitágoras, e Platão só o introduziu porque retrocedeu o sentido do saber humano para um saber tipo religião relevada, vislumbre de um outro mundo, o eterno que os deuses conhecem. Mas ele pensava que havia assim superado o limite humano dentro do próprio campo do saber humano. Por outro lado os filósofos pioneiros como Pitágoras também cultivam “estudos” daquilo que hoje designamos ciências, como especialmente cosmologia, astronomia e, já o vimos, matemáticas.

6 Um dos problemas que o significado de “sabedoria” na raiz do termo “filosofia” coloca é que hoje costumamos opor justamente as duas palavras “sabedoria” e “saber sistemático”, Sophia e Episteme. Reservamos à primeira um sentido religioso ou de aplicação ao mundo da vida, e à segunda o sentido de estudo especializado. Na história da filosofia, curiosamente, o segundo precedeu o primeiro não obstante o termo usado fosse o oposto, e só muito mais tarde, na era helenística-romana, entre os séculos III ac. e V dc., é que se considerou a filosofia, em sentido etimológico estrito, mais importante como providência de sabedoria mundana, envolvendo soteriologia mística, do que como saber sistemático. E quando, logo depois, a filosofia se tornou um mero auxiliar do cristianismo dominante, o que ela ficou sendo até o retorno da ciência leiga desde o Renascimento do século XV, era cultivada como “metafísica”. Ou seja, o sentido que a filosofia havia ganho desde Sócrates (séc. V ac.) e Platão ( sec. IV ac.) como saber sistemático de algo específico, o “conceito”, a especialidade em conceituar realidades imutáveis, sentido que não se confunde portanto com a mística mundana do Helenismo, não obstante o fato dela ter adaptado o socratismo ao seus objetivos.

7 O conceito é pois o correlato do entendimento divino, visto que para Platão as ideias são realidades eternas subsistindo no supramundo onde residem os deuses. Mas se a Idade Média católica utilizou a metafísica como “ancila theologia”, serva da teologia, não permitiu que os seus ramos de saber sistemático, especialmente a geometria platônica, a biologia aristotélica, a cosmologia e a astronomia comum a ambos, abarcasse o domínio bíblico, reservado como autoridade dos teólogos cristãos. E se a filosofia desde a origem abrange tantos sentidos, dos quais o primeiro “pré-socrático” ainda nem definimos, como viemos constatando o conteúdo desse saber é que se torna problemático reconstituir hoje enquanto ao mesmo tempo racional e não – ainda - científico.

8 O problema que estamos delineando é relacionado à origem absoluta do que se designa pensamento racional, aquele que desenvolve “estudos” fenomenicamente orientados. Nem mesmo é ainda o problema de como podemos compreender a defasagem da metafísica antiga, onde porém a episteme emerge como forma mentis, relativa à ciência moderna, experimental, isenta de questões de fundamentação religiosa ou mesmo gnoseológica, contentando-se com o êxito prático do método experimental e a sistematização coerente a ele.

9 Ao longo dos séculos pós-medievais, de afirmação da ciência experimental contra o domínio teológico, a filosofia tem um estatuto ainda mais complexo porque, por um lado, ela protagonizou as primeiras lutas pela independência da razão relativamente à fé, durante o Renascimento e Idade Moderna (sécs. XVII e XVIII). Mas na Idade Contemporânea (séc. XIX em diante), as ciências se emanciparam totalmente também afirmando sua independência especializada contra a filosofia ou metafísica, como algum saber generalizado que as pudesse abarcar. A filosofia desde então se tornou um campo de questionamento e produção conceitual multifacetado, entre política, ética, estética, epistemologia, mas geralmente relacionado ao que se tornou habitual designar “pensamento” como problematização do sentido, seja da existência ou do Homem, da ação ou vida, etc. - conforme os pensadores eles mesmos possam designar – e que em geral se desenvolve em estreita conexão com a reflexão sobre a História da Filosofia. A relação com a ciência é complexa porque se a filosofia já não produz saber ou “metafísica”, é nela que se desenvolvem as questões atinentes às condições de possibilidade da ciência e sua crítica.

10 A relação dos estudos de ciências especializadas que praticavam os filósofos gregos pioneiros com o mister da filosofia, não ajuda na reconstituição do saber racional pioneiro. Era o que estava em questão entre os filósofos, assim enquanto Pitágoras praticava as matemáticas com o êxito que se conhece, Heráclito reprovava a sua “polimatia”, o seu variado saber especializado. A ciência especializada não era função da filosofia grega, como vimos nem mesmo quanto à substância. Sabemos que Tales, o primeiro filósofo, assim como também Anaximandro, eram aparentados a um clã da nobreza sacerdotal em Tebas, vindo da Fenícia, de modo que, como informou J.P. Vernant, “as indagações dos primeiros filósofos sobre astronomia e cosmologia puderam assim transpor uma antiga tradição sagrada de origem oriental.” (“Mito e pensamento entre os gregos”, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1990, p. 462). Se essas ciências se laicizaram na Grécia, ao contrário da filosofia como uma prática definida grega ao menos quanto ao gênero discursivo, elas não tiveram aí sua origem.

11 Inversamente a servir de ajuda na problemática do saber filosófico originário, o paralelo das ciências especializadas torna ainda mais complexa a questão da origem da racionalidade nessa acepção epistemológica. Isto é, relacionada à “episteme”, ou “ciência”, sim, porém de um modo genético da racionalidade em geral, e, portanto, um modo que precede os usos compartimentados que temos hoje para ciência, conhecimento, sabedoria e filosofia, sem confundir-se de todo com algum dentre eles.

12 Não há um núcleo definido sobre o que todos os primeiros filósofos consideraram em termos de sua “sophia” . Por reflexões posteriores, especialmente em Aristóteles (“Metafísica” A, 3, 983 b), ele mesmo um filósofo do século IV ac. ligado ao socratismo, algo em comum foi estabelecido como adequado ao seu mister. Aristóteles se refere pois “àqueles que antes de nós se aplicaram à investigação do ser e filosofaram a respeito da realidade”, informando que “dos primeiros filósofos a maioria considerou os princípios da natureza material como sendo os únicos princípios de tudo o que existe”. Tem sido criticada a designação de Aristóteles para os filósofos “pré-socráticos” em termos de fisiologois, “fisiólogos”. G. Bornheim grafa “physikoi”, traduzindo por “físicos” (“Os filósofos pré-socráticos”, São Paulo, Cultrix, 1993, p. 11), aduzindo que “a expressão não é incorreta, mas presta-se facilmente a equívocos”. Uma vez que o termo atual para “física” não seria adequado ao contexto, e, sobretudo, “a physis” grega “não pode ser traduzida sem mais pela palavra “natureza”.

13 Na verdade, Aristóteles não considerava que a “physis” fosse o “ente na sua totalidade” conforme a tradução de Bornheim para o “conceito pré-socrático de natureza”, tradução manifestamente relacionada às concepções de Heidegger. Aristóteles especifica assim bem claramente, duas idades da filosofia.

14 À nascente filosofia, a dos “fisiólogos” como os designou, se opõe à segunda por isso que somente esta “estende sua visão a todo existente, e das coisas existentes supõe serem umas perceptíveis e outras não”, estudando ambas as classes (A, 8, 989 b 25). Inversamente, segundo ele, os “fisiólogos” só estudam “princípios e causas” para aquela espécie de substância relativa à destruição, geração e movimento, não admitindo “ser o real mais do que a soma das coisas perceptíveis e que estão contidas nos chamados ‘céus’” (A, 8, 990 a 5). Ao que se encontra assim contido na “geração dos céus”, Aristóteles designa “natureza” e referência dos estudos dos fisiólogos.

15 Segundo Aristóteles, mesmo que Pitágoras tenha considerado seres não sensíveis, como os matemáticos, na sua designação dos princípios, ele permanece “fisiólogo” devido a sua concepção do real. Ao contrário, ao postular a Razão, em grego “nous”, o nosso sentido racional do termo “espírito” ou “intelecto”, como princípio, Anaxágoras poderia se isentar desse rol. Seria pois congruente com os segundos filósofos. Pitágoras permanece um elo, todavia, entre as duas idades do cultivo filosófico ao ver de Aristóteles, porque as causas e princípios matemáticos já servem de “degraus” à concepção de “planos mais altos da realidade”. Em todo caso, vemos que a physis, delimitando para Aristóteles o conteúdo da filosofia nascente, ela tem um status específico, não se confundindo com os estudos determinados por isso que, qualquer que seja a pertença das idades, é “filosofia” enquanto correlato de “sabedoria” apenas “o conhecimento de certos princípios e causas” (A, 1, 982 a). Porém não quaisquer, e sim os “primeiros princípios e as causas” que enquanto originários, “é em razão deles e por meio deles que todas as outras coisas se tornam conhecidas.” (A, 1, 982 b)

16 Ora, a primeiridade é que torna problemática a gênese da filosofia, enquanto uma questão bem delimitada de sua oposição ao saber sacerdotal de conteúdo religioso que precede antropologicamente qualquer enunciado de um saber puramente humano, racional. Os antigos não conheciam a ciência experimental que define a emergência pós-feudal dos estudos leigos até agora. Assim o que nós compreendemos como oposição gerativa do sentido é o saber especializado das ciências e um conteúdo que seria generalizado como de princípios de toda a realidade. A especialização das ciências permite distingui-las em função do objeto de cada uma, mas assim não temos conceito para um conhecimento racional de “primeiros princípios”. Hoje tendemos, pois, a confundir saber “de princípios” com explicação religiosa, não racional, ou racionalmente limitado com designação pejorativa de “metafísico”, um sinônimo alternativo para não científico. Porém não importando a generalidade dessa oposição, ou a irredutibilidade entre a prática científica e o “pensamento”, desde princípios do século XX vem sendo constante a tendência a considerar, inversamente, a ciência como um produto da metafísica, uma vez que já se define ciência, mais do que pela indução experimental, como um processo sistemático de construção conceitual.

17 Quanto ao originário, não há dúvida de que a ciência como saber racional está nitidamente relacionada à filosofia antiga. Ora por motivos históricos ligados ao Renascimento e Idade Moderna, quando as descobertas experimentais eram contudo relacionadas a influências teóricas dos textos da Antiguidade que voltaram a circular no Ocidente enquanto se afrouxava o poderio censório da Igreja. Ou por ser na filosofia pioneira que se processou antropologicamente a independência de um discurso relativamente ao sacerdócio. Assim o problema se torna agudo, como se pode compreender, quando, na atualidade, o aprofundamento dos conhecimentos antropológicos e de fontes gregas antigas torna mais complicada a simples oposição, na mente dos primeiros filósofos, das funções relacionadas à religião na Grécia Antiga.

18 Uma vez que se tem feito a reconstituição mais minuciosa dos temas em comum do gênero grego Poema, entre espécimes de Teogonia e Filosofia, sendo a “teogonia” uma forma surgente ela mesma leiga de discurso sobre a religião, que precedeu provavelmente de um século a filosofia, dois extremos da interpretação histórica do problema da gênese do Logos na filosofia estão agora se defrontando. Burnet, com o habitual esquema da oposição entre ambas, de modo que a filosofia aparece na história como a irrupção do Logos independente de toda superstição religiosa; e Cornford, que considera os dois gêneros afins, a questão filosófica do elemento primeiro da realidade, sendo relacionada à questão teogônica do deus primeiro gerador de tudo o mais. Lembrando que na Grécia os deuses eram elementos naturais, essa transposição se torna muito verossímil. Mas como Vernant, que parcialmente segue Cornford, colocou, mesmo que a primeiridade fosse um referencial originalmente teogônico, e que a Teogonia seja interpretada mais em continuidade com o texto religioso tradicional homérico do que como ruptura – o que permanece em questão, independente de sua perspectiva estrutural – restaria explicar por que a filosofia não se expressa como faz a Teogonia, assim como ao mundo de flagrantes irredutibilidades entre elas.

19 A meu ver, porém, a explicação estrutural comum a J. P. Vernant e M. Detienne, que lida com a irredutibilidade histórica de Homero à Teogonia, e desta à filosofia, em termos de deslocamentos que se fazem sobre um substrato opositivo-gerativo primordial - a oposição sacerdotal verdade-esquecimento – convém apenas a uma escolha prévia que se deixa seduzir pela identidade. A explicação serve pois à denegação da ruptura da forma mentis total não obstante o deslocamento ser uma transformação histórica total. Mas não demonstra por que não se a poderia considerar, apenas cerceando como faz as questões que se levantariam nesse sentido. Se realmente, ao invés, postulamos a tese da transformação da mentalidade na consubstanciação do regime democrático grego antigo, duas questões se colocam do modo mais imediato. Na perspectiva histórica, a relação entre a mudança da organização política, do genos nobre homérida à Polis com sua constituição independente e a emergência da democracia jônia. Na perspectiva filosófica, a relação da filosofia com esse processo duplo: “político” (da Polis), e social democrático (laico/igualitário).

20 Um dos aspectos instrutivos da leitura de Ariostóteles acerca dos primeiros filósofos, é que ele não os considera unitariamente. Ainda que tenha cerceado duas idades, o que continua a fazer-se hoje na designação de “pré-socráticos”, de modo que a era socrática é de um modo ou de outro a “metafísica”, vimos como relacionou o cronologicamente pré-socrático Anaxágoras à segunda fase. A unidade fisiognológica, por assim expressar, dos “pré-socráticos” como designamos hoje, é o que permite seccionar o status, e definir Anaxágoras do outro lado da dicotomia. Isso permite colocar em questão o próprio status unívoco da causa material aristotélica. Como vimos com Bornheim, é o que muito se tem feito, e geralmente há reserva quanto empreendimento histórico-filosófico de Aristóteles. Como ele mesmo é tão agudamente um “metafísico”, a redução da multiplicidade das obras anteriores a um só qualificativo tem sido considerado algo forçado, que atende apenas ao interesse da acusação ao que se limita ao “físico” como um estado de incompletude relativamente ao posterior. Mas sem conceder que esse estado poderia ser uma concepção independente da posterior, assim como hoje – ou já desde o Renascimento ocidental - se opõe imanência e transcendência.

21 Porém limitar o visível ao Ocidente seria expor apenas a metade da história. Quando o cristianismo triunfante expulsou os filósofos do território imperial romano e bizantino, em 529, eles se refugiaram no Oriente árabe, e aí desenvolveu-se uma filosofia que interpretou a metafísica mesma, especialmente Aristóteles, em termos de imanência, favorecendo ciências especializadas como a medicina, o que culminou nos grandes sistemas filosóficos de Avicena e Averróis, influentes na Idade Média tardia ocidental. No século XX o mesmo tipo de interpretação fez Heidegger como porém uma descoberta pioneira, facultada no Ocidente pela autocrítica histórica do momento, o que vemos não ser necessariamente o que ocorreu. Em todo caso, essa deriva implica ressituar Aristóteles ele mesmo entre os pré-socráticos ou ao menos como um continuador mais sofisticados dele, contra o platonismo.

22 Numa perspectiva história porém, não há de fato uma dicotomia no interior do conjunto “pré-socrático”, no sentido de postular-se uma “metafísica” - um saber ulterior à physis e que a explicasse - antes de Platão e Sócrates. Só desde a interpretação platônica de Sócrates existe um conceito grego filosófico da transcendência. Creio que também seria objetável o mérito mesmo do que está em causa, pois não há razão para considerar Anaxágoras menos “fisiólogo” do que Parmênides, este que reduziu ao “Ser” a resposta acerca do princípio, negando ainda o movimento aparente, assim não se limitando ao visível.

23. A oposição entre metafísica e pré-socratismo pode ser colocada como vimos, entre pensamentos transcendente e imanência. Repetindo, o que transcende a natureza e a explica como epifenômeno de si mesmo aparece como resposta única validável à questão do princípio apenas desde Sócrates conforme o apresenta Platão em seus Diálogos. Até aí, mesmo conceitos imateriais como o Ser de Parmênides ou o Nous de Anaxágoras eram estritamente imanentes, realidades intrínsecas à natureza.

24 Examinando o argumento de Bornheim, vemos que ele apela bastante ao modo como Heidegger desqualificou a antítese nietzschiana entre Ser e Devir como pivô do que seria a controvérsia comum dos pré-socráticos, a partir da postulação do devir em Heráclito – contra o que se pronunciou o Ser de Parmênides. Concebendo a physis como denominador absolutamente comum entre eles, porém, Heidegger não a define como Aristóteles em termos de causa material, não obstante declarar-se aristotélico enquanto pensador da “energeia” interpretada de modo não tomista, isto é, segundo Heidegger, não socrático-platônica ou “metafísica”. A designação ao texto de Aristóteles – ou à compilação produzida – do título “metafísica” é bem posterior à obra, mas se este não é portanto um argumento contrário à postulação de Heidegger, o mais comum é, como Pierre Aubenque (“Le problème de l’être chez Aristote”, Paris, Quadrige/P.U.F., 1994), considerar que se Aristóteles conhecesse o termo o aprovaria como título mais adequado aos seus escritos. Ele poderia tê-lo inventado. Ou seja, “metafísica” é um sinônimo de “ontologia”, a “ciência do ser enquanto ser”, como de princípios e causas que explicam o ser. Não apenas uma etiqueta para arrolar os livros que vinham “depois da física” nos catálogos dos editores.

25. Aubenque não quis dizer que Aristóteles tenha feito essa ciência, além de tê-la desejado. Para Heidegger, porém, o ser não se apreende entre os pré-socráticos de um modo não polissêmico, com a polissemia relativa ao situamento que envolve o homem que atribui o ser no fenômeno mesmo em que a atribuição se torna efetiva, e Aristóteles teria pensado assim o fenômeno, em termos de “produção”. Seria essa a tradução exata de Energeia, irredutível à romana e medieval. Ora, Aristóteles mesmo ironizou os fisiólogos materialistas conforme os definiu. Ele introduz sua leitura histórica dos primeiros filósofos expondo sua própria doutrina das quatro causas – formal (o que é), material (de que se faz), eficiente (quem ou como faz), final (para que existe) – para assim mostrar que a filosofia até ele mesmo foi progressivamente a descoberta de enunciados pertinentes a cada uma delas, começando pela material com os fisiólogos, e Platão e Sócrates introduzido a causa formal.

26 Era esse o sentido de suas doutrinas, mesmo que os fisiólogos tivessem tido alguma intuição da causa eficiente, e Platão tivesse postulado a matéria ao lado das formas, pois nada disso foi preponderante quanto ao que almejaram definir acerca da realidade. Só ele mesmo, Aristóteles, teria alcançado a doutrina completa das causas, com sua concepção de Deus como causa eficiente e final quanto ao Universo, de modo que a partir daí ele retrocede para criticar como contraditórios todos os predecessores, cujos erros se deviam ao desconhecimento da inteligência completa da articulação causal. O que permite opor a esse procedimento, um texto realmente histórico filosófico a exemplo de Laércio. Em vez de apenas relatar as concepções dos filósofos e informar de que registros proveio a informação sobre elas, Aristóteles os julga, obviamente de um ponto de vista unilateral. Em todo caso, nessa retrospectiva salientou então Aristóteles que o intelecto deveria sentir a necessidade da causa eficiente assim que, de início, pusesse claramente a causa material. E então considerou que os fisiólogos que até aí puderam aportar haviam resolvido ingenuamente a dificuldade sugerindo a unidade do existente, a totalidade do ente já reduzido a um originário elemento material.

27 Para Heidegger, a physis pré-socrática era em si de fato essa unidade. E enquanto Aristóteles reprovava os fisiólogos materialistas por se limitarem a uma concepção do real como do visível, Heidegger fazia das nuances dos verbos “brotar”, “aparecer”, ínsitas segundo ele à etimologia do termo physis, o aspecto mais importante do pensamento que só os pré-socráticos teriam atingido. Uma vez que este vir à visibilidade do ser seria mais do que apenas o visível, o atribuível da proposição verdadeira que porém não seria como para Platão, uma ideia universal, mas sim a expressão adequada à situação atribuível. Não obstante o texto da Metafísica, Heidegger considerou Aristóteles um pensador da physis nesse sentido filosófico da A-letheia, a verdade como Re-velação, mas não no sentido religioso, e sim etimológico, o des-cobrir relativo pois a algo encoberto. Heidegger foi o primeiro, antes da antropologia estruturalista, a interpretar a Aletheia, o termo grego para Verdade, como uma formação que reúne o “a” privativo ao “lethe” que significa “esquecimento”. Assim a verdade em grego antigo é literalmente o não-esquecido, o des-ocultado, o re-velado.

28 Enquanto Heidegger insistiu porém na primeiridade do esquecimento na impressão da palavra a-letheia na mente, de modo que a polissemia seria o substrato dessa acepção, um sentido “outro” sempre oculto, sempre possível, de qualquer atribuição, conforme as situações variáveis, a antropologia estrutural com Vernant e Detienne especialmente mostrou como o “esquecimento” pertenceu na origem a um significado bem definido. Especialmente Detienne em “Os mestres da Verdade na Grécia Arcaica” (Rio de Janeiro, Zahar, 1988) mostrou que, como era o poeta homérida, numa época sem escrita, que decorava o texto da religião para recitá-lo nos ritos sagrados, e a religião era toda a verdade pensável enquanto “o” sagrado, a verdade era então o não-esquecido como o efetivamente conhecido. A memória mesma era uma deusa, Mnemosyne, mãe das musas, os seres encantados, sobrenaturais, responsáveis pela condução das artes entre os homens. A verdade não tinha definição própria independente do ser o contrário do “esquecimento”. Não havia o termo para “mentira” como o propriamente falso, mesmo que houvesse os sentidos do erro (ápate) – induzido por uma potência maléfica, Ate – e do “engano” induzido propositadamente, com intenção estratégica, pelas musas que sacralizavam a memória do poeta como um dom.

29 Ou seja, se a verdade, e por extensão a palavra, continha ambiguidade, não era por ser polissêmica como pensava Heidegger. Inversamente, conforme a análise linguística de Detienne, era por ser mântica e profética por um lado, ou falhar nessa atribuição, deliberadamente ou por esquecimento do revelado por vias sagradas. O rei, designado “basileu”, que era na Grécia arcaica o sumo-sacerdote entre os nobres, tinha a mesma atribuição do verdadeiro que o poeta inspirado ou que o adivinho, o vidente que recebera o dom do deus. Essa função da basiléia, a “realeza”, porém abrangendo o enunciado do julgamento ordálico, oriundo de um rito mântico que garantia a intervenção dos deuses na administração da justiça e garantia a basiléia contra a pretensão dos não pertencentes à linhagem real, conforme genealogias que costumeiramente atribuíam parentesco da linhagem com algum deus ou ente sobrenatural, como Aquiles, filho de Tetis. A basileia e a aristocracia eram pois instituições não impostas por homens, mas o reflexo social da ordem do Universo, personificada pelos deuses.

30 Quando surge o regime da Polis e a filosofia, o que ocorre conforme Detienne é a variação da oposição pioneira pelo deslocamento de um dos termos opostos. Inversamente ao esquecimento, o contrário da verdade se torna o “pseudés”, o falso positivamente ao invés de apenas enganoso. E como a caução mântica não tinha função na democracia legal, o falso se tornara condição de possibilidade da palavra humana. Assim surge a oposição entre verdade e opinião. A verdade se preservou contudo, como a exigência de validez do filósofo, que surge como sucedâneo daquela posição sagrada que antes era a do rei sumo-sacerdote.

31 Mas assim o que a antropologia estrutural da escola francesa define é uma transformação das mentalidades ela mesma algo sui generis. Não há uma verdadeira democracia, há uma comunização do mesmo Poder do sacerdócio inerente à realeza. Especialmente Vernant insistiu em que a cidadania na Grécia clássica era denotada como um status de privilégio não de todo laicizado, o que tem um sentido possível uma vez que efetivamente existia uma religião cívica de observância legal, conservando o referencial panteônico homérico. Porém as mudanças em termos de ritual e agentes, entre a religião legal do arcaico e clássico, não foram de fato tematizadas por si mesmas na antropologia estruturalista – também a opção pela unidade já havia se estabelecido entre os funcionalistas como Arendt. Vernant e Detienne enfatizam somente o que podem ser consideradas derivações no plano das práticas de costumes, como a emergência da filosofia e de artes leigas. Simônides de Ceos, o poeta que cobrava para eternizar a memória dos ricos em poemas encomendados para tal fim, foi um dos primeiros a explorar conscientemente a temática da ápate ou engano como próprio das coisas humanas.

32 Na peroração de Simônides de Céos, sem o falso ou o engano não poderia haver artes, pois que são apenas símiles do real mas só valem se puderem parecer que são reais. Nesse argumento de Simônides reportado por Detienne, talvez possamos inferir que o fato de semelhança não priva a consciência do receptor de que é arte em vez da coisa mesma. Mas na Grécia um critério do êxito estético era conseguir neutralizar essa consciência da mera similitude, assim na história da pintura de frutas a que vinham bicar os pássaros, ou da pintura de uma cortina, que ao ser exibida fez o expectador solicitar ao artista que removesse a cortina suposta diante do quadro para que ele o pudesse ver. Seignobos observou que os artistas gregos eram exímios na arte do engano genial, a ilusão irreversível, produzindo por exemplo a impressão de linhas sinuosas numa coluna quando na verdade eles traçavam linhas retas. Em todo caso agora as artes são puramente humanizadas, a produção de alguém que conhece uma “técnica” – “Teckné” – especializada. Não sei se Homero já empregava o termo, pois muito da linguagem homérica não foi conservada na dos gregos da Polis que também acrescentaram termos antes desconhecidos, mas Teckné realmente é a palavra que na Polis designava “arte”.

33 Heidegger conserva o mesmo axioma da continuidade gerativa do basileu homérico à Polis democrática, em termos de comunidade de sentido da a-letheia. Porém para ele, como vimos, isso significa praticamente o contrário do que para os estruturalistas. Para Heidegger, o des-coberto, implicando que algo continua encoberto – o sentido que não se esgota num único acontecimento situado de atribuição. A polissemia que podemos considerar a moeda corrente da linguagem poética, aquela que tece o mito. A metafísica é o produto de um erro de interpretação, possibilitado por alguma mutação interna à história grega, tal que o sentido do verdadeiro se tornou único, o universal “epistêmico”, do mesmo modo que hoje se diria “científico”.

34. Para os estruturalistas, na era da basileira o verdadeiro é o contrário do esquecido como de um único e sagrado referente, enquanto na Polis ele é o contrário do falso. O falso é um deslocamento humanizado, comunizável, do esquecido como possibilidade particular do homem da verdade, o sacerdote ou o rei, ambas as posições sancionadas do vidente. O deslocamento implica portanto obsolescência de uma função da verdade restrita à posição de quem fala, de uma fala que os outros recebem como o decreto ao mesmo tempo governamental e sobrenatural. O falso é uma possibilidade da palavra de qualquer um, que se dirige interlocutivamente a qualquer outro. Quem quer que se engaje na interlocução não tem respaldo do que fala além do que possa provar, surgindo assim a questão de como se sabe. Mas essa questão está abstraída na apresentação estruturalista. Há somente o deslocamento do esquecer único ao falsear comum.

35 O estruturalistas viram no filósofo o contrário de Simônides ou dos “sofistas” que na Polis democrática ensinavam a manejar a palavra oportunisticamente, segundo as convenções apenas para convencer, no tribunal, na assembleia política ou no trato cotidiano. O filósofo teria se encarregado de preservar o âmbito da verdade originalmente religiosa, se bem que já oposta à falsidade – portanto o contrário do que pudemos evidenciar, aquele que coloca primeiramente a exemplo de Heráclito a questão de como se sabe em geral. Na apresentação estrutural, é bem irredutível. O filósofo era uma figura com traços sectários, um tipo auto-concebido de iluminado oposto ao comum dos homens.

36 Para Heidegger, como vimos, ao contrário tanto do nosso criticista originário como do sectário estrutural, na origem a ambiguidade da palavra era a consciência da polissemia oculta, o pensamento de um impensado sempre à espreita, subjacente ao fato mesmo da palavra ser ordenadora em meio à experiência fenomênica do Homem. Heidegger não podia considerar a aletheia numa acepção de âmbito divino. Mas pensando bem, independente da sua delimitação do Homem no sentido da palavra mesma, tampouco ele podia descartar totalmente esse âmbito divino, se a polissemia alcança a esfera do mito onde viceja a palavra poética como a experiência originária do Ser. Para Heidegger, não obstante, a composição do des-ocultado é ela mesma a condição humana e situada do Logos.

37 Para Heidegger o filósofo pré-socrático não muda, antes recolhe conceitualmente o que era até aí o uso corrente, a mentalidade intrínseca, exclusiva, da língua grega. Quando Sócrates e Platão introduzem a exigência da definição e a doutrina das ideias transcendentes como paradigma do definível, só se poderia assim concluir que se tratou de mutação histórica na Grécia, uma fase irredutível ao anterior, uma transformação da própria língua que na filosofia já não pronuncia o ser da verdade, a aletheia, mas a realidade, a ideia. A metafísica, assim, confunde a racionalidade, na acepção anterior do pensamento, o logos que horizontaliza, com o saber unívoco, universal, eidos, ousia ou idea. O contrário da polissemia, a redução do termo ao sentido único suposto correspondente a esse real tornado “substância”, “ser” nesse novo sentido, o imutável, a essência precedente e oponível à existência. Uma oposição que Mircea Eliade não concede ter havido jamais na mente do homem religioso, portanto que não devia ser estranha à mentalidade pré-filosófica, inversamente ao que pudesse supor Heidegger. Este porém pode ter suposto o principal, o fato da inexistência da transcendência, o céu das ideias, antes de Platão.

38 Mas independente da irredutibilidade de interpretação, é comum entre estruturalistas e existencialistas heideggerianos a tese da continuidade da filosofia – ao menos a nascente pré-socrática – e religião grega antiga, de modo que mesmo se influências internacionais pudessem ser verificadas, há uma sistemática da mentalidade grega que abrange e explica os seus gêneros de discurso. O que a tese não permite examinar com mais minúcia, é justamente o modo como essas influências foram determinantes na origem da filosofia, não no sentido de que a Grécia nada criou. E sim, inversamente, naquele pelo qual nossa perspectiva dos textos deveria estar atenta aos modos pelos quais os gregos transformaram os conteúdos descobertos em seu novo status de expertos navegadores em rotas internacionais de comércio e colonização, após a idade das trevas da interiorização e regime aristocrático devido às invasões entre os séculos XII e VIII ac. E assim criaram outros, na contingência do seu modo de vida voltado à construção política – etimologicamente, da Polis - desde a transição ao século VII.

39 Vemos por exemplo como Pitágoras era tão hostil aos mitógrafos da religião dos deuses antropomórficos. Porém só podia pintar o erro deles por meio de figuras bem homéricas, misturadas com sua crença de origem oriental da eternidade da alma volitiva e destino kármico. Assim, professando lembrar-se das vidas anteriores, os nomes do que havia sido, etc., conforme Laércio, ajunta ter visto os mitógrafos no mundo dos mortos, o Hades grego, sendo castigados pelo que disseram dos deuses como passíveis de paixões, ciúmes e demais vicissitudes humanas.

40 A consciência pitagórica era portanto bem ambígua, por um lado a lei suposta natural do karma, como de causa e efeito, com a doutrina da “anamnese”, a “recordação” das vidas passadas, como meio evolutivo da alma, do homem a herói, espírito e deus. Por outro lado o tradicional esquema do deus vingador – não obstante a crítica ser ao antropomorfismo religioso. Ambiguidade que não devia ser incomum nessa época de afirmação da Polis.

41 A mudança na concepção da alma, de apenas sombra do corpo em Homero, a dotada de volição e “logos”, processou-se primeiro na lírica eólica, como entre Alceu, Safo e Arquíloco. Assim se explica a superveniência do gênero lírico após a função religiosa da épica, ou seja, como emergência da mentalidade do homem como ser de decisão e sentimentos independentes, já não apenas reflexo da realidade divina. Heráclito introduz a atribuição do “Logos” à alma, dotada assim de profundidade. Porém enquanto nada dos fragmentos dos escritos heraclíteos permite deduzir relação com os conteúdos da cultura internacional, permanecendo bem grego na sua devoção de efésio a Ártemis, a alma não tem realmente função reveladora na sua filosofia do devir como da justiça imanente da sempiterna compensação dos opostos. Onde a alma tem uma função assim é só em Pitágoras e Empédocles, tributários da influência oriental, especialmente a dos magos caldeus, que lidam portanto com a doutrina do karma. Este é o fio que desencadeia a metafísica socrático-platônica, na qual as consequências da função anímica na concepção filosófica encontraram-se radicalizadas ao extremo.

 

II )

1 A nossa problemática da origem da filosofia, que pela delimitação grega desdobra-se na questão do regime político-democrático, se enuncia pois nessa convergência de filosofia e política. Por um lado, não se obtém de fato confirmação da tese da ruptura da mentalidade, ao contrário da continuidade da fantasia do prestígio aristocrático na condição da cidadania antiga, querendo para isso utilizar-se da palavra e exemplo dos filósofos. Eles mesmos puderam estar divididos entre partidos contrários, como de fato ocorre especialmente na oposição aristocrática que Platão moveu a pensadores que enfeixou de modo algo indevido na designação generalizante de “sofistas”, na qual misturou exemplos de políticos adeptos de várias facções, entre democracia e tirania, nem sempre permitindo-se compreender bem qual a opção era a seguida pelo antagonizado socrático do Diálogo. Como vemos, a definição do estado de coisas como definitiva transição da aristocracia homérica e arcaica à democracia clássica é uma generalização indevida, não só porque havia Cidades-Estados gregas que não foram democráticas, como especialmente a Sparta de etnia dórica, mas também porque no interior da democracia nas cidades de etnia jônica, especialmente na principal, Atenas, continuou havendo expressiva oposição aristocrática ao novo regime.

2 Na altura da produção platônica, paralela à condenação de Sócrates por impiedade, entre os séculos V e IV ac., após a guerra do Peloponeso, a oposição à democracia era exemplar das elites em Atenas, aglutinando-se como efetiva simpatia ao regime de força militarizado espartano. Um nazi-fascismo escravista como que os totalitarismos imperialistas racistas do século XX tentaram impor, nesse caso a raça inferiorizada sendo os gregos messênios, a unidade da força militar spartana não sendo a função normal do exército, mas apenas o ideologema da superioridade racial sobre aqueles enquanto vencidos na guerra movida para fins de escravização.

3 Não importou nesse cômputo que Sparta, após a vitória contra Atenas – uma vitória obtida apenas pela traição que atenienses adversários fizeram ao engenhoso plano de Alcibíades para conquista estratégica da Sicília, único meio de atacar Sparta por mar, de modo que Alcibíades para vingar-se revelou aos espartanos todos os pontos estratégicos atenienses – tivesse neutralizado a garantia que outrora Atenas havia dado às cidades gregas da Ásia menor contra a dominação persa. Sparta devolveu essas cidades, que Atenas libertara nas guerras médicas, aos medo-persas, pagando assim a dívida a quem a auxiliara contra a democracia ateniense. Para os aristocratas como Platão e Xenofonte, a simpatia à monarquia pudera se estender sem obstáculos de índole patriótica ao elogio do grande rei da Persia, desde que Sparta efetivamente aristocratizou toda a Grécia que caiu sob seu domínio após a derrota ateniense. Mas Platão seguiu adiante para sistematizar os lineamentos do regime, como fez nas “Leis”, criticando assim o que pudera restar a seu ver de grosseiramente material nos regimes efetivamente existentes, de modo a conceituar de modo supostamente racional o rei sábio, o filósofo como alma que mais que todas as outras, guardava a memória das ideias reais que vira na eternidade.

4 Quanto a Xenofonte, mais prosaicamente, a derrota subsequente de Sparta frente a Tebas arrefeceu o fascínio, porém apenas para transferir a admiração pela opção oligárquica ao agrarismo campesino que, de modo muito oponível ao elogio do pequeno trabalhador em Hesíodo, era agora personificado pelo senhor de terras. O latifundiário que reinava regional e supostamente de modo consciencioso e ético, junto à esposa de atuação comunitária providencial, sobre os seus servos.

5 Se, portanto, por um lado, o discurso dos filósofos ou sua atuação política não poderia provar que a filosofia emerge como função de alguma verdadeira ruptura de mentalidade democrática, por outro lado também não é verdadeiro o contrário, isto é, que se poderia, sim, utilizar a palavra e exemplo do “filósofo” antigo para confirmar a tese da continuidade da religião à filosofia gregas, como da mentalidade de basileia e democracia da Polis. Não considero que a posição estruturalista dos filósofos como seitas iniciáticas que perpetuam o mesmo saber místico que teria sido princípio da soberania aristocrática seja legitimamente defensável. Um dos aspectos deficientes da demonstração da tese da continuidade é a abstração da realidade histórica como a reporta por exemplo Rostovtzeff.

6 Já desde a época da Teogonia, subsequente a Homero, como em Hesíodo entre os séculos VIII e VII ac., a sublevação dos plebeus ao regime da nobreza era violenta como guerra aberta, exemplificando Rostovtzeff com Mileto, onde primeiro os plebeus vitoriosos eliminaram as mulheres e prole dos aristocratas, mas depois estes se vingaram de modo horrendo, incendiando viva toda a população dos adversários plebeus (“História da Grécia”, Rio de Janeiro, Zahar, 1983, p. 88). A essa altura os nobres haviam neutralizado o poder do rei, e eles mesmos governavam despoticamente à testa de suas famílias, utilizando-se de recursos de prestamistas para assegurar escravização dos servos por dívidas, uma vez que o comércio havia retornado e concorrência monetarizada se apresentava à riqueza agrária.

7 Aparentemente o período da democracia após a estabilização de tribunais racionais representou a humanização das relações sociais na Grécia Antiga, enquanto regimes de tiranos nesse ínterim apareceram como meio de contornar a oposição frontal dos dois partidos. Não devemos considerar os tiranos sempre no sentido pejorativo que o termo veio a ter depois sendo hoje corrente. Houve homens amados como Enyalios, o tirano a quem Arquíloco dedicou a obra, e Laércio registra o pensamento de Periandros entre os “sete sábios”, aqueles que teriam sido, independente dos pré-socráticos mesmo se incluindo Tales, os fundadores da tradição grega – o número sendo apenas simbólico, geralmente havendo menção a mais nomes. A propósito ver o meu “Filosofia, Ceticismo, Religião; com um estudo sobre Diógenes Laércio” (Quártica editora)

8 Mas se a democracia predominou ulteriormente, introduzida por um programa de abolição das dívidas para impedir a escravidão por insolvência, o igualitarismo de status é ainda hoje controvertido como assinalamos, quanto ao modo como era de fato compreendido, e, em todo caso, a mentalidade de superioridade aristocrática em bases míticas nunca de fato feneceu, atuando na cultura contra a mentalidade igualitarista. Ao menos creio que seria importante aos nossos intuitos de entender a Grécia Antiga, não abstrair o fato desse igualitarismo existir numa base política. Mas por que se tem tanto insistido nessa abstração? Afinal no mundo antigo a democracia grega foi passageira, e os impérios macedônio e romano dominaram a Grécia de uns e de outros, tiranos, democratas, monarquistas ou oligarcas, não permitindo que continuasse politicamente autônoma. Além disso, na atualidade o mesmo imperialismo – vindo desde o colonialismo pós-feudal que já soma quinhentos anos – é o oposto de democracia tanto para mentalidades igualitárias como para aristocráticas.

9 O obstáculo à nossa tese da ruptura, pelo qual uma posição definida aristocrática não se pode atestar unívoca na mentalidade grega antiga, pode ser contornado. Ao menos seria necessário precaver-se com relação ao uso da expressão “luta de classes”, que costuma ser usada contextualmente para o processo generalizado de antagonismo entre aristocracia dos genos e cidadania da Polis.

10 Na verdade uma luta de classes como ação e conceito de um proletariado existiu na Grécia Antiga, mas só muito mais tarde, quando já na era helenística a Sparta derrotada por Tebas achou-se numa situação financeira deplorável.

11 A situação foi generalizada na Grécia dominada pelo Império, mas grave lá especialmente porque o sistema militar de Sparta era originalmente de fato um escravismo senhorial, isto é, ideológico, feroz contra o povo grego dos “messênios”, mas assim também economicamente determinante da classe superior, e Tebas libertou a Messênia assim que logrou vencer na guerra contra Sparta.

12 Assim nela, segundo Rostovtzeff, o problema especificamente social de ricos e pobres, assolando a Grécia após a emergência dos impérios helenísticos, transformou-se numa reforma praticamente revolucionária durante o século III ac. Inspirada parcialmente pela revolta contra a dominação estrangeira que nunca se importou em resolver o problema social grego originado na crise econômica desse século, devido ao próprio sistema dos reinos helenísticos, como no Egito e alhures, que dependia da opressão da população pobre para o trabalho pesado, da agência de prestamistas e do escravismo. Enquanto que, por outro lado, o imperialismo comercial grego sobre porções orientais foi destruído pela emancipação dessas porções. Independente da situação na Grécia, Rostovtzeff informa que a pauperização continuada de amplos extratos populacionais nos impérios helenísticos foi o motivo pelo qual surgiu o movimento proletário antigo, que não deveu qualquer iniciativa à criação dos filósofos.

13 A tentativa de revolução comunista espartana foi portanto aplicação da concepção do proletariado como de conflito de classes generalizada na época. No âmbito spartano, os reinados de Agis IV e do sucessor, o rei Cleomenes III, em Sparta foram programas de reforma social proletária, comunista. Alguns como Rostovtzeff consideram que já o sistema militarizado escravista original em Sparta era comunista – ao menos quanto ao status dos cidadãos não escravos – o que porém é algo forçado considerar, como se pode ver no testemunho de W. Jaeger (“Paideia”, São Paulo, Martins Fontes, 1994).

14 Um testemunho confiável até porque Jaeger, devido ao seu radical platonismo, se mostrou um fervoroso admirador do senhorio espartano, a que reduziu o seu sentido da “Educação” devido à unidade da ideia propagada, não obstante a princípio assim restrita à ideologia da força militar, com letramento restrito a semi-analfabetismo comunitário, ao contrário da cultura mais sofisticada do mundo produzida em Atenas. Porém Jaeger se mostra um aristocrata muito mais finamente instruído e muito menos vulgar do que a falsificação nietzschiana do platonismo como populismo, e, inversamente, salienta como Platão é um produto da influência espartana e senhorial na Grécia, um típico opositor tradicionalista interiorano agrário ao cosmopolitismo modernizante comercial marítimo.

15 Naturalmente Jaeger expressa concepções típicas do pensamento alemão da metade inicial do século passado, que ainda tem importantes ramificações na atualidade, porém reconstitui com minúcia muito daquilo que ele mesmo pretende denegar como a heterogeneidade da cultura grega. A democracia ateniense aparece ainda assim na obra de Jaeger, de um modo muito ostensivamente tendencioso, apenas como degeneração do que teria sido a ideia original unitária da “Educação” , a “Paidéia” grega aristocrático-homérica. Como se a história da derrocada ateniense confirmasse uma pressuposta impossibilidade lógica da massa ser consciente por si só.

16 Desse modo contudo, bem ao contrário de um comunismo originário, como vemos em Jaeger a Sparta senhorial era ideologia de prestígio muito desigual pela paranoia da atribuição de valor guerreiro e típicas invejas femininas entre as jovenzinhas, e o descontentamento social a propósito das parcas recompensas não obstante todo o esforço de guerra é registrado. Agora, na era helenística, como Rostovtzeff reconstituiu, tratava-se para os espartanos depauperados de reformas como algo consciente, com objetivo proletário comunista. Um programa de abolição de dívidas mas também distribuição de terras.

17 Porém Cleomenes só conseguiu realizar esse programa comunista de Agis por meio de violência interna, e, após ter obtido sucesso, à testa de uma “Sparta recuperada”, conforme Rostovtzeff, tentou recuperar também a hegemonia sobre toda a Grécia aliando-se aos partidos proletários das demais cidades, por onde seguiu-se apenas a repressão por parte da Macedônia liderada então pelo rei Antigono Dóson (Rostovtzeff, op. cit. p. 280 ,281). Mais tarde Sparta repetiu a tentativa, com Nabis, porém a essa altura, em 207 ac., Roma já estava assegurando autoridade sobre a Grécia, e não só se inviabilizaram as intervenções reformistas como toda importância de Sparta na Antiguidade se esboroou.

18 Rostovtzeff proporciona uma compreensão sucinta mas bastante adequada das relações da história da filosofia com o comunismo proletário do século III ac. Na verdade foi nenhuma, pois enquanto os dominadores macedônios da Grécia baixavam decreto após decreto proibindo a qualquer cidadão estipular o cancelamento da dívida e a distribuição de terras, “os filósofos consideravam o problema de riqueza e pobreza como uma questão de moral pessoal”. O que acontece é o retorno da guerra civil entre classes opostas que havia gerado a Polis, porém agora não de plebeus e nobres, mas de proletários e burgueses, com as mesmas feições de violência e extermínio da população de parte a parte conforme a vitória sorrisse a um ou outro dos dois partidos.

19 A organização do proletariado foi obra dele mesmo, não da classe culta. Quanto a esta, porém, realmente justifica o termo “helenismo” para a época da dominação imperial pós-democrática, como influência internacional da cultura grega. A meu ver como coloquei em meu citado livro, o helenismo é realmente o substrato da nossa própria época atual, no sentido que ela possa ter num contínuo desde o século XVII como restauração do absolutismo em função do imperialismo escravista colonial. O capitalismo, imperialismo tout court na forma do monopolismo contra a livre empresa, realmente não sendo a democracia nem a organização social constitucional, mas o contrário destas. Aspectos do helenismo que são iguais ao nosso tempo podem ser arrolados. Uma classe internacional de status capitalístico, que tinha monopólios comerciais, fortemente miscigenada, que não se localizava no país de origem mas tinha domicílios elegantes nas principais capitais conforme seus interesses de negócios internacionais. Os impérios, afinal concentrados em Roma, dominavam portanto as economiaas nacionais, por onde concentravam o poder monopolista que as subjugavam. Esse sendo porém apenas o resultado de um trajeto muito mais antigo pelo qual desde o Oriente, de Acad a Babilônia e Assíria, sucederam-se focos imperialistas, os que açambarcavam os anteriores sendo mais abrangentes que eles, até a Persia esbarrar com a democracia grega, mas a hegemonia ateniense ser vencida pela Macedônia, daí passando o poder já totalizado do mundo antigo a Roma. Como hoje temos um imperialismo praticamente unificado pela potência militar estadunidense.

20 Essa classe cosmopolita capitalista antiga, falando uma única língua culta, o grego, opondo-se como ao status baixo a nativos que não tinham mobilidade espacial e que falavam a língua nacional. Os mercenários como uma faixa que pela mobilidade espacial tinha certa comunhão com a elite como na classe média atual. Já havia trabalho assalariado, e, como vimos, consciência do proletariado. Uma mesma cultura representando o status da classe internacional, os mesmos artistas e as mesmas apresentações, tudo de origem cultural grega, sendo constantes nas mesmas capitais do mundo. Uma amplitude de trocas comerciais e industriais abrangendo de Roma à China e Índia. Ao contrário do que Weber dissera, um sistema bancário e de representação de interesses financeiros como Rostovtzeff considerou em termos de “capitalismo antigo”.

21 A filosofia tem na era assim designada helenística – porque vencida, a Grécia, nação dos “helenos”, dominou culturalmente a todos os impérios que a conquistaram – papel importante. Pois se temos “o direito de chamar essa era de criadora”, conforme Rostovtzeff, é pela “ligação íntima entre religião e moralidade” que então se devia “à filosofia... especialmente o estoicismo, à literatura que debatia avidamente os problemas da moral pública e privada, e ao contato com as religiões do Oriente”.

22 Na verdade a filosofia grega se depurava do interesse especulativo para adaptar-se a um mundo que o ignorava inteiramente, por meio da reserva à moralidade do seu interesse conceitual, com as “escolas de felicidade” que pregavam o prazer (epicurismo, cirenaísmo) ou a abstinência dele (cinismo, estoicismo) como meios de salvar-se da corrupção geral. Essas escolas emergem na transição do século IV ao III ac. O culto da Tiquê, a deusa da Fortuna, a sorte e o acaso, suplantou na era helenísticas todo o panteão antigo, como uma forma de pensar pela qual o sábio é adaptar-se à circunstância. É algo pouco visado o fato da Tiquê ter tido expressão importante em Arquíloco, nos inícios da emancipação política grega, como experiência de Deus, e agora o helenismo a tenha universalizado.

23 Mais tarde o “sábio” helenístico macedônico, aquele que tem um “saber de si”, autognose que lhe faculta a regra de vida da escola que segue com vistas a se tornar feliz, se transforma no “santo” na era do cristianismo romano. Com as escolas de felicidade mudando para as seitas iniciáticas de salvação da alma, formando um contexto generalizado de superstição e denegação de qualquer realidade não sobrenatural. O neoplatonismo, lado a lado com elas mas sobrepujando a profusão de seitas iniciáticas que então abundavam numa proliferação que incluía o vezo dos sincretismos, era então a concorrência mais conspícua ao cristianismo. É nesse ambiente que Platão e Aristóteles, substratos do neoplatonismo, plotiniano ou de outros, se tornaram o resíduo da alma filosófica antiga, o contrário do ostracismo que experimentaram durante o período das escolas de felicidade. Pois Platão especialmente, como metafísico, permitia expressar na filosofia a preminência do mundo espiritual como explicação do Real. O antagonismo de filosofia e religião foi assim logo depois superado pela apropriação religiosa do platonismo, com Santo Agostinho – séculos depois a de Aristóteles por São Tomás de Aquino.

24 Para Rostovtzeff , contudo, esse amálgama de filosofia e moralidade que caracterizou já a era inicial helenística “tomado em seu conjunto, preparou o solo para o crescimento do cristianismo” que então emerge da pregação de Jesus. Mas com Bréhier (Histoire de la philosophie), atesta-se que nesses primeiros anos da era cristã a generalização do misticismo salvífico era tão universal que o cristianismo anti-filosófico se manteve o lado sóbrio da sociedade. O neoplatonismo de Plotino, a seita gnóstica e inúmeras misturas de filosofia com crenças mágicas-religiosas se propagavam num quadro como o que Bréhier reportou, de total recusa das explicações factuais para os fenômenos, paralelamente a um crescendo de leis contra práticas de adivinhação ou de feitiçaria, ambas costumeiramente usadas contra pessoas, “perigo” no qual toda gente cria seriamente.

25 Porém se “helenismo” significa em história a grecização das religiões orientais, assim como da cultura dos impérios antigos, com o grego sendo então a língua internacional, Rostovtzeff considera que primeiro o Oriente influencia a Grécia, não obstante a ela repugnar a rudeza e vulgaridade oriental de modo a adaptar exclusivamente aos seus critérios de moral e religião os deuses e rituais do exterior, “numa palavra, helenizá-los”. Já vimos que o contato com as religiões orientais precede de muito o “helenismo”, mas como Rostovtzeff nota, agora há elementos próprios. A adaptação dos deuses orientais aos gregos já é feita sem relação com a Cidade, torna-se abstrata como ideia do sagrado em geral, o que explica porque aos gregos não repugnou a divinização da realeza que caracterizou a era imperial, o que seria espantoso na época da sua autonomia. Os epítetos gregos, como conceitos da encarnação do divino no humano, foram úteis na sagração dos imperadores endeuzados: Sóter (salvador), Teo (deus), Epífanes (o revelado), Euergetes (benfeitor), novo Dionísio e novo Héracles – eis um rol de títulos da realeza helenística (p. 285 e segs.)

26 Inversamente, na Grécia politicamente autônoma o processo político e democrático foi conduzido no interesse do que se poderia hoje considerar a burguesia comercial, ainda que considerável igualitarismo tenha existido em Atenas, conforme Rostovtzeff, não sem preservação, circunstancial ou deliberada, do sistema de captura escravista por guerra – ao contrário de Sparta, porém, contra o estrangeiro, prolongando o regime anterior, quando ainda havia os nobres mas já havia ocorrido a revolução comercial monocultora latifundiária da nova classe rica. A monocultura latifundiária foi o que introduziu o escravismo na Grécia não spartana.

27 Assim aqui o que se poderia colocar como fator decisivo na tese da ruptura da mentalidade relativamente à aristocracia e basileia arcaica, é a organização social como o elemento que realmente estava em marcha no processo de formação da Polis, inversamente a conflito de classe no sentido do proletariado.

28 Ora, contrariamente à postulação dos primeiros filósofos como sectários que repetiam privadamente o que havia sido antes a sacralidade da basileia ritual, é certo que os filósofos pioneiros não eram os sofistas da democracia, estes pensadores exclusivos do “nomos” ou legalidade civil, que duvidavam de qualquer prova de saber sobre a “physis” ou natureza, e que cobravam lições de retórica para ensinar os cidadãos a defenderem seus interesses nas assembleias ou formar representantes políticos das Cidades-Estado. Porém aqueles primeiros filósofos da physis não eram contrários à Polis organizada de modo irredutível ao genos, tipos de feudos reinóis que a precederam. Uma oposição assim, e de modo que uma teoria “política” no sentido atual se tornava interna à filosofia ainda que por um interesse contrário ao nosso objetivo democrático contemporâneo, só emerge com Platão e o Sócrates dos seus Diálogos.

29 A propósito, o que vimos sobre Sparta é importante considerar. Nela, sim, uma continuidade cultural dos tempos arcaicos foi documentada como objetivo máximo conservar, porém o que resultou não foi nem poderia ser qualquer elemento novo, qualquer criação letrada. Uma evidência, pois, contrária à tese da continuidade da cultura arcaica na filosofia clássica, pois onde houve continuidade factualmente não se verificou surgimento de cultura filosófica qualquer.

 

 

III

 

1 A propósito da Grécia, Derrida parece equivocar-se, no seu “A Farmácia de Platão” (São Paulo, Iluminuras, 2005). Versando sobre o Fedro platônico, Derrida advoga a causa de uma comunidade profunda entre a metafísica e a própria sofística, como unidade de mentalidade grega em torno da oposição fala/escrita. Essa unidade se construiria em torno do Logos, enquanto ideal - neuroticamente restrito ao modelo da fala, recalcando-se qualquer conaturalidade linguística da fala à escrita. Derrida assim pretende estar localizando na origem grega o preconceito formativo, o “logocentrismo”, que ainda hoje manteria o vinco idealista no tecido mesmo da emancipação ocidental do saber – assim se há libertação “gramatológica” possível da dominação na ciência, ela só poderá emergir numa história crítica do saber ocidental, i.e., ideal e formativamente platônico.

2 Há pois, em todo caso, conforme Derrida, uma proscrição tradicionalista na origem da ciência racional, proscrição do signo como pensável na sua materialidade, como da linguagem pensada em termos de signo inversamente ao idealismo da voz como veículo do significado ideal, assim seguindo-se uma oposição fantasiosa, praticada contudo por meio de racionalização argumentativa, à escrita como possível meio de comunicação real. A contradição do idealismo, pois, na construção de si como de um conceito unívoco porém apenas enunciado na oposição à escrita, do que seria ao mesmo tempo significado ideal e voz unicamente veiculadora do sensível, reunidos na fala viva. A voz expressando as paixões da alma e a alma refletindo a realidade ideal, sem termo médio entre eles, tanto mais aristotélica é a definição exemplar após Platão, etc. Proscrição universal da escrita tal que, mesmo não se pretendendo abstrair a irredutibilidade em si de sofística e platonismo, assim como do sentido da proscrição em cada um deles, os sofistas excluindo a escrita por simplesmente ineficaz, o platonismo por razões espirituais, ela os une fundamentalmente como “gregos” enunciadores do Logos.

3 Ora, se Derrida elide na sua leitura do Fedro todo o contexto religioso extático e erótico do platonismo que aí se expressa, um verdadeiro elogio da loucura, e uma vez que ele privilegia um sentido puramente racional da religião platônica que não confere com o que o Fedro veicula, isso se deve a sua abstração de muito do que é efetivamente expresso na letra dos Diálogos, como podemos ver no seu comentário sobre o “Hipias maior”. À página 54 do seu livro, Derrida expõe um trecho do Diálogo por ele introduzido como amostra da oposição forçada de Sócrates, entre o saber e a aparência do saber que seria apenas a que o sofista estaria restrito. Derrida objetiva pois, primeiro mostrar como Platão irmanou a escrita e a sofística como meios de falsidade, para depois inovar na demonstração do parentesco sofístico do platonismo como proscrição da escrita.

4 Assim, sobre o “Hipias maior”, sob o crivo da acusação disfarçada de Sócrates às artes de engano de Hipias, que este porém considera como ciência real devido à sua especialização, o Diálogo mostraria que “ele [o sofista] responde, assim, à solicitação dos jovens ricos que formam a sua assistência, e é entre eles que é mais aplaudido. Após ter confessado que os jovens admiradores não podem sofrer ao ouvi-lo falar da mais bela parte de sua ciência (Hippias maior, 285 d), o sofista deve dizer tudo a Sócrates”. E em seguida Derrida transcreve o trecho do Diálogo em que Sócrates pergunta a Hippias sobre o que, se é assim, a assistência gosta de ouvi-lo exibir-se, ao que ele responde: “As genealogias, Sócrates: aquelas dos heróis e dos homens; as narrativas referentes à antiga fundação das cidades; e, de uma forma geral, tudo o que se refere à antiguidade; tanto que tive, por causa deles, de estudar e trabalhar todas essas questões.” Aduzindo mais um pouco do trecho, Derrida comenta em seguida que na perspectiva de Sócrates, “na verdade, o sofista aparenta tudo saber, sua ‘polimatia’ (Sofista 232 a) nunca é mais do que uma aparência”. Ora, Derrida omite completamente que esse trecho do Hippias não reporta nada sobre a assistência costumeira das exibições de Hipias como um sofista célebre na Grécia, que se fez rico devido ao sucesso público de suas exposições. Hipias está contando a Sócrates o que lhe acontecia de modo habitual, exclusivamente em Sparta.

5 O contraste da predileção espartana com a assistência das cidades cultas, todas as demais que se espelhavam na exemplaridade de Atenas, é sobremodo ressaltado por Platão nesse trecho do Hipias Maior. Sparta era rica, nesse contexto do século V ac., porém iletrada, e por gosto. Assim somente lá Hipias não ganhava dinheiro com suas exibições de cultura letrada. Os espartanos são os únicos reportados na inteira Grécia que não suportavam ouvir seus discursos sofisticados sobre os diversos saberes existentes.

6 Porém o que Hipias também está revelando é como conseguiu ser ao menos bem recebido em Sparta, isto é, concedendo aos espartanos o que eles gostavam de ouvir. Então segue-se a lista dos assuntos permitidos que acima verificamos, inclusive aduzindo Hipias que havia censura estatal vigente em Sparta contra cultivos de saber que extrapolassem essa base permitida. Conforme Jaeger poderia esclarecer, isso se explica pelo fato dos espartanos terem objetivado conservar ao máximo a cultura originária, na sua formação como Polis.

7 Trata-se pois, de uma propaganda espartana composta por Platão, tanto mais expressiva porque Sócrates só manifesta vivo interesse por Hipias, que justifica o Diálogo, por Hipias estar vindo de Sparta. Como se todos os leitores de Platão para quem Sócrates servia de exemplo devessem estar muito interessados em saber sobre aquela cidade não obstante situados em Atenas, Hipias servindo assim, sem se dar conta disso, de promotor da causa espartana. Pretendendo estar informando a Sócrates sobre os próprios méritos, conforme ele interrogava, quando estava apenas expressando o que os partidários de Sparta queriam ouvir sobre ela como espelho ao inverso dos valores de Hipias.

8 A “farmácia de Platão” é a meu ver equivocado como argumento derridiano que visa igualar platonismo e filosofias da vida existencialistas, posto que, inversamente, a dialética platônica é o contrário do jogo, como instrumento apropriado pela filosofia, porém conduz à realidade transcendente ao mundo, enquanto os existencialistas pensam exclusivamente em termos deste mundo.

9 Ora, a realidade transcendente ou sagrada sendo a das ideias, vem a ser a dialética platônica um esquema ou estrutura que desconstrói a linguagem comum para mostrar que se compõe formalmente como um cálculo matemático, assim como as ideias aportam a uma concepção de ser numérico.

10 Algo que faria de Platão um estruturalista avant la lettre, inclusive pelo laço das paixões com as ideias, o que na Grécia era pensável pelo meio termo entre ambos, os deuses que governavam as forças naturais e passionais, especialmente Eros.

11 Um problema que também desde já poderíamos localizar no argumento estrutural derridiano da totalidade codificada da mentalidade grega, é que a centralidade do Logos assim predicada elide a “antilogiké” heraclítea ou à Zenão, na origem da filosofia. Trata-se mais recentemente de salientar a importância da importação do “paidia” (jogo) dialético que consistia em tentar levar o adversário à contradição por meio de perguntas calculadas, pela “paideia” (educação letrada) filosófica como demonstração racional do verdadeiro e, assim, refutação ostensiva da tese contrária. Se Heráclito é o pensador explícito do Logos, termo que não foi utilizado especificamente por outros na qualidade designativa da justiça reinante por igual na natureza e na Polis, havendo termos alternativos como o Ser parmenídico, Heráclito foi ao mesmo tempo o pensador pioneiro da antilogiké assim como daquela realidade que se via como objeto da justiça por vir a se exercer. Ou seja, a realidade do embate dos contrários. Na natureza, os opostos qualitativos, como podemos ler nos “fragmentos” que nos restaram do livro de Heráclito, por ele depositado no templo de Ártemis. Mas como podemos inferir, na Polis os opostos de perspectiva e interesse se enfrentando cotidianamente nos tribunais e mesmo na filosofia, assim como no “paidia” dialético.

12 O Logos pioneiramente concebido explicitamente, é então a concepção de Heráclito da ordenação que se exerce sobre não o desordenado, a mistura caótica, mas o que se confronta com o oposto de si, uma tessitura do real como antilogiké, mudança ou devir dos contrários, logos contra logos, que o Logos porém enuncia como tal enquanto um conceito filosófico, a dedução da tessitura do Real como da physis.

Heidegger tem um ponto contra Nietzsche, a meu ver, na sua recusa da perspectiva nietzschiana dos pré-socráticos divididos entre partidários do devir como mudança perpétua ou ser constante e igual, a propósito da physis. Pois Heidegger salienta que o próprio Nietzsche entendeu a filosofia do devir em Heráclito como um enunciado acerca da justiça imperando sobre o devir dos opostos, e ordenando-o como alternância da natureza.

13 Assim se torna crível que é a mesma unificação dos entes numa realidade enunciável o que todos os pré-socráticos pensavam como objeto de sua especulação a propósito de qual seria o enunciado conveniente, de modo que a máxima oposição ao Logos antilogiké de Heráclito, a saber, o Ser imutável de Parmênides, seja porém apenas um termo alternativo para a mesma justiça inabalável do Real.

14 Conforme Heidegger a palavra de Parmênides seria justamente a unidade, Hen, e realmente a unidade da physis dos séculos VII e VI ac., é aquilo mesmo que a sofística do século V ac. criticava como inviável ao saber humano, uma vez que este mesmo era uma antilogiké irredutível. A influência de Heráclito na sofística é reportada porém já interpretado apenas como um pensador do devir, a partir da oposição criada pela própria sofística entre “physis” e “nomos”, respectivamente “natureza” e “lei civil”. Ou mais precisamente, essa é a interpretação que nós contemporâneos, que temos da sofística uma certa concepção histórica, consideramos ter sido feita de modo a explicar a influência de Heráclito, enquanto Heidegger inovava sobre essa concepção usual, não vendo diferença profunda de Protágoras e pré-socráticos quanto ao Logos como devir polissêmico, situado, do sentido, passível somente de interpretação contextual inversamente à definição ideal introduzia pelo platonismo.

15 Mas nem ele concebia a sofística, em termos de movimento pedagógico leigo, ensino da retórica, como o mesmo que a filosofia pré-socrática, nesse sentido para Heidegger sofística e degeneração técnica do “pensamento” originário eram a mesma coisa.

16 Além disso, uma evidência contrária à tese de simples continuidade religiosa da basileia arcaica na filosofia clássica, é que a religião que se expressa nas seitas de tipo órfico-pitagóricas não é a homérica, como salientei, nem mesmo hesiódica. Elas são a criação de “filósofos” cujo objetivo era a convergência de pelo menos três instâncias. O novo sentido de natureza, haurido da prática de estudos especializados; a novidade representada pelo influxo de religiões orientais e especialmente a doutrina anímica do karma; e a retórica, como um conhecimento especializado do uso da linguagem com objetivo de persuasão, de gênero forense ou, como no pitagorismo, “psicagógica”, isto é, com intuito mágico terapêutico. Vem assim a criação do filósofo como interpretação dessas instâncias exclusivas da cultura cosmopolita, criação que obviamente converge ao interesse da vida na Polis organizada juridicamente. Especialmente a retórica é uma criação grega que se desenvolve paralelamente à filosofia ou a precede de pouco, enquanto a dialética, que já vimos como um jogo de perguntas e respostas visando induzir o adversário à contradição se propagava então, com alguns filósofos tendo se destacado como exímios. Zenão de Eleia foi o primeiro a utilizar procedimentos do jogo dialético na filosofia, isto é, como argumentos desenvolvidos num livro.

17 Já vimos que a cultura do livro é importante na gênese da filosofia, e, assim, nem mesmo sempre o filósofo é um chefe de seita. Em comum entre as seitas, quando é o caso, com pensadores como Heráclito e Parmênides, que continuaram fiéis à concepção grega dos deuses, mesmo que modulando muito a sua referência, praticamente nada há. Se existe censura heraclítea assim como pitagórica a construtos poéticos arcaicos da religião, em Pitágoras ela é de cunho religioso, enquanto em Heráclito é racionalista, explicitamente conveniente ao “Logos”. Em todo caso, considerando a tese heideggeriana da unidade da filosofia pré-socrática em torno da physis algo viável, não há unidade porém nem mesmo abstrata entre pré-socráticos e sofistas, ou entre estes dois antagonistas como respectivamente adeptos do estudo da physis ou do “nomos”, e a metafísica que lançou a nova opção da transcendência.

18 Mas nessa sequência, podemos considerar que o termo “filosofia” na Grécia clássica se ampliou quanto à polissemia em vez de ter se unificado sistemicamente. Examinando a translação do significado do filosofar antigo entre o início pré-socrático do pensar sistematizado em argumentos racionalmente endereçados e os grandes sistemas metafísicos, entre eles tendo havido um interregno em que a única coisa sistemática era a dúvida sobre qualquer afirmativa irrefletida sobre a natureza, vemos que a metafísica foi tão crítica dos primeiros filósofos como a sofística nesse interregno, uma vez que para a metafísica somente um elemento teológico, pensado porém como transcendente à natureza, poderia explicar alguma suposta ordem natural. Assim já podemos considerar de modo crítico a asserção estruturalista de Detienne e Vernant a propósito dos primeiros filósofos como personificações ideológicas da realeza mágico-religiosa arcaica em plena Polis democrática, uma vez que eles não eram atribuídos pelos demais como continuadores da antiga religião, inversamente ao que os novos metafísicos estavam alardeando ser, não obstante a depuração conceitual da linguagem. Essa pretensão de continuidade é expressa em Aristóteles, segundo Aubenque, e seria desnecessário sublinhar a intenção teológica em Platão.

18 Como Aubenque esclarece adequadamente, o que almejavam os metafísicos era restaurar o que teria sido a intenção original dos mitos nos primeiros tempos, descartando o que pudessem considerar a distorção popularesca de permeio. Para Aristóteles havia portanto, sim, um tempo contínuo do progresso da filosofia, mas esse tempo não era histórico, era um tempo lógico - conforme a expressão conhecida de V. Goldschmidt - um “tempo das obras”, segundo a do próprio Aristóteles. Ambos, Aubenque e Goldschmidt, o aristotélico e o platônico, tencionando assim granjear para os metafísicos o título de criadores da ciência enquanto processo sistemático da verdade, onde a substância empírica dos fatos, biográficos ou de época, não era determinante a uma perspectiva intrínseca.

19 Mas temos constatado conforme a visão de autores mais ligados à história, que a seleção mesma do que é intrínseco ou não depende da situação histórica do intérprete. A intenção de um "tempo das obras" em Aristóteles já o demonstra, pois se trata do que vimos antes como sua manipulação tendenciosa dos filósofos passados de modo a colocar a metafísica como moderna num sentido adjetivo do termo, e, assim, poder classificar os predecessores como mais ou menos aparentados a essa modernidade, independente da cronologia. E o critério aristotélico sendo o de uma modernidade metafísica, muitos poderiam apenas rir do assim postulado, visto ser a metafísica, ao contrário de algo realmente novo no tempo, apenas o retorno da teocracia arcaica ainda que revestida do que a novidade do regime grego nesse ínterim havia produzido como linguagem conceitual, "filosófica". Essa circunstância histórica na origem da metafísica permite considerar a situação curiosa do platonismo como uma propaganda oligárquica ostensiva da Sparta semi-analfbeta, escrita porém na melhor prosa ática e com o mais apurado nível cultural visando um público de elite ateniense.

20 Escusado lembrar que a contradição performática platônica, ao contrário do que Derrida supôs, não poderia ser a de um escritor que pensa estar apenas veiculando a fala de outrem (Sócrates), fundando assim a oposição fala/vida e signo/máquina. Visto que conforme o Fedro a espontaneidade na escrita tendo-se abolida pela regra socrática do estilo, não resta diferença entre a escrita e a idealidade almejada evidenciar na linguagem dialética, ela também censória do falar por falar, falar por prazer, etc. A contradição performática é sim entre um crítico da democracia que não poderia porém estar se expressando abertamente em qualquer outro regime que não o democrático.

21 Ora, a reação democrática à pregação monarquista de Sócrates, conforme retratou Platão mesmo, traduziu-se numa acusação de teor religioso, não político. Os atenienses, e provavelmente como fariam os próprios espartanos, não reconheceram nada de mito originário na metafísica. A religião cívica da Polis e especialmente da Atenas democrática é capítulo ignorado na explicação estrutural, especialmente algo singular em coberturas mais recentes, como de Detienne e Vernant, que são análises do discurso com base no vocabulário praticado pelos gregos nas fases históricas analisadas conforme as fontes textuais que restaram.

22 Em todo caso, vimos ser inexequível considerar numa mesma linha de saber místico teocentrado, e contrário ao meio laico da Polis, o naturalismo pré-socrático e a metafísica posterior, como sendo ambos prolongamentos de um mesmo núcleo da arcaica realeza sacerdotal. Quer a acusação de impiedade movida pelos democratas a Sócrates tenha considerado inculpável do ponto de vista religioso a pregação da justificativa teológica da monarquia, quer o inculpável aí tendo sido apenas a introdução de perspectivas dos deuses estranhas ao credo oficial, este sim conforme o panteão homérico, é hoje apenas questão de opinião historiadora. Mas vemos que a negação do antropomorfismo era considerado transgressiva na Cidade-Estado. Assim quando Stilpon troçou da estátua de Atená, designando-a obra de Fídias em vez de filha de Zeus, foi acusado pela promotoria da Polis, não tendo adiantado sua defesa de que falara apenas que a estátua não era um deus quando na verdade era uma deusa.

23 Um traço saliente da religião cívica da Polis é que abolira os sacrifícios humanos que haviam sido típicos da religião arcaica. Não obstante, o impensável como transgressão da religião natural na origem era agora ostensivamente praticado na forma de processos civis contra a impiedade.

24 Um modo de notarmos o quanto a compreensão das rupturas de mentalidade entre o arcaico e o clássico, como de realeza aristocrática e democracia, é sintomaticamente relutante nos maiores estudiosos europeus na atualidade, pode ser exemplificado por Bruno Snell.

24 Ele é expressamente considerado por Detienne como um antípoda, alguém que considera pois a tese da ruptura contra a posição da continuidade: "B. Snell afirmou que a ideia de uma comunidade, de uma zunwnih, oposta a um estatuto individual, tal como aparece, por exemplo, em Arquíloco de Paros (fr. 98, 7 Lassere-Bonard), asinalava uma virada decisiva em relação a Homero. Creio que as passagens como estas que estudamos, podem limitar o alcance das conclusões de B. Snell, ou pelo menos levar a distinguir, ao lado de uma ruptura, linhas de continuidade." ("Os mestres da Verdade na Grécia arcaica", op. cit. p. 115). As passagens aí assinaladas sendo porém apenas a interpretação da continuidade das noções de comunidade e propriedade coletiva a partir da existência de termos como zunwn (synon), o mesmo que koinon (koinon), com o sentido de "comum" amplamente praticados desde o século VII e VI ac.

25 Detienne não ressalta que esses termos são agora, ou ao menos o serão na democracia, estritamente praticados como oposto de "idion", o privado, o indivíduo particular, o que não devia ser o mesmo na época homérida, uma vez que, como Snell mostrou pela análise linguística, não há termo para designar o indivíduo ou o corpo individual humano em Homero. Pois as partes do corpo na mentalidade homérica são elas mesmas nexos com a deidade, como volição, inteligência, e pelos quais os deuses modelam o comportamento esperado dos homens, a alma sendo aí apenas a “imagem”. Essas esferas são o “thymós” como o ímpeto volitivo, o que faz movimentar-se numa ação, tendo um sentido passional; o “nous” ou intelecto que entende o referente; e a “psyqué”, a alma, apenas a skiá, “sombra” do corpo, ou“eidolon”, aparência da realidade física, mas enquanto componente do corpo, a respiração. Essa realidade física poderia mesmo assim parecer uma contradição com o pressuposto de não haver termo homérico para o corpo, mas como Snell colocou, a própria noção de corpo como o correlato dessas esferas da ação teológica implicava uma imagem muito irredutível a que nós temos do corpo humano, algo como uma criança desenharia, e Snell efetivamente desenha a figura para mostrar como “a arte grega arcaica delineia a figura do homem”. (“A cultura grega e as origens do pensamento europeu”, São Paulo, Perspectiva, 2009, p. 6).

26 Os termos homéricos que puderam ser averiguados para o que só depois existe a palavra “soma”, são os, plurais melea (mélea), guia (güia), e termos semelhantes que referenciam porém a corporeidade do corpo, visto que krωs (Krós), significa apenas o limite do corpo, a pele como invólucro, portadora da cor, sendo aí desacreditada as traduções anteriores por “corpo”, e demas (démas) significa estatura (o programa microsoft não permite aposição dos acentos nos caracteres gregos). Snell cita Gerard Krahmer como quem introduziu a evidência de que antes da arte clássica do século V ac. o corpo humano era construído juntando-se partes isoladas. Conforme Snell, “só a arte clássica do século V irá representar o corpo como um complexo orgânico, unitário, no qual as diversas partes estão relacionadas umas com as outras”. Píndaro já tem a noção de “corpo vivo” e o termo “soma” que porém evita usar por não consagrado na dicção poética. (p. 6, 7)

27 Também Snell assinala que os verbos designando "ver" em Homero, como coloquei em meu "Filosofia, ceticismo, religião, com um estudo sobre Diógenes Laércio" não abrangem ainda o termo "theoria", a contemplação atribuível a um sujeito. O indivíduo arcaico age apenas conforme um reflexo da vontade e atuação dos deuses-natureza. Os verbos que traduzem o ver apenas especificam modos pelos quais algo é olhado.

28 Contudo Snell não pretende de fato definir qualquer ruptura muito grande entre gregos e gregos. O que ele considera é como a evolução da mesma raiz, o que atribuiu como naturalismo religioso homérico, em que os deuses personificam forças naturais para uma noção de natureza que inclui instituições humanas como o lar e o fogo da lareira, o patrimônio e o casamento. É esse naturalismo que explicaria segundo Snell a filosofia, à semelhança da tese estruturalista pela qual esta é um reflexo da soberania dos tempos arcaicos. Mas em Snell não pela conservação da função sacerdotal do poder governante, e sim, inversamente, pelo fato dos gregos terem desde a origem dessacralizado aquela função por seu naturalismo a toda prova.

29 O classicismo do ser simples e claro estaria pois na religião originária grega, e ela teria permitido a evolução à concepção da comunidade de espécie, a humanidade, assim como à ciência natural, o que seria impossível no Oriente, que para Snell é apenas a profusão confusa e temível de ritos macabros. Ou como em Ésquilo, tudo o que é estrangeiro é demasiado, complicado, afetado, e heleno sendo tudo que é simples. (p. 108). Ora, assim considerando Snell enuncia o problema da interpretação do teor da acusação a Sócrates: como alguém poderia ser impiedoso relativamente a uma religião em que os deuses são a realidade efetiva circundante, acessíveis independente de crença?

30 Mas vemos que Snell esquece nesse ponto as modulações que assinalara antes como aquisições posteriores dos gregos no sentido da conquista da pessoalidade, sem fazer qualquer menção aos contatos com o Oriente ou à doutrina kármica sobre isso. Ele não considera que o homem é que tornara-se julgável, quando antes não era, se antes não era considerável entidade volitiva em termos de responsável por seus próprios valores, aqueles que unicamente podem agora explicar de modo válido a sua conduta.

31 Em Hesíodo já aparecia a transgressão direta, no episódio de Prometeu supondo enganar Zeus ao oferecer uma escolha entre duas ofertas de carne sacrificada, mas tendo coberto com a gordura atrativa uma delas composta apenas dos ossos. Zeus finge enganar-se, porém para castigar Prometeu. Ora, o Prometeu da Teogonia não é um homem, é ele mesmo um ser mítico titânico, e, além disso, o julgamento é feito por deus em pessoa. O episódio não tem sentido por si, como o que atenderia a uma indagação sobre os valores de Prometeu, mas sim apenas ilustrando as aventuras de Zeus em sua luta pela soberania contra o regime teológico anterior que simboliza a ignomínia, a impossibilidade da ordem natural.

32 Ao mesmo tempo que a religião da Polis democrática, com relação a concepção de soberania personificada por Zeus e Hera, se humaniza, seja por tornar independente a questão do sentido dos valores pessoais, como em Eurípides especialmente, seja por abolir os sacrifícios humanos, ela conserva a prerrogativa de ser estatal e laiciza um direito de punir relativo à consciência. As provas de Detienne sobre sacrifícios humanos perpetrados coletivamente contra indivíduos na plenitude da época clássica não impedem a evidência do regime ser contrário a eles, já que são fenômenos de comunidades interioranas, Detienne não colocando a questão de que mentalidade política realmente se tratava. Entender o que era a consciência do regime laico e jurídico da Polis é que podemos convir com Snell ser a nós hoje algo difícil, uma vez que só podemos compreender a autonomia subjetiva a partir, justamente, da nossa atribuição da religião entre os valores particulares, escolha do homem inversamente a imposição do Estado na sua qualidade de representante da sociedade.

33 A meu ver uma possibilidade de contornar o impasse seria começar por questionar o que nós estamos compreendendo em termos de consciência. Aqui eu gostaria de lidar com essa questão em termos da pergunta sobre o que queremos saber sendo colocada do seguinte modo. Como se fez o trânsito da presença à pessoalidade? Essa antinomia não se limita à Grécia antiga, não surgiu dos estudos gregos, ela é intrínseca à nossa problematização do que designamos ideologia, pois o que não consideramos ideológico e sim racional-legal é a atribuição da pessoalidade. Logo, não procedemos como se essa atribuição fosse universal, uma vez que mesmo inversa ao racional, a ideologia tem parte ativa na história. Quando se trata da presença temos uma representação mítica, em todo caso vicária, de uma função ou papel ("role") social exemplar. A pessoa não é pensada por si, como sujeito individual, mas como o cumprimento da função ideal, um representante dela, exigida como um dever-ser comunitário. A comunidade não tem assim referencial de consciência subjetiva. No máximo ela tem referencial para a diferença de prestígio e o mais prestigioso, o poderoso, é tratado como se fosse a pessoa mesma, seus desejos, sua individualidade, tendo-se em conta, porém de fato apenas por sua posição. O que é pensado, o que está na consciência, é o poder, não a pessoa. Não considero que este é, em todo caso, o germen da ideia de pessoa, que depois se laiciza e comuniza.

34 Jaeger supõe assim que a desdenhosa altivez de um Arquíloco emerge na história como a transposição da aristocracia ao que restou possível como a segregação de um si individualizado. A meu ver trata-se de alteridade da consciência, uma vez que na “Polis”, a cidade-Estado posterior ao regime aristocrático, a multiplicidade de pessoas como de opinião ou de partidos se torna realidade “política”. Quando se trata da pessoa, atribuímos `a sua existência particular o referencial, assim como Kant poderia enunciar, nunca a tratamos como um meio a objetivos que são apenas nossos, independente da finalidade de si. Mas Kant pensava ser isso um imperativo universal da vontade enquanto racionalidade, quando hoje consideramos ao menos possível tratar-se, enquanto algo consciente, do que se constata numa irredutibilidade cultural, ligada a questões históricas. É algo comprovado que não há a consciência desse imperativo no regime aristocrático por exemplo.

35 Na verdade o pós-kantismo é aqui importante considerar, tendo sido ele, por obra de Hegel especialmente, que colocou a questão nos termos transitivos que designei, como um problema histórico da ultrapassagem do limite da presença. A emergência do Sujeito pensável, como sujeito do pensamento e assim o que temos que compreender se queremos conceituar a este, é pois um fato histórico, assinala o período contemporâneo do pensamento, que por vezes se designa "modernidade", desde o Romantismo. Aqui não se trata já do Ser, mas do Pensar como o elemento em que a realidade toma forma. A circunstância de não haver nada parecido em contextos não moderno-ocidentais torna a eventualidade da democracia grega antiga algo importante no sentido de ser relacionável a uma origem cultural do Ocidente. Assim aqui vemos relançada a questão de ser a "modernidade" uma continuidade modulada ou uma ruptura real relativa ao que a precede.

36 Mas na Grécia democrática, se não havia tampouco a questão do Sujeito pensável, se não se colocava em questão o fato da pessoa ter vindo a ser um atribuível na consciência, e de se postular explicitamente somente agora a oposição do koinon e do idion não para anular a este, mas pelo contrário, ser o respeito garantido ao indivíduo o sentido mesmo do koinon, é em todo caso o que estava sendo construído efetivamente como a substância constitutiva da Cidade-Estado. Assim de um modo bem irredutível ao que se poderia considerar não-grego e não-clássico. Então a pergunta de hoje sobre como veio a ser construído o estatuto da pessoa na Grécia Antiga atravessa a história da filosofia de um modo decisivamente descontinuísta e irruptivo, já por isso que as duas teses de uma resposta possível lhe são intrínsecas e não haver uma história nesse sentido atual do termo, ela mesma construída na Cidade-Estado. São elas a crítica do saber teológico ou, pelo contrário, a "nova" - em termos gregos - soteriologia da alma.

37 Na crítica do saber teológico não colocamos apenas a superação do antropomorfismo que na filosofia se verificou, como negação de paixões baixas atribuíveis aos deuses como antes portadores de insígnias de poderes bem mundanos. Mas principalmente colocamos a filosofia como o meio em que o estatuto da palavra humaniza-se pelo modelo do tribunal racional, em que o "quem" é o sujeito do enunciado professado, o sujeito do proferimento. Essa atribuição não subentende uma função qualquer redutível ao simbolismo da presença, mas é bem mais "simplesmente" o endereçamento do proferido a um possível proferimento contrário nos termos do conteúdo, assim a noção de pessoa emerge da pluralidade e alteridade das pessoas que se comunicam na efetividade. O modelo do tribunal aí não aponta para um vértice ideal que seria afinal o da "verdade" puramente formal do juízo independente das partes. O que subentende é que as pessoas, as partes, expressam concepções inerentes a si irredutíveis enquanto tais. Elas são existencialmente equivalentes mas não iguais quanto à consciência valorativa que se torna atribuível à sua autonomia não solvível numa comunização qualquer.

38 A adesão a uma das partes segue-se a uma deliberação atribuível ainda a mais uma parte, aquela que julga. Esta não se coloca num plano superior ou transcendente. A presença que antes formalizava toda a possibilidade do ser como tal, a presença do divino na instrução mântica da justiça, é o que agora se tornou impensável, visto que a instrução por si da antiga realeza aristocrática foi atribuída como uma parte na guerra civil, não como o todo. O que os deuses continuam garantindo é a soberania da Polis, mas os trâmites da organização política se tornam inerentes aos humanos. O juízo agora é bom ou mau, no sentido de ser passível de erro venal ou justiça, mas seguindo-se apenas das possibilidades da verossimilhança.

39 Assim o que se relaciona à filosofia é que nesta a questão judiciária crucial que é como obtê-la se tornou abrangente de todos os enunciados pressupostos como verdadeiro acerca dos valores de existência. Julga-se num tribunal conforme a informação que se tem, inversamente a uma possível onisciência divinatória que não colocaria o problema de sua possibilidade humana de partes entre partes. Não há obviamente necessidade de julgamento se o fato está visto e visível, se há essa necessidade então tudo veio a depender da palavra, nesse status de deliberativa. O enunciado sobre algo ser ou não ser se torna desonerado da arcaica ambiguidade relativa à intenção divina não diretamente por ter agora se confrontado ao falso, mas sim onerado desse novo elemento, a função da prova racional, a demonstração de sua verossimilhança. Assim a sofística, que sucede a essa primeira posição "pré-socrática" do problema da racionalidade intrínseca a algo professado como saber como exigência da demonstrabilidade intra-discursiva, já é um aprofundamento da mesma exigência da verossimilhança, da mesma crítica do saber na impossibilidade dela.

40 Seria esperável que a antítese verdadeiro-falso não tenha na transição dos pré-socráticos aos sofistas a importância que tem a pluralidade das opiniões. Não se comprovou demonstrabilidade nos enunciados dos primeiros filósofos da natureza, entre suas postulações da origem elementar como água ou fogo, princípios de união e desagragação ou número. Eles não puderam refutar uns aos outros, nenhum deles pôde provar sua perspectiva contra os demais. Mas não se poderia igualmente negar o direito a ela - de fato não se pode provar que todos foram falsos, o que ocorre é que se cingem ao indecidível. Apenas se convém, pois, que assim estão cingidas pelo meio da opinião, ou seja, pela condição de possibilidade do enunciado, o "quem".

41 Quanto à hipótese da alma, como importação oriental de modo que já não se restringe à imagem do corpo, já sendo o referencial do karma, como origem da noção de pessoa, as dificuldades são muitas para haver qualquer vantagem na desconsideração da ostensividade do modelo da prova racional. Isso é especialmente constatável pela função que a alma desempenha na metafísica como oposição onto-teo-lógica à sofística – aqui vemos portanto que a metafísica não se limita ao antigo mito grego, mas participa da importação oriental – o que se demonstra porque a alma é mais que a interioridade do indivíduo, na filosofia ela é o correlato do karma. Uma oposição à sofística que abrange os próprios pré-socráticos mas agora porque se a sofística estava certa ao menos na posição da indecidibilidade de um saber da natureza, predica-se o retorno da onisciência divinatória pelo simples argumento circular do saber ser exigido pelo homem se ele recusa desesperar do saber.

42 A exigência crítica é aqui ao mesmo tempo respeitada e transgredida. Enquanto respeitada ela já está num patamar sofístico, mas enquanto transgredida ela traduz a crítica em dogma, o limite do verossímil se torna o contrário, a definição do teor do saber como não-humano, teológico num sentido novo de sobre-natural.

43 Se os deuses arcaicos atuavam de um modo transcendente ao homem, esse modo era imanente à natureza. Era esta que se encontrava animada, povoada das intenções da presença. Ora, a introdução da alma oriental na concepção teológica do mundo não implica a cisão da humanidade e natureza. Nem no plano do real, a antítese nomos-physis; nem no plano do enunciado, o "quem" atribuível do discurso. A humanidade, se é descoberta grega, só emerge com o clássico. A alma, mesmo sendo referencial oriental do karma, é desde os inícios da mântica pitagórica parte do todo, e continuou sendo assim nos sistemas cosmológicos platônicos e aristotélicos, inclusive o estoicismo. Nestes sistemas o todo se tornou bem explicitamente Deus.

 

 

IV

1 A nossa tese da ruptura, que coloca em questão a história dos conflitos anti-aristocráticos na base da organização "política" - isto é, da Polis - se defronta com a possível objeção: se a consciência da pessoa nasceu da crítica do enunciado, de onde surgiu a crítica? A lírica eólica, como a primeira fonte expressiva da consciência construída, já é a coisa mesma, o que precisa ser explicado. A introdução da alma numa vertente teológica nova nesse contexto, vimos não ser explicação plausível, e podemos também reforçar essa posição mostrando que se os estudiosos abstraem o empréstimo oriental da doutrina kármica, já se coloca o problema porque no oriente de onde proveio ou em todo caso onde é praticada como crença geral a alma não desdobrou jamais a construção da consciência da pessoa intrínseca a um regime político cuja inteligibilidade está ligada à emergência de gêneros de racionalidade discursiva como a filosofia, a dialética e a retórica.

2 Aqui precisamos pois examinar com minúcia as possibilidades da objeção, e vemos que Detienne efetivamente desenvolve uma explicação precisamente nos termos do problema como o posicionamos. Conforme Detienne a resposta deve ser atinente à indagação sobre como surgiu a crítica possível do enunciado, mas assim não só por ser possivelmente falso ou verdadeiro, o que já é a própria crítica, mas enquanto um regime laicizado da palavra. Ora, definir o que é a palavra "laicizada", ou seja, a palavra comumente praticada, a linguagem mesma, é tarefa hercúlea, abrangendo linguística, psicologia, sociologia, filosofia, ciência do cérebro, poética, literatura, etc., porém Detienne, lidando apenas com a oposição de um tipo ideal a outro, do leigo ao religioso na linguagem, define de modo sucinto como a palavra interlocutiva, a "palavra-diálogo", enquanto o tipo precedente seria a palavra "mágico-religiosa" (p. 45).

3 A oposição aqui é pois entre uma linguagem que se pretende inspirada e sobre-humana do sacerdote, e aquela que é expressão do homem simples que fala a outrem. Porém é nítido que ambas são comunicações visando um receptor, assim que a linguagem mágico-religiosa não seja ela mesma interlocutiva na sua prática é algo problemático. A diferença é colocada em termos de que ela é "presa numa rede simbólico-religiosa" (p. 54) enquanto a interlocução autonomizada na Polis é a linguagem que já não assim prisioneira, "atinge sua autonomia, constitui seu próprio mundo no jogo do diálogo que define uma espécie de espaço, um campo fechado onde se enfrentam os dois discurso". Autonomia, pois: "o lógos se torna uma realidade autônoma, submetido a suas próprias leis". (p. 55) Porém isso só ocorre quando ao contrário do Logos como um veículo por si só, algo sagrado que funciona conforme suas regras simbólicas, o Logos se torna um instrumento a serviço da intenção variamente situada. Quando ele deriva da semântica-sintática à pragmática, mas assim, como Gorgias no seu "tratado" colocou, a pragmática é o contrário da substância, se o situamento é a heterogeneidade. Mas na lógica da exposição de Detienne, vejamos como a "laicização da palavra", em todo caso definida como o oposto da palavra religiosa, responde à questão de como surgiu, sem dúvida sendo atribuída como a racionalidade oposta ao mito, a palavra da Polis oposta à mântica do Poder do antigo genos. A resposta é assim que ela não propriamente surgiu como algo novo. Ela já estava em pleno curso e bem típica na era arcaica, apenas não pertencendo ao grupo de práticas do sacerdócio.

4 Seria bem compreensível se aqui houvesse alguma referência a prática de linguagem simplesmente popular, porém não é esse do mesmo modo o caso. Trata-se da nobreza, ainda. O grupo social que nela tinha um papel específico de condução na guerra, o "Laós" ou grupo dos guerreiros, o grupo armado de chefes militares como os heróis da "Ilíada", seria detentor da palavra-diálogo naquele espaço fechado, submetido a regras necessárias, que eram suas assembleias quando convocadas com intuito de deliberação no tocante à coisa pública, a decisões que afetam a comunidade guerreira.

5 A propósito da mentalidade e prática linguística da população comum, o "dêmos" (povo), porém, nada se informa, exceto que ele não fala na assembleia do "Laós", a aristocracia militar - que é propriamente onde se fala. Não é que o povo por si seja mudo, se bem que Vernant comentará, sobre a Ítaca homérica, o pequeno reino de Ulisses, que “com seu basileus, sua assembleia, seus nobres turbulentos, seu demos silencioso em segundo plano, prolonga e esclarece manifestamente certos aspectos da realeza micênica” do segundo milênio, os aqueus que Homero fantasia como já os gregos dórios. (As origens do pensamento grego, São Paulo, Difel, 1972, p. 27). Mas nem por isso se devia imaginar um povo de mudos, apenas informa Homero que se ele tenta participar da assembleia aristocrática do Laós, onde se decide o destino da comunidade quanto a questões de guerra e paz, assim do destino dele mesmo enquanto povo – e sua tentativa por si só demonstra ser dotado de língua - vê-se batido fisicamente com o instrumento do poder aristocrático. O cetro simbólico que portam os participantes das assembleias militares. Assim faz Ulisses com Térsites num episódio célebre, conforme Detienne: "O homem do dêmos, Térsites e a maneira como Ulisses o trata, marca os limites da palavra-igualitária. Quanto Térsites eleva a voz, Ulisses não procura convencê-lo com palavras, golpeia-o com o cetro. Térsites é o vilão". (op. cit. p. 53)

6 Jogo jocoso de palavras, Térsites é tanto o mau sujeito como o habitante da vila, este termo evocando o sentido estrito do burgo pós-feudal na história do capitalismo, cujo habitante é o germen da burguesia suposta anti-aristocrática. Na Antiguidade aristocrática este sujeitinho "não tem o direito de falar porque não é combatente". Mas é claro que é, na qualidade de soldado, só isenta-se de ser chefe de guerra, aristocrata.

6 Na história do burgo pós-feudal, as arrogâncias do vilão – o habitante de vilas - vão ser possibilitadas pela sua participação no comércio, e, especialmente pelo porte, o colonial ultramarino, que permitirá a subversão do regime aristocrático. Ao menos por enquanto, no interregno romântico que hoje se acusa de ser a letra da Santa Aliança, assim porém só até o capitalismo voltar como Imperialismo, quando se rearistocratiza. Em todo caso, o estrago feito na reserva da linguagem não pode ser reparado e a palavra já não se limita à posição senhorial – ao menos até que a info-midiática restaure de todo a impossibilidade dos não pertencentes à gang imperialista se expressarem.

7 Na Antiguidade, segundo a antropologia estrutural, inversamente, "para que Térsites tome parte no diálogo", para que não subsista fronteira "entre o laós e o dêmos", conforme Detienne, "será necessária uma transformação maior: a extensão dos privilégios do guerreiro a um grupo social mais amplo". Em todo caso, se entre Térsites falar e a fronteira de estamento não subsistir há na verdade um grande hiato, se, como vimos, a aristocracia não deixou de existir como tal na vigência da democracia, para Detienne não será necessária qualquer introdução de um elemento novo como o comércio, mas sim a permanência da guerra.

8 Ao ver de Detienne, a invenção da "falange hoplita", a partir da qual os soldados não tem movimentos individuais na batalha, mas integram grupos compactos, cada um deles estritamente unido aos outros pela conjugação dos movimentos regrados dos integrantes, marca o trânsito dos regimes na Antiguidade: "Fundando-se em progressos técnicos, a reforma hoplita não é de ordem puramente técnica, é também, ao mesmo tempo, produto e agente de estruturas mentais novas". Reforma hoplita e Polis nascentes são solidárias, assim como ambas o são do pensamento racional como mutação intelectual. Mas todas três testemunham da nova estrutura mental, não propriamente a explicam.

9 Nesse ponto podemos convir que a explicação como que foge ao seu propósito. Primeiro é a estrutura e seus elementos: soldado-comum, Polis, pensamento racional. Mas como esses elementos se relacionam na perspectiva genética e histórica é o que precisaria ser esclarecido. Se damos apenas por abandonada tal perspectiva, não parece coerente considerar que a reforma hoplita perpetua aquilo que se produzia numa estrutura de elementos anteriores. Com efeito, parece porém que é assim que se considera, uma vez que a crítica possível, derivando da mera atribuição da palavra a quem fala, inversamente ao sobre-humano da revelação, provém desse algo definido como a semelhança, a isonomia, a igualdade de status: "No grupo dos guerreiros profissionais" anterior à reforma hoplita e característica da realeza arcaica, "a palavra-diálogo com seus traços específicos continua sendo, apesar de tudo, um privilégio, o privilégio dos 'melhores', dos aristoi, do laós. A esta elite opõe-se a massa, o dêmos, que designa a circunscrição territorial, depois o conjunto de pessoas que nele habita. O dêmos 'não ordena, não julga, não delibera... Não é todavia, nem povo, nem Estado".

10 A oposição de aristocracia e plebe é exemplar nestas concisas linhas. "Aristocracia" é termo que deriva efetivamente de "aristoi", que se auto-proclamam os "melhores", o que se poderia compreender tanto como os “ricos”, os que tem mais, como os ontologicamente superiores, parentes dos deuses ou por eles agraciados e só por isso detentores do Poder, a graça sendo sempre um dom bem visível como força física, beleza, inteligência, etc. A plebe é pois não apenas o que não se tem por melhor, é o desqualificado, o que não tem definição por si quanto ao que é, exceto quanto ao que coercitivamente deve fazer ou abster-se.

11 Ao contrário, quando se trata da elite militar aristocrática, em cujas assembleias se desenvolvera a palavra interlocutiva, Detienne caracteriza como vemos pela mais estrita ordem da semelhança, e tanto que aí descobre a origem da noção estritamente grega democrática de isonomia, a "iso-nomia" traduzindo-se literalmente como estar sob a mesma lei. Detienne utiliza-se sem dúvida de citações posteriores aos tempos arcaicos, porém como ele mesmo considera: "Termo anacrônico, sem dúvida, mas que traduz perfeitamente um traço fundamental da relação social que liga o guerreiro ao guerreiro: a igualdade, esta igualdade que marca a instituição militar dos banquetes iguais... onde se reúnem os homens do laós, que também caracteriza as assembleias guerreiras, onde cada um dispõe de um mesmo direito da palavra. A partir da Epopeia o grupo dos guerreiros tende a definir-se como o grupo dos semelhantes..." (p. 50, 51).

12 Se as assembleias dos cidadãos não se origina de qualquer superioridade do soldado relativamente ao status da cidadania, continua o mistério a propósito de como a plebe veio a falar, se era o que não falava antes. Nem a palavra sacerdotal nem a palavra-diálogo. Já Vernant expressa-se a propósito, no contexto da pergunta sobre quais seriam as diferenças entre o mundo de que Homero preserva a memória como o que fôra dos Aqueus micênicos do milênio anterior, que guerrearam contra Ilium (Troia), e o mundo do poeta Homero e de seus receptores, os gregos do primeiro milênio, estes oriundos das invasões dóricas de 1200 ac. que destruíram o império micênico. Se não houve assimilação da escrita, ao contrário do que os micênicos mesmos haviam feito com relação aos cretenses do terceiro milênio, que eles conquistaram parcialmente, agora os dórios, jônios e eólios "gregos" haviam conservado ao menos a memória da cultura lendária.

13 Quanto às diferenças, não importando a irredutibilidade entre um império marítimo e comercial como era o dos Aqueus micênicos e os genos interiorizados agrícolas dos tempos homéricos permanentemente em posição de defesa contra novas levas invasoras, Vernant considera que não deveriam ser muitas. A mesma Ítaca para a qual após a guerra de Troia retorna o herói da "Odisseia" homérica, à feição de um senhor feudal, deve ter-se conservado a região típica do regime palaciano histórico, ao contrário dos que pretenderam a inexistência de comparação possível.

14 Vale repetir na íntegra: "Entretanto, o quadro de um pequeno reino como Ítaca, sua assembleia, seus nobres turbulentos, seu demos silencioso em segundo plano, prolonga e esclarece manifestamente certos aspectos da realeza micênica" (op. cit. p. 27). O "demos silencioso", pois, não oferece motivo para a curiosidade histórica. Ele forma "comunidades rurais" que na interiorização do primeiro milênio, ao contrário do que ocorria sob o controle total palaciano de Micenas, agora "podem subsistir independente dele", porém assim como no passado, nesse novo quadro interiorano "ser-lhe-ia necessário alimentar os reis e ricos homens do lugar, por meio de remessas, presentes e prestações mais ou menos obrigatórias" ( p. 23). Segundo Vernant, pois, na origem micênica do mundo homérico, "os simples aldeões, homens do dêmos no sentido próprio, que fornecem ao exército os peões e que, para retomar a fórmula homérica não são mais considerados no Conselho que na guerra, formam no melhor dos casos os espectadores, escutam em silêncio os qualificados para falar e não expressam seus sentimentos senão por um rumor de aprovação ou descontentamento." (p. 22)

15 Aqui não pretendo cobrir o hiato de micênicos do milênio anterior e "gregos" do primeiro milênio ac.,quanto à questão de sua continuidade cultural. Mas o desenvolvimento da questão na perspectiva estrutural se explica a partir do que pretendem os estudiosos quanto às possibilidades de definição exaustiva do que seria a constante da cultura indo-europeia, lembrando que tantos os invasores quanto os micênicos são indo-europeus.

16 Ora, na explicação de Detienne, o cerne da regulação do uso da palavra em comunidade, dirigindo-se aos outros mas apenas enquanto seus iguais, seus "semelhantes", omoioi (p. 51), ao mesmo tempo origina a mutação mental do espaço político pela comunização da palavra-diálogo, esta que é o inverso imiscível da palavra mágico-religiosa, e conserva a palavra mágico-religiosa ali onde seria o caso da mais estrita prova do novo regime, a filosofia, aquilo mesmo que está sendo explicado. Se a palavra-diálogo viceja somente na igualdade de direitos políticos, não importando a extensão dos iguais - um grupo social ou a inteira cidade com sua heterogênea composição de grupos como de classe e status - quando se torna "o instrumento político por excelência, o instrumento privilegiado das instituições sociais" (p. 54), não obstante essa sua constância inalterável ele se duplica quanto à possibilidade pensável do que ele seja: "Uma reflexão sobre a linguagem elabora-se em duas grandes direções: por um lado, sobre o lógos como instrumento das relações sociais, por outro lado, sobre o lógos como meio de conhecimento do real". Essas duas vias não permitem, pois, uma "resposta" que seja "unívoca", à indagação que porta sobre a aletheia, porém como se ela já não fosse o dado mesmo a explicar como o que mudou em termos de mentalidade: "Em termos mais adequados, o que acontece com Alétheia, sua configuração, seu conteúdo semântico, no momento da secularização da palavra?"

17 O pensamento grego teria fornecido duas respostas, a sofística e a filosófica. Nestas não se trata de duas visões da verdade, mas de visões contrárias como o privilégio do falso e do verdadeiro. Filosofia e sofística, respostas "antitéticas: as primeiras colocam no centro de seu pensamento Alétheia, que se torna a noção cardinal, enquanto que as segundas privilegiam Apáte que desempenha, neste pensamento, o mesmo papel capital", assim como a ilusão é o elemento necessário da arte. Ora, a via da reflexão filosófica, Detienne apresenta como a que coloca o lógos como meio de conhecimento a partir da pergunta sobre se "a palavra é real, todo o real". Em seguida, como vemos, inversamente, é somente na filosofia que Alétheia não retrocede nem se desvanece, mas inversamente se mantém como "a prova, de certo modo experimental, de que Alétheia é realmente o centro de uma configuração de potências religiosas que possuem entre si relações necessárias." Ao mesmo tempo que a palavra-diálogo explica a filosofia, esta só nasce como a manutenção da palavra mágico-religiosa.

18 Quanto à palavra-diálogo, onde ela se expande para explicar a mutação da Polis, as instituições democráticas e a cultura retórica, já se faz ulteriormente a um instrumento de veridicção intencional, ela é agora a potência refletida da Ápate, a ilusão, como os artistas da Cidade definem a sua arte. Não a presença fetichista, mas tanto melhor quanto mais logra enganar a vista e o ouvido, a exemplo do quadro pintado de frutas que até os pássaros vem bicar, e os versos que alcandoram qualquer um fazendo-o o tipo mesmo do grande homem.

19 Poderíamos nesse ponto indagar sobre a adequação de reduzir o pensamento retórico sobre a linguagem que emerge nos meios de ensino sofístico à concepção de Simônides de Ceos, o mercenário das letras, a propósito da arte. Mas como resta tanto por desenvolver, aqui caberia notar apenas a peça ideológica em si que parece produzir-se na composição desse mesmo inabalável da palavra. Pois em vez da situação deliberativa relacionar-se ao Laós por sua necessidade interlocutiva, em Detienne é o Laós que personifica misteriosamente a palavra-diálogo, ao mesmo tempo a deliberação e a declaração pública ainda que inter-pares. Eis a ideologia do mito homérico na sua substância mesma. As atribuições da "aretê" ou "virtude" ou "excelência" que formam o ideal da Kalokaghatia - o belo e bom - da nobreza arcaica, são, primeiro, possessões naturais como a força física, a beleza, a bravura guerreira e, segundo, não humanas ainda que portadas pelo homem e mulher nobres. Elas são derivadas do parentesco originário da linhagem com o deus, como a beleza de Helena e a bravura de Aquiles. Assim vemos em Detienne o Laós encarnar a excelência da palavra, aquilo mesmo que na propaganda aristocrática do socratismo platônico causava escândalo pretender-se ser ensinável publicamente pelos retores, mas encarnar até a função da deliberação que evidentemente extrapola por sua utilidade o espaço fechado do Laós grego.

20 Os chefes que participam aí eles mesmos são senhores de tipo feudal, eles mesmos basileus a título próprio como Ulisses de Ítaca. Poderíamos evocar assim a particularidade de formas de governo mesopotâmicas muito antigas como a do Sumer entre o quinto e o quarto milênio, a primeira civilização conhecida, que hoje está sendo interpretada como parlamentarismo, ou mesmo democracia informal. O rei ligado ao sacerdócio não implica a monarquia imperialista, podendo ser interpretado como uma função puramente religiosa que se conserva em plena organização da Cidade-Estado como a que se atribui ao Sumer. É sintomático que utilizando-se de Homero como fonte, reiterando sua ideologia da nobreza como encarnação das possessões de aretê divinas, Detienne considere aplicável franquear o limite do lendário e histórico. Assim quando se trata de extrapolar o sentido do "méson" ou meio, da assembleia dos guerreiros aqueus a um costume de todo o mundo antigo, ele se utiliza de Heródoto e outros historiadores e mitógrafos. Mas quando se trata do que seria a cena originária do costume, a assembleia do Laós, cinge-se a Homero para delimitar o regramento do espaço, que se definia tanto pela circunstância dos jogos - disputa de prêmios entre os guerreiros - como pela de deliberação específica.

21 Aí vemos Tetis ela mesma trazer os prêmios que ela consegue dos deuses na organização dos jogos de Aquiles. (p. 46) É certo que Detienne se utiliza de interpretações já em curso sobre a "continuidade entre o costume agonístico e o costume judicial", este que, inversamente a derivar de "uma técnica especial e profissional... ele próprio emana da vida dos jogos" que faziam parte dos ritos de sepultamento dos aristocratas, conforme escreve Gernet na citação de Detienne (p. 112). Mas se um aspecto de disputa se transpõe naturalmente ao litígio forense, se o tribunal mesmo foi organizado primeiro não pela Polis democrática mas ainda no regime da nobreza, na transição do período jurídico que a poesia mítica de Hesíodo demarca exemplarmente, o que considero questionável é o sentido das instituições da Polis laica que estão sendo explicadas como, não obstante as oposições definidas entre os regimes sagrado e leigo da palavra, apenas o efeito da cena originária.

22 O papel sagrado aí é o do "meio", méson, a posição central na assembleia dos guerreiros, que deve ocupar aquele que vem exercer por seu turno a função do orador. Ele ergue o cetro que simboliza sua participação permitida pela ascendência nobre, encaminhando-se ao meio, quando quer falar na assembleia. Esse papel do centro ou meio, para Detienne, é pois o que fecha o espaço da assembleia convocada do Laos como unicamente regrado, bem mais do apenas o que se ocupa fisicamente, é o lugar que posiciona significativamente os ocupantes na sua relação recíproca, delimitando o sentido de sua ação mútua.

23 Na perspectiva de Detienne, o centro das assembleias guerreiras se conserva pois no papel da "ágora" na Cidade-Estado, a "praça do mercado" como centro deliberativo de reunião do povo em Atenas. A palavra "ágora" também significa "assembleia" no vocabulário homérico. Mas como noção numênica Detienne considera ter sido universal na Antiguidade, a Grécia sendo apenas um exemplo entre os demais, e nela mesma a função do centro refletindo em qualquer tipo de ação que envolvesse objetos postos em comum. Com efeito o centro na assembleia militar da aristocracia homérica devia ser ocupado pelo butim, os tesouros arrecadados na guerra. As assembleias eram também convocadas com o intuito de recebimento de presentes ou prêmios, e principalmente o objetivo era a partilha do butim entre os guerreiros. Por semelhança a essa concepção, o poeta Teógnis narra sua disputa com um amigo pelo desfrute amoroso de um rapaz na flor da idade, e enquanto disputavam o rapaz devia ficar en messw (èn mésso), "no centro".

24 Já centros de posição geográfica eram usadas, ora para localização de templos, como na atual Mesa, escavada por Koldewey, nome que Detienne considera derivação de es meson (ès meson), o meio, ficando o templo no centro da ilha de Lesbos; ora para localização de cidades que tivessem função geopolítica de centro regional, como Téos, que deveria ser segundo o conselho de Tales, centro político do mundo jônio, e que Detienne considera equivalente ao papel da Atenas de Clístenes.

25 A função do lugar central nas assembleias militares é porém algo complexa na exposição de Detienne, uma vez que ramifica aquilo mesmo que deveria estar opondo, o público e o privado. Falar no centro, participar da assembleia, é ser individualizado, um guerreiro da aristocracia, aquele que na guerra tem uma ação perfeitamente individual oposta à ação grupal do hoplita. A subjetivação do guerreiro é notada pelo critério de sua destreza pessoal também na palavra, sua habilidade em "emitir bem a sua opinião", e saber "se fazer ouvir", conhecendo meios de persuasão característicos como a Paraíphasis, persuasão que nasce da convivência, a Oaristus, influência recíproca que engendra o companheirismo, e a Parégoros, palavra alentadora que exorta o companheiro de armas. Essas noções do vocabulário homérico são potências religiosas nesse plano mítico, participam do cortejo de Venus, em grego Afrodite, a deusa da beleza e do amor. Mas conforme seu uso num plano puramente oratório, naquele verbo de tipo laicizado que distingue o guerreiro, torna-se a delimitação pioneira de um campo da persuasão, precedendo assim a retórica como disciplina leiga na Polis.

26 Ao mesmo tempo que regime da palavra de um orador pessoalizado que se endereça aos seus semelhantes, conforme a regra militar de sempre pedir conselhos uns aos outros antes de comandar uma ação, a palavra-diálogo é a que se endereça ao grupo pelo próprio objeto, somente tendo sentido como assunto de deliberação comum, de modo que "É nas assembleias militares que, pela primeira vez, a participação do grupo social funda o valor de uma palavra". (p. 51, o grifo é meu). E quando inversamente à posição do orador, o guerreiro ocupa somente seu lugar na assembleia, oposto à posição do centro, ele "volta a ser um cidadão privado".

27 A ambiguidade parece preservar-se em Detienne, ali mesmo onde estaria sendo esclarecida: "Ao separar claramente o público do privado, ao opor a palavra que diz respeito aos interesses do grupo e àquele que se relaciona com os assuntos privados, o pensamento político prolonga uma distinção fundamental nas deliberações dos guerreiros profissionais. Prepara-se, nesse momento, o futuro estatuto da palavra jurídica ou da palavra filosófica, da palavra que se submete à 'publicidade' e que tira sua força do assentimento do grupo social". (p. 53) Essa reversibilidade, que pressupõe compartimentações de público e privado que se tornam desambiguizáveis apenas no espaço político da Cidade-Estado, também encontramos em Snell. Ao comentar o modo como Atená se dirige pessoalmente a Aquiles exortando-o a segui-la na intenção de ter a cólera aplacada, ressalta o caráter exemplarmente clássico da expressão, onde não só a clareza e simplicidade são a toda prova, como também se constata o senso de respeito mútuo. As palavras da deusa tão cheias de naturalidade pressupõe "formas sociais aristocráticas: contendo as recíprocas exigências, um respeita o outro com senso de cavalheiresca cortesia". Esse respeito mútuo porém é o que costumamos associar à democracia especialmente ateniense, não só pelo sentido "isonômico" que nela preside as relações sociais contra as concepções de superioridade hierárquica que obrigam a fórmulas de submissão do outro, mas justamente por ser onde o um e o outro estão realmente pessoalizados em seu trato privado oposto à sua comum posição no plano público.

28 Como ressaltei, Snell é quem mais observa, ao mesmo tempo, o caráter não pessoalizado do mundo aristocrático reconstituído na Epopeia, onde não é que não se saiba que um é fulano e outro é beltrano, mas sim que não há um pensamento definitivo diferenciando um e outro, ambos são apenas exemplares do mesmo status componente de um mesmo fundo ideológico mágico-religioso totalizante da significação possível. E como vimos, Detienne não ultrapassa esse limite, salvaguardando a pertença aristocrática ao Laos como o significado da igualdade pensável. Torna-se assim algo ambígua a concepção de Snell, pelo que o humanismo e a forma da pessoa nascem na Polis em decorrência da primitiva religião naturalista grega, e isso já se demonstrando pelo fato de humanidade e natureza serem opostos no pensamento grego da Cidade-Estado.

29 É somente na transição da democracia grega ao império helenístico que a junção de homem – até aí onde pode ser pensado, como na sofística, o referencial do “nomos” - e natureza se torna tematizável, mas antes de ter resultado no ambiente típico dos misticismos totalizantes da era dos "santos" que desemboca no cristianismo anti-filosófico, foi primeiro decorrente das questões suscitadas pela importância crescente da medicina, especialmente desde a influência que na filosofia - não o contrário - exerceu a Escola de Cós, com sua ênfase no todo.

30 Se nesse início a rejunção de homem e natureza se processava pelo viés do idion, do indivíduo particular enquanto organismo, na transição ao plano místico de que o platonismo influenciado pela Escola hipocrática de Cós é um dos artíficies, inversamente, é a totalidade teo-cosmológica que se torna - ou volta a se tornar - o unicamente pensável. Aqui nem mesmo se trata do koinon, o comum no sentido do interesse público civil, mas exclusivamente do sagrado. Sintomaticamente, já Detienne assim se expressa quando pretende, do mesmo modo que Snell, derivar da aristocracia as formas de pensamento típicas do regime político: "Nas assembleias militares, a palavra já é um instrumento de dominação sobre o outro, uma primeira forma de 'retórica'. Nos meios guerreiros funciona, de início, um tipo de palavra que concerne ao homem, seus problemas, suas atividades, suas relações com o outro." (p. 51)

31 Porém é importante preservar a motivação que parece ser possível compreender nessa pretensa reconstituição da continuidade profunda implícita nas próprias formas da linguagem. Pois sem dúvida ao enfatizar o caráter estritamente regrado da palavra-diálogo, nas assembleias militares da aristocracia ou na concepção do Lógos imanente à Cidade-Estado, Detienne está localizando uma característica essencial do regime político. O gênero deliberativo pressupõe uma reserva de respeito público bem oponível à palavra desregrada que no fundo seria o que está se atribuindo como a possibilidade a conjurar de uma liberação total do ímpeto popular e inculto. Mas de onde vem o adestramento necessário, quando é o povo que participa da assembleia na Polis? Conforme Detienne, com efeito, no momento em que já é o povo que delibera, "dá os decretos decisórios", já é "o conjunto dos cidadãos que 'realiza'", pode-se considerar que "a eficácia mágico-religiosa converteu-se em ratificação do grupo social", de um modo que opõe exemplarmente ambas as instâncias.

32 Nesse trecho assinala ele a superação radical da palavra mágico-religiosa, a laicização. A mudança do juízo mágico-religioso do rei sacerdote ao sistema jurídico opera aí o papel principal: "O declínio da palavra mágico-religiosa coincide, notadamente, com um momento privilegiado da história do direito". Sobretudo, a "laicização da palavra" mesma já é definida em função do novo espaço social da Polis: "é nas práticas institucionais de tipo político e jurídico que se opera, durante os séculos VI e VII, um processo de secularização das formas de pensamento. É na vida social que se constroem, ao mesmo tempo, o quadro conceitual e as técnicas mentais que favorecem o advento do pensamento racional". (p. 53, 54)

33 Assim porém o papel pioneiro, estrutural, do Laós permanece enigmático, por um lado, e também a estrita oposição dos regimes da palavra, que por outro lado se torna anulada na evocação do filósofo como o retorno do rei mago. Assim conforme o mesmo Detienne: "Por volta do final do século VI, a Grécia vê nascer em meios particularizados, um tipo de pensamento filosófico e religioso que é diametralmente oposto ao dos sofistas. A oposição afirma-se em todos os pontos: o segundo é um pensamento de caráter secularizado, voltado para o mundo exterior, orientado para a praxis: o primeiro é de caráter religioso, voltado para si mesmo, preocupado com a salvação individual. Se o sofista, como tipo de homem, é filho da cidade, e se ele visa essencialmente, dentro de um quadro político, agir sobre o outro, já os magos e os iniciados vivem à margem da Cidade e aspiram somente a uma transformação totalmente interior... Se as técnicas mentais da sofística e da retórica marcam uma ruptura manifesta com as formas de pensamento religioso que precederam ao advento da razão grega, as seitas filosófico religiosas, ao contrário, colocam em ação procedimentos e modos de pensar que se inscrevem diretamente no prolongamento do pensamento religioso anterior" (p. 63).

34 Aqui vemos portanto a tese da continuidade se inscrever manifestamente sob a letra da "ruptura". E inversamente, o ponto de convergência tanto da antítese quanto da complementaridade, entre sofística e filosofia (p. 55), é Aletheia. Assim como se pode exemplificar pelo mito de Petron de Hímera acerca da "planície da Aletheia", retomado no Fedro platônico, onde a sagrada oposição de esquecimento e verdade faz retorno (p. 64).

35 A reforma hoplita aparentemente considerada como o fulcro da continuidade, ao que informam os historiadores, tem apenas proveniência espartana, como uma inovação técnica guerreira de Sparta consistindo em atacar numa formação em massa. Requerendo assim providência contra a desordem, do que resultou compor-se o exército de pequenos quadros de quinze guerreiros, os hoplitas, pesadamente armados, acostumados a avançar em uníssono. O conjunto era treinado em seus movimentos estritamente unidos ao som de música, e a tremenda eficácia dos combatentes era impressionante e garantida porém dependendo dessa disciplina extremamente severa.

36 A reforma hoplita não explica a cidadania na Polis, ao contrário, é explicada por ela, e na circunstância da vocação guerreira de Sparta, bastante avessa a laicismos, exercício da palavra ou democracia - lembrando que onde foi elogiada pela posteridade, Sparta se consagrou como o símbolo do "laconismo", nome da região em que se situava, a Lacônia. Símbolo oposto à verborreia de que nos tempos imperiais se compraziam os juristas de acusar o aticismo, conforme exemplifica Sexto Empírico no seu "Contra os retóricos". A circunstância da reforma hoplita ser a invenção de Sparta é importante observar. Com efeito, se Sparta oferece um oportuno referencial para a tese da continuidade da palavra interlocutiva do Laós à Cidade, deveríamos salientar suas peculiaridades. Não só a caraterística especificamente bélica de sua organização. Quanto a isso, se não se pode considerar uma organização social antiga onde o peso do militarismo fosse minimizável, o significado desse fator em Sparta era de todo não típico na Grécia Antiga.

37 Nas demais cidades o militarismo faz parte da organização, cuja mola está nas instituições civis legislativa-judiciária, em Sparta é a organização ela mesma. Porém o aspecto que eu gostaria de ressaltar como o mais pertinente à questão antropológica, é que somente em Sparta o sentido das forças militares no espírito público se conservou voltado para o exterior da cidadania. Nas demais cidades, como vimos, a Polis resultou da guerra civil que deve ter ressignificado consideravelmente o papel da atividade militar e a função deliberativa. Assim a construção do significado da cidadania espartana é ambíguo, dúplice, composto de dois fatores algo contraditórios. Por um lado, a Lacônia era proverbialmente considerada a região que outrora fôra o centro aqueu, a pátria dos loiros Menelau e Helena. Por outro lado, ser espartano era ser o senhor do escravo messênio, assim ser um senhor exclusivamente "grego", não obstante os messênios também serem gregos, a circunstância do senhorio espartano simbolizava a posse do território novo, a história posterior à invasão.

38 Detienne utiliza-se efetivamente de Sparta como o exemplar perfeito daquilo que porém a seu ver, bem inversamente ao que temos constatado até pelo exemplo já aduzido do Hippias, é a gênese da grecidade em geral. Em seu "A escrita de Orfeu" (Rio de Janeiro, Zahar, 1991) ele torna a definir o significado do butim, esclarecendo porém mais a propósito do sentido quantitativo da partilha. A igualdade das partes distribuídas como o símbolo concretizado do status de igualdade entre os membros do grupo também envolve costumes de refeições em comum, onde as partes da oferta sacrificada ao deus que havia sido destacada dos rebanhos anexados aos despojos apropriados na guerra deviam ser iguais. Assim os guerreiros aristocratas formam como vimos, ao ver de Detienne, a origem da noção de isonomia, vivendo sob a mesma lei, mas também de isomoiria, igualdade da parte a receber, e isokratia, igualdade de terras e de direitos políticos (p. 68). Mas o costume da partilha alcança na formação da Cidade não apenas a circunstância da guerra: "A partilha igual das carnes de sacrifício - seja a sua igualdade geométrica ou aritmética - é um dado fundamental que veicula o modelo econômico das cidades onde a comensalidade se impunha mediante um sistema de divisão em partes, em pedaços de tamanho e peso iguais. É aqui que Sparta se torna exemplar pelo costuma das sissitias, as refeições em comum prescritas como ordem pública, "o comer em conjunto, lado a lado o mesmo assento, o mesmo caldo, uniformemente o mesmo dia após dia".

39 Ao designar Sparta esse "refeitório militar" à escala da Cidade, considera notável que as refeições eram compostas dos produtos que os spartanos cultivavam, cada um em seu lote de terra, trazendo assim ao consumo público. Eis o modelo originário e a plena exemplaridade espartana: "Estado guerreiro hipertrofiado onde a partilha funcionava plenamente, em todos os planos - alimentar, territorial e político...". Agora, o hiato. O modelo originário era mais, não menos, violento que a exemplaridade na plenitude. No modelo originário, a partilha simbólica deriva do plano do sacrifício, tanto de animais como humanos, e as noções cardinais são a violência e a necessidade, bia e ananké (p. 67). Se não era o sacerdote, era lendariamente o deus mesmo, Apolo, que manejava "o duplo machado”, ou degolava “com o cutelo do sacrifício". Ora, Detienne mesmo registra que era já assim nas assembleias arcaicas do Laós, onde a exigência humano-sacrifical se observava. Para cada reunião decisiva o Laós prescrevia o sacrifício individual – portanto geralmente de algum integrante do demos - havendo registro de Detienne sobre um “sacrifício horrível”, ao que parece chegando à carnificina.

40 Na Sparta exclusivamente militar, a partilha era feita de produtos pacificamente cultivados: "As contribuições mensais, em farinha de cevada, em carne de porco, em queijos, em figos e em vinho, eram postas em comum... repartidas da maneira mais igualitária entre todos os membros da comunidade dos Semelhantes". Ao ver de Detienne, enquanto Sparta se especializava assim numa economia da partilha que a personalizava, fazendo da parte igual o objetivo em si mesmo, outras sociedades conservavam o princípio de excesso a partir de um ponto central sacrificial, mas em todo caso, a transição para uma concepção da Cidade autonomizada, consciente de si mesma, teria sido feita pela sacralização de Hestia, " o fogo da lareira, fogo do altar e que participava do alimentar e do sacrificial". Ela representava assim um "lugar de culto fixo" relacionado ao aspecto sacrificial, mas para tornar-se "Hestia Koinné", Fogo Comum, era preciso que um centro comum, um ponto focal da repartição se tornasse institucionalizado a partir de liturgias inovadoras.

41 Um aspecto que o livro de Detienne focaliza é a relação do celibato feminino, o próprio de Héstia mas também o episódio da esposa de Zeus, Hera, autofecundando-se com o suco da alface - relação imaginária da mulher com a figura do pai, na posição desse corpo puro, isento de sexo, assim "ocupando só ele, o espaço da legitimidade. Hera, a esposa, incorporando o pai "(31), e isso mesmo que o culto público de Hera se tenha instituído por meio da danaide casada, ternamente ligada ao esposo Poseidon. Amimone, amada por Poseidon, que a livrou de ser violentada por um sátiro, recebeu como presente a normalização do abastecimento de água na região, "inaugurando assim o reino de Hera com a cumplicidade do senhor das águas subterrâneas" que até aí havia colericamente decidido a desertificar para castigar a preferência dos cidadãos por Hera.

42 Poseidon pacificado, Hera vem representar a igualdade dos direitos dos esposos no plano das leis. Já as liturgias de Héstia, a deusa da lareira, institucionalizavam-se para fazer comunicar simbolicamente os fogos particulares e o comum, a partir das "suas três hipóstases da unicidade: o Conselho da cidade, o Tesouro público e a potência de comandar" ela mesma. Conforme Detienne "as primeiras democracias gregas instituíram-se sob o signo de Héstia".

43 Porém o que fica assim por explicar é o sentido da mudança do regime, onde ele ocorreu efetivamente. Não apenas o trânsito do domínio dos genos nobres e/ou monárquicos sobre todos os plebeus reduzidos a servos, à Polis dos cidadãos com direitos iguais, mas no interior desta, a pluralidade de opções como entre Sparta e as democracias efetivas, especialmente ateniense. Aqui porém não seria realmente útil evocar o plano histórico, onde se verificaria que ao contrário de uma passagem direta da aristocracia à democracia, não considerando a esta especialmente nas suas versões mais rústicas, antes da supremacia ateniense, houve um intermediário plutocrata, em que direitos políticos eram atribuídos exclusivamente com base no critério da renda. Mas a plutocracia cresceu muito mais na era imperial helenística, sem que isso resultasse na preservação de qualquer traço da autonomia popular, uma circunstância bastante parecida com o que ocorre na sublevação moderna contra a aristocracia, visto que o capitalismo não resultou numa democratização, mas ao contrário, no que interfere com a organização social, visando o capitalismo formação monopolística, imperialista e ditatorial, por vias de corrupção da lei, hoje em dia até mesmo sendo comum ouvir ecos de propaganda monarquista.

44 Algo que me parece conclusivo quanto à questão circunscrita de como o gênero e a prática deliberativa pública puderam se popularizar como um meio da palavra regrada, exigindo pois um elevado nível cultural, é porém algo que extrapola o quadro dos opostos como planos de palavra religiosa e dialógica, como o que se poderia haurir de um exame das fontes a propósito de como funcionava realmente uma assembleia popular na Grécia antiga já porém nos tempos da Polis, quando o culto de Apolo e deuses oraculares em geral, funcionando num templo estatal já se tornara isento de sacrifícios humanos.

45 Nesse sentido Rollo May fornece uma pista oportuna, ao tangenciar esse aspecto em seu interesse de estudar como o oráculo de Apolo atuava em termos de um veículo do inconsciente, posto que devia ser interpretado na sua enigmática formulação. Ele mostra assim que a assembleia popular deliberava sobre a empresa comum, porém não diretamente, e sim como intérprete do oráculo que valia como a decisão a ser seguida. Uma vez que a fórmula oracular requeria interpretação, conforme o exemplo de May, na decisão sobre atacar ou não a Persia, a deliberação conjunta em Atenas se fez sobre o sentido da revelação do oráculo de Apolo: confiar nas muralhas de madeira. E venceu o partido de Temístocles, que interpretou serem elas navios, portanto o necessário ao ataque para o caso de invasão, contra os que pensaram se tratar das muralhas da cidade que assim por si mesmas manteriam afastado o inimigo. May está argumentando no sentido de que aquilo que provém do inconsciente ao receber um tratamento interpretativo, apela a potências elas mesmas inconscientes que se tornam vitalizadoras das decisões do homem.

45 Mas também podemos convir que a religião na Grécia antiga teve um papel muito mais importante na secularização mesma dos costumes do que um procedimento estritamente antinômico poderia reconstituir. Sobre isso constatei em meu "Filosofia, ceticismo, religião, com um estudo sobre Diógenes Laércio", como este último conserva-se importante fonte no sentido da convergência entre primeiros filósofos e oráculo apolínio. Mas assim é a transformação religiosa que verificamos, como ruptura relativamente à mentalidade arcaica. Nessa transformação ocorre constitutivos da possibilidade da auto-compreensão da pessoa, sendo compreensível a repulsa ao sacrifício humano, o que na mentalidade pretérita era vedado. Um estudo especialmente dedicado à religião cívica da Polis extrapola o nosso contexto, mas dois itens devem ser especificados. A desdivinização do rei relativamente a genealogias míticas, e subsequentemente dos cargos governantes, e a autognose como a mensagem mais popularizada do templo de Apolo. Se a referência ao templo está explicitamente relacionada à filosofia nascente como vemos em Laércio, a mensagem do “conhece-te a ti mesmo” forma um capítulo importante na compreensão do fenômeno Sócrates e sua recepção até hoje.

46 A questão da subjetividade como cisão entre comum e particular, se torna então o que deveríamos considerar em termos de certa evolução envolvendo vários níveis do plano cultural em que nasce a filosofia, inclusive o religioso. Um modo de notarmos a defasagem do processo antigo e moderno, pelo que na Antiguidade nunca seguiu-se uma psicologia como teoria do Sujeito pensável, é que na modernidade a subjetividade é o que se opõe por um lado, mas também relaciona-se estritamente como o transcendental, à objetividade. Esta conquistou um estatuto inabalável a partir da emancipação da ciência pós-medievo, ao longo dos períodos moderno e contemporâneo, sem comensurabilidade com o estado de coisas antigo. Mas se a formação da pessoa é o substrato da democracia assim como das questões envolvendo a relatividade da doxa (opinião), o correlato da noção ainda permanece obscuro, exceto se considerássemos a evolução religiosa contra-aristocrática.

47 O anacronismo que Detienne considerou inevitável na sua exposição sobre a continuidade da tradição no seio da mais extrema revolução política verifica-se não tão útil ao notarmos que ela é acusável não tanto por um uso de termos posteriores, que entretanto esclarecem usos pretéritos, mas por isso que procede como se o naturalismo pré-socrático e a metafísica teocêntrica posterior fossem ambas um mesmo como prolongamento do sacerdócio da realeza na origem. Aqui a história da filosofia vem em nosso auxílio, contudo, no interesse de mostrar como a democracia dependeu da transformação, como de rupturas determinantes, no plano religioso. Pois a metafísica posterior à sofística assim como ao naturalismo dos primeiros filósofos, é que fez explicitamente o transporte da teologia tradicional ao interior da filosofia, mas o fez por um interesse anti-democrático explícito, e se o antípoda soifístico democrático dessa metafísica aristocrática promoveu uma acusação julgada necessária, ela não foi de subversão política, mas de impiedade religiosa, transgressão da religião cívica da Polis.

48 Não havia de fato teologia unilateralmente determinante da physis nos pensadores pré-socráticos. A physis é a realidade que abrange todas as atribuições dos seres. São bons motivos que induzem Heidegger a considerar a metafísica onto-teo-logia. Mas ele também não considerou devidamente a heterogeneidade grega, a cisão dos partidos aristocrático e democrático, assim como a oposição geopolítica exemplar de Sparta e Atenas, vigente na duração mesma da democracia ateniense.

49 O que podemos constatar então é que, mesmo não havendo postulação direta da democracia pela totalidade dos filósofos pré-socráticos, não sendo "filosofia" dogmática o que se praticou na democracia como "sofística", e a metafísica como filosofia madura sendo estritamente retorno da teologia aristocrática oponível à religião cívica da Polis, fato é que a prática do pensamento leigo seguiu a sorte da democracia na Antiguidade. Ele vicejou, dos primeiros filósofos até o desabrochar completo na sofística e nos sistemas filosóficos posteriores mesmo que estes enunciassem verdades teológicas, uma vez que eram modulados em gêneros argumentativos em vez de seitas místicas, enquanto a luta contra o poder soberano da aristocracia, do rei e seus nobres ou só destes, se manteve efetiva. Quando declinou toda possibilidade democrática da autonomia política na Antiguidade, o pensamento leigo feneceu por completo, até a barreira intransponível da censura oficial por meio da soberania ressacralizada do cristianismo medieval.

50 Hoje porém, que o pensamento leigo é prática instituída, já se trata de questão mais espinhosa. As censuras em nome da razão, pretendidas pelas ditaduras comunistas ou contra-comunistas, ambas impondo-se como dominações: sobre a ciência ou da ciência mesma? E quanto à gênese, é a vontade de verdade originária metafísica, cristã, ou algo sobre o qual não pensamos ainda? Entre a ruptura e a continuidade, o mundo antigo e o mundo novo ainda não puderam ser pensados independente do paradoxo da diferença irredutível e da identidade mais profunda.

 

2) Hesíodo: entre estrutura e história

 

 

I

 

1 O "pensamento antigo" é mais atual do que se pensa. Essa asserção não significa necessariamente defesa ao modo de Mondolfo, da inexistência de fronteiras, com base em que elas podem ser sempre relativizadas pelo mero fato de que só são postas para serem atravessadas. A antinomia, abraçada por Mondolfo como lei pendular do espírito assim descoberta por Kant, aqui parece funcionar à maravilha para fazer-nos recordar que assim como finito e infinito, antigo e moderno são termos relacionais. Porém transpondo o vocabulário do antinômico ao relacional, mudamos muita coisa e já não consideramos de modo estritamente crítico somente à razão. A ilimitação pertence à linguagem e não é um defeito congênito.

2 Nessa ruptura a modernidade mesma já se fez questionada pelo que vem se convencionando designar pós-moderno, e se o relacional da linguagem tem sido postulado como o que a este poderia bem definir, o fundamento torna a deslizar, e desta vez mais fácil ainda, pela intercessão de um hífen. Como a expressão pós-moderno implica, o posterior é relativo ao que precede. Importa indagar de que modo. Mas o que realmente expressamos ao surpreender o antigo no atual, é que o Renascimento, como o ponto de mutação, de que outros podem se seguir até agora mas tendo sido a ruptura fundamental a partir das Grandes Navegações e Ciência Experimental, é um termo sobre o qual ainda não se refletiu bastante, de modo que a ambiguidade que enuncia não se tornou ainda esclarecida, nem mesmo costuma ser tematizada. O Renascimento é a porta de entrada da modernidade como admirável mundo novo, mas a palavra "Renascimento" só denota um retorno, a volta do que foi "Antigo". Estamos habituados a considerar a ambiguidade como se não fosse tal. O que "ressurge" é o cultivo da razão, para um conceito dela como o que se desencadeou uma vez, não numa Antiguidade como generalização dos tempos idos, mas "clássica", o contexto preciso da filosofia grega.

3 Foge à inteligibilidade o tempo anulado de permeio? Mas o tempo não se anula. O classicismo é modernidade de outra coisa, é um ismo que se demarca por oposição a outro, ao feudalismo como o contexto inimigo da razão, impositor da fé.

4 A nós hoje a oposição fé/razão ecoa circunscrita a um ambiente no qual não nos reconhecemos como pensadores, assim como em nossa prática o conflito já não é esse. Se após o otimismo de Hegel, saudando a modernidade como a resolução do conflito primordial do homem, vem Marx para nos dizer que o conflito agora apenas se deixou nomear como tal, ambos nisso estão de acordo, o conflito é a dominação do homem pelo homem, não há ressonância à alternativa de preminência entre o homem e Deus. É curioso ainda assim, que Nietzsche, o terceiro da tríade, tenha considerado tão pertinente enunciar ao mesmo tempo que nada restara da teologia no pensamento humano e científico, e que este resultado fôra entretanto condicionado pela teologia na história como o trabalho desse platonismo para o povo que teria sido o cristianismo. Nem a irrupção do saber absoluto, que não deixava fora de si a cultura; nem a oposição de saber e ideologia. Um processo que chegava ao fim, como a um novo começo do que ele era a enunciação.

5 Mas vemos que nestas três instâncias, não se escapa ao axioma da modernidade enunciada por Hegel, a Aufhebung. A teologia, eis o conteúdo reconciliado da cultura, nada está fora, a ciência mesma o enuncia quando se faz "história" e "sociedade". E depois, com Marx, a antítese apenas se personifica a ela mesma, uma vez que sem precisar esperar muito, logo a vontade de verdade deixa atrás de si a camada teológica sobre que se superpõe numa mesma formação extratificada, folhetada, o exercício leigo da ciência.

6 Os termos Renascimento e Aufhebung, assim vistas as coisas, ressoam mutuamente. Em ambos algo é retomado mas por suprassunção em algo novo. O conceito não é como de um a outro espécime pela via da semente, mas sim como da negação alterizante da semente à planta nova. O Renascimento não conhecia o evolucionismo e a Aufhebung convém só a este, mas a intuição da modernidade é inerente à mesma estruturação.

7 A lacuna que o termo Renascimento inscreve à frente de si só o evolucionismo preenche, ao vislumbrar no novo a oportunidade da transformação real. Mas vemos que a analogia preconcebe o pensamento que intercepta o fenômeno evolutivo e o faz retroagir a uma comunidade de sentido possível com o precedente fixista. A evolução só bem recentemente se faz pensável como um enigma posto ao pensamento, este que não tem comensurabilidade com o aleatório, o puro devir, o acaso mais total inscrito na dança combinatória do aminoácido. Mas nem se pode bem dizer que esse enigma está enunciado, quanto mais enfrentado. O acaso evolucionista está se designando a partir do orgulho de um pensamento que atingiu as leis da variação genética, e o liame da relação com o meio. O binômio lei/devir não coloca nada de novo, é o que a ciência experimental determina como a inteligibilidade sua.

8 A isto queremos, em todo caso, aportar - seja lá como for que se possa retornar ao problema da Aufhebung renascentista. A ciência experimental introduz um estado de coisas, num interregno de trezentos anos, que determina a superação enunciada da teologia, mas de fato não a suprime. Como o resultado veio a ser um inesperado contexto de filosofia e ciências humanas, em que a transformação da sociedade se deveu à associação de ciência, tecnologia e indústria, a transformação do conflito fé/razão num novo capítulo da história do conflito social se cumpriu abstraindo no discurso do progresso a força recursiva da teologia até a eclosão da Aufhebung setescentista e o interregno do positivismo em meios do século XIX. Força que se impregna nesses precursores de tantos lugares argumentativos da filosofia contemporânea, como Descartes e Spinoza, mas também, sobretudo, força repressiva como organização eclesiástica que sustentou ideologicamente o poder até que fosse independente o Estado constitucional antes intuído em linhas gerais por Locke e Rousseau.

9 Na atualidade a teologia é uma realidade sociológica, notável a partir da transição ao século XXI como movimentos de massa, especialmente protestantes no Ocidente, tornando-se intensos em países que tinham outros credos predominantes como os católicos, e os fundamentalismos a Leste. Na verdade os fundamentos de religiões históricas seccionam os movimentos políticos a Leste e Oeste. Hoje o enunciado da confrontação política pode-se fazer como entre - novamente - mouros e cristãos. Revistas de divulgação científica que circulam nas bancas informam falsamente que teorias científicas da origem da vida são tanto a evolução quanto o criacionismo. Nas cidades ocidentais os grupos religiosos voltam a erguer bandeiras contra o evolucionismo e a prerrogativa intelectual da ciência. No Brasil a interferência com o conteúdo escolar tem sido feita por alunos que se recusam a ouvir a lição porque o seu pastor "ensina" na igreja que o evolucionismo é errado, que não se explicou ainda porque continua a haver macacos, etc. Sendo país católico, e tendo um pico de desenvolvimento entre os anos cinquenta e oitenta, nada poderia surpreender mais do que esse resultado que vem sendo conspícuo junto ao crescimento absurdo das favelas, com retalhamento das cidades em regiões onde estão vigentes regimes de tiranias, sob leis impostas por facções do crime organizado sem qualquer relação com a constituição vigente, uma vez que o tráfico de drogas continua na ilegalidade por incúria dos governos, quando se deveria transferir a eventualidade do vício ao tratamento médico, por outro lado não havendo efetivo de força repressiva suficiente contra o estado de coisas. Mas geralmente essas regiões estão relacionadas aos enclaves protestantes que se conservam como o único referencial das famílias. Nos Estados Unidos algo recentemente, segundo agências de notícias, obrigaram-se os livros escolares ostentarem rótulo informando que "contem teoria evolucionista", isso como paliativo do requerimento radical dos grupos de pressão ao congresso, que havia sido o absurdo de ensino de biologia sem a "teoria" - como se a ciência subsistisse sem a própria inteligibilidade. Há cem anos atrás a novidade nos seminários protestantes americanos era, ao contrário, a assimilação das belas metafísicas da evolução à Royce e Bergson. Se compreendemos que isso já não está possível, devido ao avanço do aleatório na démarche das pesquisas, não se justifica ainda assim o retrocesso, posto que seria mais coerente que o hiato de razão e fé apenas houvesse se aprofundado, tanto mais que a medicina e a indústria multinacional dos remédios crescem ilimitadamente junto com a engenharia genética, enquanto as patentes de gens de laboratório por empresas privadas prossegue sem obstáculo estatal.

10 Ao mesmo tempo que um novo obscurantismo, como vimos os movimentos teológicos de massa manifestam-se em meio ao caos político e social como horizontes de coerência frente à ameaça de solvência de todo respeito à pessoa - como uma recente tentativa de grupos de esquerda decretar pelo legislativo a proibição dos pais informarem aos filhos que são "homens" ou "mulheres" sob alegação de ser o que perpetua a "ideologia de gênero", o que uma convergência de católicos e protestantes vem conseguindo impedir pela preponderância dos votos - na inconsciência das hordas aglutinadas em torno de palavras de ordem psicoticamente multiplicadas pela info-midiática, a nova dominação que abarcou a universidade, enquanto a ciência natural se torna sempre mais o serviço pago pela grande empresa multinacional.

11 O Renascimento foi de fato politicamente a repetição do Império Antigo helenístico romano, na forma da nacionalidade nova oriunda da aliança da realeza com a burguesia colonial-escravista. O processo da nacionalidade se arrastou na Europa por muito tempo até que o império tout court, como domínio sobre nações, parecesse algo estranho, após 1945. Porém hoje o planisfério do conflito Norte/Sul conota o imperialismo do Norte como fenômeno supranacional. Esses acontecimentos promovem a pós-modernidade a um status compreensível na perspectiva da História, mas ainda não se sabe bem como juntá-los desde que uma mudança profunda no recorte teórico disponível sobre a própria modernidade não se tem considerado com a base necessária.

12 Aqui eu gostaria de problematizar o recorte a partir do que poderia se posicionar como o núcleo pensável em cada um dos contextos. O pré-moderno tem sido bastante explorado, mas em conjunturas que precisam respeitar a cisão de greco-romano e cristão, sem fazê-lo porém de um modo que realmente possa definir a independência de um a outro, dado o prolongamento platônico-aristotélico no catolicismo até a Reforma, e o cunho "classicista" do pós-medievo até o Romantismo. Quando a Reforma se enuncia, já não há um locus definido pela teologia das igrejas, e o Renascimento introduz a produção dos filósofos não "Antigos" que perfazem contudo a teologia do capitalismo em progresso. Podemos entretanto considerar todo o contexto pré-moderno como uma polaridade única entre o ideal e o empírico. A história da repressão do empirismo antigo atravessa os estágios de sua plena expressão na filosofia greco-romana, sua repressão propriamente dita no medievo, quanto porém sobrevive na forma de heresias e alquimia, e sua expressão transformada como umbral da modernidade.

13 Porém considerando a "modernidade" completamente só a partir das ciências humanas, do Romantismo em diante, à polaridade do ideal e empírico, que poderia colocar a pedra angular antropológica pela questão do que entre eles é primeiro, se o há, sucede não uma outra polaridade qualquer. E sim um conjunto de núcleos sucessivos: transcendental kantiano, subjetivo romântico, material positivista, fenomenológico à Husserl, existencial à Heidegger, estrutural à Lacan e maquínico pós-estrutural.

14 Nessa conjunção problemática a questão da unidade versus multiplicidade poderia ser considerada axial, mas seria demasiado redutor. O maquínico pareceu o lugar adequado a uma dominação info-midiática com as conotações de manipulação total do ser humano que o complexo biologia/engenharia permitiu produzir. Porém o maquínico pós-estrutural enunciou-se, inversamente, como a redução tecnicista do homem, e como se a máquina fosse um novo idealismo tal que a marca nunca precisasse ser pensada. Está para se compreender porque pensadores como Deleuze-Guattari enunciavam há pouco tão euforicamente que o homem é o parasita da máquina, sem qualquer intuição de ser perfeitamente postulável o contrário.

15 Como vimos, o Relacional veio a se acrescer nessa conjunção a sete termos - se juntarmos os estruturalismos num só campo operatório do signo. Ao assim acrescentar-se, o pós-moderno se enunciou como um contexto irredutível à conjunção que se faz pretérita, mas como podemos constatar ele não muda a planificação que designei conjuntiva por oposição à polaridade originária. Se ele mesmo é um pensamento da polaridade, a sua problematização enquanto tal, intercepta desenvolvimentos já conhecidos, a dialética romanticista ou materialista, o estruturalismo. Assim já na modernidade a polaridade não resta unificada como antes, mais ou menos inconsciente de si. Mas o relacional, como algo mais que antinômico, introduz o irredutível em plena era da máquina. A conjugação desses dois núcleos num mesmo contexto histórico ainda resta por pensar. A historização da polaridade como um contexto específico na origem do "pensamento" e como a consistência do pré-moderno entre o ideal e o empírico, antes da abstração da polaridade como esquematismo do pensar em geral, torna-se um dos fios condutores da questão pós-moderna se aquilo de que nela se trata é em princípio a sua delimitação frente à História.

 

II

 

O Logos platônico se apresenta no Fedro, conforme Derrida, especificamente "como um ser vivo". A base expositiva da elocução ecoa ao modo injuntivo, contudo, pelo que se acrescenta, esclarecendo a comparação: um ser vivo que "tem que ser organizado possuindo um corpo próprio". (264 c) A comparação é mais do que isso, a definição mesma no "Sofista" 260 a, onde o lógos é "sempre um ente (ón) e mesmo um gênero de ente, mais precisamente um ente vivo. O lógos é um Zoon", um animal ("A Farmácia de Platão",op. cit. p. 24). Mais à frente, à página 61, localiza Derrida a proveniência grega em geral, tanto como idealista ou platônica, dessa concepção, sublinhando no ensinamento de Gorgias o que posteriormente o vocabulário de platão serviria tão bem para esclarecer.

2 O Logos vivo, por oposição ao que é inerte como o signo fora da fala, o código inscrito, a letra sem espírito, é o sujeito da proposição que Gorgias, no seu Elogio de Helena, atribui ainda pelo termo "lógos". A proposição inteira do "Elogio", resumindo, reza que a fala persuade a alma que é inocente dos perigosos poderes persuasivos que a própria fala encerra quando endereçada sedutoramente, com intenção de enganar. O propósito do texto gorgiano é desfazer essa inocência geral proveniente da crença nas palavras como se fossem elas mesmas as coisas, alertar contra o perigo, ao contrário de enaltecer a virtude persuasiva do lógos, que seria louvável apenas se utilizada contra o poder mesmo de sedução pelo lógos. Mas Derrida só destaca do texto gorgiano a sedução da fala como o que é atribuído ao contrário da escrita, o que não tem muito a ver com a intenção do escrito. Para Derrida, o Elogio considera sobre a escrita que não seria do mesmo modo eficaz nessa função persuasiva. Que assim a escrita seria apenas mais honesta, no sentido de mais verdadeira quanto à sua intenção uma vez sabendo o escritor que o receptor não se deixaria lograr, Derrida não considera. Interpreta "o encantamento divino das palavras" que Gorgias declina, na acepção única do logos como ser vivo, e este seria o contrário único da escrita no pensamento gorgiano. Aqui, desde já, é importante sublinhar o alcance dessa desconsideração, que deriva da desatenção ao cerne do argumento gorgiano. Esse erro de desatenção ao menos é o mais comum nas interpretações que, a favor ou contra eles, seguem Platão e Aristóteles. Estes distorcem a letra do Elogio para fazer crer que taxar o lógos de "o mais poderoso déspota", como faz Gorgias, significa gabar-se como retórico, traçando o limite da linguagem na persuasão. Repetindo, a argumentação de Gorgias não se segue dessa forma, mas sim mostrando que Helena foi enganada pelo poder das palavras manipuladas persuasivamente por Páris, que esse poder é infalível de modo que ela não deve ser acusada de adultério, porém é um poder que só tem vigência sobre as pessoas inocentes, que o desconhecem, fiando-se nas palavras alheias sem antes apegar-se a seus próprios interesses, já precavidas como devem estar de que as palavras enganam - não só pela intenção do falante, mas pelo fato mesmo delas não serem as coisas, ao contrário do que fazem parecer. Como o retor era na Grécia o que hoje são os advogados, vemos que Gorgias não pensava na função da retórica como o conhecimento necessário à ocupação em termos apenas do poder persuasivo, mas também do contrário, o saber desfazer a fantasia perniciosa causada pelo uso malevolente da linguagem no espírito dos receptores. O que está em causa no Fedro como Jaeger soube ver, é a ocupação do retor como escritor, por exemplo como advogado, uma vez que em Atenas, inversamente ao costume atual, ele atuava como "logôgrafo", escritor do discurso que o réu ou o acusador deveria apresentar no tribunal, enquanto hoje o advogado representa pessoalmente o litigante. A logografia se tornara algo importante na comunidade receptora, enquanto já vimos como o significado mesmo da profissão do retor, o "sofista" professor de retórica, levantava certa polêmica por estar democratizando o saber antes restrito à educação no seio da família nobre. Assim o pivô do Diálogo, conforme Jaeger, endereçados como são os Diálogos platônicos aos simpatizantes da aristocracia, é a solicitação de Fedro a Sócrates emitir sua opinião sobre ocupar-se com a escrita, como com a "logografia", sendo Lisias afamado nesse mister. É uma profissão louvável? Ora, sejam as forem as fontes citadas por Derrida para afirmar que do mesmo modo que Platão seus criticados retores condenavam a escrita, na verdade apenas falam de circunstâncias em que a escrita não seria oportuna – de fato não o poderíamos crer se o interlocutor fosse analfabeto, mas isso não significa condenar a escrita por si. A trama do Diálogo mesmo não o comprova. Fedro está solicitando a Sócrates uma opinião, bem concretamente, sobre um escrito de Lísias, o retor e escritor mais afamado da Cidade, e este é uma espécie de carta sedutora a um jovem, por parte de um homem experiente, que tenta convencer o rapaz a conceder-lhe os favores amorosos por um estratagema espirituoso. O homem declara que não está apaixonado pelo jovem, mas que por isso mesmo está em condições de manter a sobriedade necessária para cuidar do futuro dele, não manchar sua reputação com escândalos públicos de demonstração passional, e manter a convivência com ele mesmo quando já não estiver nessa idade atrativa à paixão tempestuosa, tudo o que segundo o homem, os apaixonados não costumam fazer. Ou seja, Derrida se ocupa todo o tempo do Fedro, sem se lembrar que ele prova o contrário da asserção da universalidade da condenação da escrita na Grécia, sendo exatamente por meio da escrita que Lísias esperava seduzir mais eficazmente o público, com seu engraçado paradoxo do amante não apaixonado. A escrita aí cumpre realmente uma função de auto-promoção e propaganda de si evidentemente literária, uma vez que só por meio dela o público pode ser colocado na posição do voyeur, assistindo um ato de espirituosa sedução junto ao jovem que o amante que se diz não apaixonado está cortejando, numa autêntica redução ao absurdo, já que tudo o que ele prova é apenas que ama o rapaz, ou, tratando-se de peça literária, uma autêntica figura de ironia. Ora, a ironia era, como se sabe, a especialidade de Sócrates. A situação assim provocada pelo brilhantismo de Lísias nos meios socráticos devia parecer de fato premente, e se Platão se utiliza do Diálogo para uma lição de estilo "classicista", de clareza e distinção, o recurso de Sócrates não podia ser se colocar como melhor logôgrafo ou retor. Consistiu em criticar a espirituosidade por um lado, como pecado contra a religião, para apontar Isócrates, por outro lado, como um jovem que prometia vir a ser melhor retor que Lísias. A lição de Platão concentra-se na obrigação de começar um texto pela definição da coisa, e realmente Isócrates pensava em termos de definição, ainda que reduzisse a ideia ao significado lexical. O sentido do Fedro, inversamente, é juntar as duas coisas, a religião e a definição, numa só visão de mundo.

3 Contudo, apesar de ter-se utilizado de meios falhos, o que Derrida pretende é mostrar que a escritura na ideologia, antes da atualidade que a desvenda, foi sempre "suplementar", assim como se considera a matéria frente ao espírito, a técnica frente ao saber, o devir frente ao ser, o sexo frente ao amor, etc. Quando a categoria do "suplemento" na verdade não é demonstrável, reduzindo-se a mero idealismo, contradição de um pensamento que põe como conceito aquilo que de fato não é pensável - como pensar o "suplemento", o que não é, o que só é enquanto avesso do ser? Aparentemente o Elogio de Helena mantém a ideologia da verdade independente da linguagem, assim independente dos erros de leitura, o argumento de Derrida acerca da generalidade de mentalidade grega se manteria. Mas de fato não compreenderíamos a oposição da metafísica à sofística, se não por isso que nesta o problema do sentido é mais complicado do que apenas saber como discerni-lo dos termos, reconstituir o contexto intencional. O retor ensinava que a linguagem era, sim, o meio de sentido, e o Sócrates platônico se esmera em distorcer essa tese de modo a fazer parecer que o sofista dizia que sabendo-se como reproduzir retoricamente um gênero de discurso científico, estava-se ao mesmo tempo reproduzindo a proficiência nele, o que é mera lorota, engano completo. Quando na verdade o que poderia estar sendo colocado na sofística é que, como hoje a escola ensina, é só por uma boa compreensão da língua que se tem a possibilidade de aprender ciências que evidentemente não se limitam à gramática. A retórica antes da metafísica encerrava a compreensão de que nosso pensamento é organizado como linguagem, está numa relação constitutiva com ela, não obstante isso não significar que não podemos situar a diferença entre uma asserção de que faz sol quando faz ou de que faz sol quando não faz. Em todo caso, é só na linguagem que se faz a atribuição de falso e verdadeiro. Ou ao menos assim pode ser interpretada a retórica ante-metafísica, a partir das fontes, isto é, como uma reflexão continuada acerca da espessura pragmática que cerca o limite sintático-semântico da língua. Derrida não o interpreta assim, e veremos que de fato essa espessura é o que ele vem a problematizar. Supondo porém que ela é do mesmo modo platônica, eis o que se torna questionável, especialmente quando se trata da questão da verdade. Por ora, resta observar que a comunidade de sentido opositivo que rege a economia da Parole na Grécia pensante, segundo Derrida, se não tem singularidade relativamente a idealismo e empirismo, platônicos e sofistas, também não tem relativamente ao senso comum antigo, grego ou não. É o princípio religioso dos politeísmos, asiático, egípcio ou helênico, que Platão encenará prodigiosamente no seu mito criado, no Fedro, acerca de Thoth como deus secundário no panteão egípcio, deus dessa escrita proscrita pela centralidade do pai dos deuses (271, 275 a).

1 A partir dessa base da mentalidade politeísta antiga, pode-se considerar a diferença dos regimes da proscrição. Ao ver de Derrida, que não considera o aspecto crítico do "Elogio", pelo qual Gorgias está opondo à sedução do logos esse remédio eficaz que é a reflexão pragmática da intenção real do discurso, Gorgias condena a escrita apenas por ser ineficaz, naquilo que é a função do lógos e pelo que ele é pensado conforme a tradução por parole, apenas fala. Platão condena-a por ser essa função malevolente, pura aparência de sentido, reservando à parole uma função própria e distinta, de ser a expressão ou parentesco da verdade.

2 Se em Gorgias a parole é boa ou má não seria sensato conceber que para Platão ela é somente boa, ao contrário da escrita. Para Derrida, não é isso que importa na diferenciação dos regimes no seio da igualdade da oposição, mas sim que a circunscrição do logos na economia da parole subentende algo mais do que essa tradução reservada. Subentende uma relação analógica entre os pares logos/alma, escrita/corpo, tal que a alma subordina logicamente o corpo. A redundância funda a preminência lógica do lógos. A palavra viva, a parole ou fala, é imaterial, anímica, mas assim ela é viva, sempre viva posto que o contrário absoluto de tudo o que é inerte, a letra, a matéria, é o alógico, sem logos, não importado que seja "discurso".

3 Valendo-se das citações de Platão que ecoam a metáfora mítica do Fedro, onde a invenção da escrita é defendida por seu pai, Thoth, perante o próprio pai, Amon, como um "remédio contra o esquecimento", porém escarnecida pelo representante do pai, Thamuz, como um "veneno contra a memória", ambos os termos, veneno e remédio, recobertos pela palavra única, droga ou pharmakon, assim Derrida conclui: O nome da relação analógica "é o mesmo de um dos termos. O pharmakon está compreendido na estrutura do logos. Esta compreensão é uma dominação e uma decisão".

4 Uma vez que a decisão extrapola a unilateralidade do idealismo platônico, Derrida assim o situa: "cadeia de significações" cujo "jogo" nos "parece sistemático" e que não se subsume "simplesmente" àquele "das intenções do autor conhecido sob o nome de Platão", pois o "querer-dizer" não é sistêmico, mas inversamente a ele "comunicações regradas se estabelecem, graças ao jogo da língua, entre diversas funções da palavra, nela, entre diversos segmentos ou regiões da cultura" (p. 43)

5 As oposições entre inconsciente e consciente, fala e língua, involuntário e voluntário, deverão ser suspensas, pois não permitem apreender o que se passa entre o jogo do sentido e o texto desse alguém, Platão, no qual ele se joga. Em Vernant, que Derrida cita em nota neste mesmo capítulo, a análise do mito das raças em Hesíodo segue o mesmo princípio. A análise depende do "fato" do mito "refletir um sistema classificatório com valor geral" ("Mito e Pensamento entre os Gregos", Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1990, p. 54, 55), que assim pode revestir-se de significações múltiplas. Se Hesíodo introduz um elemento novo do ponto de vista do conteúdo, a oposição de justiça e injustiça, antes desconhecida dos textos gregos, não a explica a estrutura, mas a história, de que porém Vernant se exime de fazer.

6 Apenas a estrutura explica a inteligibilidade do mito, a posição significativa das raças. Ora, a estrutura coloca na analítica de Vernant a oposição de funções sociais como um dado que é portanto independente da história. A contrario da inconsistente segmentação das raças num continuum sucessivo, que perpetua o problema da interpretação porque não se sabe bem como situar a raça dos heróis, três patamares que regulam o ciclo das idades: ouro e prata, bronze e heróis, ferro. Respectivamente: jovem, adulto e senil (p. 51). A estes três patamares correspondem as três funções sociais: a soberania do rei cuja função é religiosa e jurídica; os guerreiros como função militar; e os agricultores (p. 54).

7 A tensão entre justiça e injustiça se introduz como diferença entre os patamares, porém de modo que se as idades assinalam a preminência de cada uma, opondo o tempo de ouro da justiça ao tempo de ferro da índole injusta, com a gradação entre ambas, o mal não se introduz na correspondência das funções, na leitura de Vernant. Ora, como podem as funções sociais em suas relações recíprocas, sejam igualitárias ou hierárquicas, não serem a matéria histórica, assim como o estofo da tessitura política que se expressa na forma do que se está estudando? Para Vernant, assim como para Derrida, eis o que se deve abstrair para tratar daquilo que definem ambos como as regras do discurso, que seriam tão universais a um plano preestabelecido de pura inteligibilidade como o plano mesmo em sua realidade efetiva, situada.

8 Assim em Derrida trata-se do plano da linguagem na mentalidade antiga, onde o Logos se delimita por oposição à matéria que ele ordena, e em Vernant, "o sistema de tripartição funcional" das classes sociais fundamental ao pensamento religioso indo-europeu documentado em Dumézil (p. 54). Em Derrida, se o sistema opositivo fala/escrita redobra o da alma/corpo, não se trata menos de um universal nem de um fundamento religioso, de que a sofística seria do mesmo modo dependente. Em Vernant a oposição justiça/injustiça é um elemento novo introduzido por Hesíodo a reger a posição dos três fatores seriados das classes sociais, mas esse elemento novo apenas serve para melhor estabelecê-las nessa posição. Apenas o mal já não sendo introduzido na série das idades que figuram raças sucessivas, simbolizando as classes sociais, pela correspondência à classe pior, mas pela função intermediária, da guerra. Em todo caso, a redundância do plano de enunciação e da efetividade funcional social livre de diferença ou conflito internos é o fundamento discursivo-analítico.

9 Mas quanto a Vernant, vemos que a interpretação mesma das funções coloca o problema histórico da função do juízo, que uma interpretação mais coerente de Hesíodo já não permitiria identificar como da realeza, ao contrário do que precede Vernant. Testemunhos historiadores compreendem o período de produção mais provável de Hesíodo, entre os séculos VIII e VII ac., como de regulação de tribunais em que juízes eleitos tinham já essa função, mesmo que conforme alguns ainda procedessem da nobreza. Em Derrida, o mistério da ambivalência do Logos vivo na sofística, entre Bem e Mal, não assinala a oposição de humano e divino que a singulariza na razão inversa do platonismo. Enquanto na sofística o logos e sua sedução calculada procede num nível puramente humano, não obstante o logos ele mesmo não pertencer a esse nível mas àquele de um instrumento puramente técnico ao seu serviço, em Platão o logos procede do divino se ele guarda a relação com a verdade inerente à alma. Como vimos, o fato da escrita não seduzir pragmaticamente não significa necessariamente uma condenação dela na sofística, pelo contrário. Aí podemos situar a luta pela escrita das leis, que foi inerente à guerra civil como uma providência contra as prerrogativas de saber da aristocracia. Bem inversamente a Derrida, em "A Escrita de Orfeu" Detienne enfatiza a importância da escrita: "As vilas gregas, as comunidades minúsculas que se chamam cidades, pólis, põem-se a escrever, e muito ativamente, entre 659 e 450 a.c. E não importa o que, não importa como: as leis, as regras da vida comunitária, os assuntos da cidade, gravados sobre pedra, sobre um suporte de mármore, uma superfície inteiramente limpa para deixar ler, em letras às vezes com cinco a seis centímetros, realçadas por cores. O Estado de direito começa aqui com uma escrita ordenando o espaço da publicidade".

10 Esse belo frontispício da escrita na Polis, que o livro de Detienne apresenta na orelha, está muito mais ajustado à informação histórica. Aí porém o progresso da escrita na Polis é contrastado ao que seriam os "graffitti sobre vasos" ou as "minúsculas plaquetas de argila crua dos escribas enclausurados na Casa das Plaquetas da Mesopotâmia". Ora, a informação que temos atualmente sobre o Sumer, que tem sido interpretada democrática ou parlamentar, a primeira Cidade Estado e a primeira escrita do mundo, reza que "A arte de escrever era intensamente ensinada" existindo um "sistema escolar frequentado por milhares de escribas" da qual derivou enorme atividade literária. E uma justiça organizada conforme um pioneiro conceito de Direito, segundo Kramer impregnando "a vida social e econômica sumeriana tanto na teoria como na prática", conforme citado em Giordani ( "História da Antiguidade Oriental" Petrópolis-RJ, Vozes, 1985, p. 122-140). Ao contrário do rigorismo de Dracon, o primeiro formulador de um código escrito legal grego em 621 a.c, cuja severidade violenta é proverbial, o direito sumeriano era bastante humanitário, por exemplo concedendo à mulher independência em relação ao marido, e reservando ao adultério perdão se o marido assim o quisesse, enquanto na Grécia a punição nesse caso abrangia castigo físico de introdução de um rabanete no ânus. Em caso de divórcio, a lei do Sumer só concedia dependendo da decisão legal, sendo o caso prescrevia que o marido tinha que restituir à esposa uma indenização pecuniária. Substituía também a noção de "dente por dente", a retribuição na forma da vingança, pela prescrição de indenizações legais, tendo sido a fonte do famoso código de Hamurabi caldeu. Mas, quanto à Grécia, vemos que em todo caso as leis escritas foram algo decisivo na crescente sublevação contra a aristocracia, enquanto o direito sumeriano foi obra da realeza, não obstante essa instituição do governo lá não ser comumente interpretada como monarquia imperial, como vimos.

11 O rei sumo-sacerdote é justamente o que torna a instituição relativizada porque assim ele não concentra todo o poder político. O referencial político é um conjunto de cargos que não se sabe bem se eram como uma democracia ou um parlamentarismo comportando a função do monarca que não toma decisões sozinho mas conforme esses seus eleitores, quer fossem nobres, ministros ou deputados. Esses cargos eram associados a funções religiosas e mulheres puderam ocupar altas posições, como Enehunduana, a primeira historiadora. Ela registrou por escrito o seu conflito político com um chefe de partido contrário à sua opção pela fusão de deidades para conciliar-se com as levas invasoras do Akad imperialista bárbaro, subversivo do regime provisional palaciano sumeriano que distribuía bens conforme o recebimento dos impostos – o Akad porém não parece ter conseguido dominar o Sul do país.

12 Na atualidade a decifração do sumeriano isento da modificação akadiana implica uma enorme mudança na compreensão antropológica. Infirma o “modo de produção asiático” do marxismo, um sistema escravista despótico imperialista antigo que teria no faraó egípcio seu modelo universal. Também infirma o esquema tripartite progressivo generalizado, de tribo selvagem, império bárbaro imperial e civilização política, pois um sistema político palaciano democrático ou parlamentar é que se torna o primeiro urbanismo da história Estudei esse sistema e as consequências dos conhecimentos dos sumeriólogos atuais em meu já citado “Filosofia, Ceticismo, Religião…” utilizando-me de Guendolyn Leick (“Mesopotâmea”). Referencio o meu livro como estudo do mito sumeriano, que revela pois uma forma mentis coerente à democracia, o que está sendo muito necessário hoje conhecer. Também o referencio porque, livro de entusiasmo e ardor da descoberta, mas com algum traço do momento nietzschiano anterior, ali não concedo ao tratamento de Hesíodo por Vernant o espaço necessário. Se minha ligeira referência a propósito pode ter contido alguma precipitação, não ocorre que o sentido geral da intenção de Vernant não seja a que me pareceu, manter a Grécia numa unidade aristocrática estrutural da mentalidade.

13 Ao contrário dos conhecimentos atuais, J. P. Faye (“A Razão Narrativa”), que julgou absurdamente a anti-metafísica heideggeriana mera exigência do partido nazista, de onde teria derivado todo “desconstrucionismo” inclusive o de Derrida, porém nessa linha não sendo o caso de Nietzsche, julgou a invasão akadiana a personificação da ação da história – porque teria internacionalizado a cultura sumeriana ainda que modificada, assim “hagada”, “comentário”, “narrativa” ou “escrita” em hebreu seria um nome derivado de Akad. A meu ver esse é um juízo não só sintomático de um radicalismo paradigmático já anacrônico, sem falar no despropósito da tese mesma, mas de fato juízo absurdo sobre a própria história. Pois como se pode observar, tal juízo apenas manteria um falso esquema antropológico do progresso linear na dependência de um poder despótico intermediário. Refutar tal fórmula, com base no verdadeiro referencial sumeriano ou ao menos na interpretação mais coerente dele, implica contudo uma pós-modernidade, já que 'todos os paradigmas do desenvolvimento da, e como a, “modernidade” são derivações interpretativas dela. Assim também com relação à Teoria do Inconsciente, que podemos porém não pretender abandonar mas sim reconceituar.

14 Como estamos constatando, na paradigmática da modernidade, o poder despótico intermediário é o referente do progresso tout court, e o Estado igualitário democrático alguma precária comunização dele, que porém não chega a uma autenticidade total. O que estamos observando aqui, é pois como as derivas estruturais e pós-estruturais da antropologia e da exegese da Grécia e filosofia Antigas, exemplificam a radicalização máxima a que pode chegar as interpretações cabíveis da fórmula tripartite de selvagens, bárbaros e civilizados. E como espero estar mostrando que essas interpretações não são necessárias a partir da informação histórica, vemos que elas não o são também na perspectiva estrutural mesma, se não há um salto antropológico do tribal ao legal apenas na forma do poder despótico ou aristocrático.

15 Em todo caso, colocar como Derrida, simetricamente ao inverso da sofística, a condenação da escrita no platonismo pelo fato de ser, sim, sedutora, só parece adequado ao texto platônico até certo ponto, visto que a concepção platônica do bem anímico não é de todo acética. A questão é a função da sedução, entre a escrita ou a fala persuasiva e a beleza real que desperta a paixão amorosa. Uma engana a alma, esta a coloca na pista da lembrança do mundo ideal do qual procede como sua pátria verdadeira, na qual, porém, situa-se conforme a hierarquia nobilitante encimada pelo rei sábio, em todo caso enquanto humana apenas uma seguidora do cortejo de algum deus. Em ambos, sofística e platonismo, a oposição é entre visões igualitária e hierárquica da existência, e a oposição se desdobra entre planos humano pragmático e divino idealizado do pensamento, mas na análise derridiana o que as fundamenta em termos de doutrinas expressas não se referencia, torna-se estritamente impensável.

16 O que assim constatamos, é a coexistência atual de duas histórias gregas. Nesse sentido a estrutura não se opõe metodologicamente à história na antropologia da Grécia Antiga, assim como apregoa, é ela mesma historiadora. Reconstitui uma Grécia da Antiguidade naquilo que seria a produtividade de sua essência, a linguagem, como condição de possibilidade senão dos seus fatos de história, de como eles foram o resultado de suas decisões de sentido. O que podemos nesse ponto indagar, na contrafacção das duas histórias, o que desdobra a omissão, numa delas, do que encontramos na outra.

17 Assim no esquema estrutural só há uma mentalidade, refuta-se a verdade da alternativa entre mentalidade aristocrática e jurídico-democrática, ainda que a variação incida sob o mesmo paradigma. Mas se o estudo histórico precisa ater-se à alternativa, vemos que se desdobra nele uma verdadeira cisão estrutural. Pois só se trata da "ordem hierárquica que preside permanentemente na organização da sociedade, tanto humana quando divina" (Vernant, op. cit. p. 67) numa das opções, a aristocrática. Quando as fases da história grega suplantam a primitiva acomodação agrária dos genos, as famílias nobres reinantes sobre o "povo", o "demos" silencioso, as duas fases que se sucedem, o jurídico e o democrático, produzem uma cultura de expressão igualitária, onde porém isso significa o respeito mútuo, a cisão do koinon (comum) e idion (individual) que implica a concepção pioneira de privacidade, o mínimo comum de qualquer democracia, antiga ou moderna. Bem inversamente, pois, ao princípio hierárquico provar-se generalizante do social, sendo só na sociedade igualitária que o logos e a filosofia fazem sua aparição como possibilidades de elocução pessoal da visão de mundo. Efetivamente muito já se reprovou ao platonismo por isso que sua ojeriza da democracia abstrai o fato de que só numa democracia se poderia produzir uma obra de oposição intelectual ao estado de coisas, como a dele.

18 Na confecção estrutural metodologicamente anti-histórica, conforme se pretende, Hesíodo e a sofística, como atribuições respectivas da justiça e da cidadania, são óbices. Eles pronunciam claramente a palavra igualitária. Vimos que Derrida enfrenta a questão quanto à sofística, enquanto Vernant e Detienne dela se ocupam quanto a Hesíodo.

19 Quando em parceria com Giulia Sissa, em "Os Deuses Gregos" (São Paulo, Cia. das Letras, 1990, col. Vida Cotidiana), Detienne logrou, pelo engenhoso recurso da evitação enunciada, afastar o problema Hesíodo opondo simplesmente os filósofos de severa moralidade à Cidade que viceja na prática do seu calendário festivo, onde se faz efetiva a crença religiosa, na Grécia valendo imperativos que não eram avessos ao desfrute como o mais conveniente à vida exemplar dos deuses. Aqui a filosofia abrange porém essa fonte poética da religião que é Hesíodo, vemos o contraste entre o livro citado e "Os Mestres da Verdade", onde Detienne se utiliza de Hesíodo apenas como um eco de Homero na demonstração dos costumes arcaicos. Mas em Os Deuses Gregos, se não importa a diferença do poeta e do filósofo, é que Hesíodo, assim como Aristóteles, pensa o tempo dos deuses como um presente eterno irredutível ao dos homens. E a proximidade a essa decadência, o ascetismo censório do prazer que será o cristianismo, é progressiva – ou regressiva quanto à plenitude do tempo originário. Hesíodo ainda pensa um tempo eterno dos deuses como repleção do prazer, sempre deliciado pelo canto das musas que afastam toda dificuldade da alma – assim também quando se trata dos homens, mas nesse caso o prazer é momento, enquanto o Olimpo é isento de variação. Já Aristóteles coloca o prazer na pura autognose do motor imóvel, e quanto ao prazer que tem um objeto, dele zomba mesmo se atribuído aos olímpicos pelos mitógrafos. (p. 36, 37)

20 Mas o prazer já é, em Hesíodo, reservado aos deuses como um tempo eterno, isento de história. Portanto Hesíodo e tudo o que se segue após ele não é homérico. Se um estudo sobre os deuses gregos cabe numa coleção intitulada “vida cotidiana”, é porque existe Homero, aquele que “faz entrever a vida material dos olímpicos. Assim, só não é insensato escrever hoje uma Vida cotidiana dos deuses gregos porque foi Homero que tornou isso plausível”. (p. 32) O tempo olímpico da História, “sequência de acontecimentos; densidade cultural, isto é, conjunto de informações sobre um sistema de vida”, é pois exclusivamente homérico, e homérico é o tempo como esse sistema de vida, o tempo enquanto vivido.

21 Como coloquei em meu citado livro, quando o desfrute do prazer mundano extrapola a anulação da temporalidade cotidiana do divino, bifurcam-se os destinos da Cidade e dos filósofos. A Cidade, que permanecerá estranha a essa extrapolação, uma religião do prazer como emulação participante no calendário festivo que reproduz, com oferendas e celebrações extáticas, o acontecimento que os deuses vivem na bem-aventurança eterna, mas evenemencialmente movimentada. Inversamente, o mitógrafo filósofo introduzirá, o temor da injustiça como a regra do tempo vivido, reservado aos homens. Mas indagam os citados autores: “Quem dentre os gregos daria razão a Hesíodo, imaginando para os ‘reis de sentenças tortas’ que, sobre a gleba que alimenta, trinta mil, incontáveis Imortais ‘vigiam as sentenças dos mortais, suas obras perversas, vestidos de bruma, indo e vindo (phoitân) pela terra inteira?” As cidades vivem isentas desse temor dos deuses, vivem na participação do prazer que é deles, e o prazer é o desfrute de bebida, comida e sexo. A religião grega é uma prática. Ela não resulta numa consciência. O contrário decorre na letra da mitografia que já perpassa na época da filosofia.

22 Assim como Snell atribuirá a Calímaco, em Sissa e Detienne Homero inicia a linhagem europeia do romance burguês, aquele que é encenado, os acontecimentos se processando num entorno povoado pela indústria e tudo que se endereça à consumação. Enquanto Snell pensa a burguesia helenística como a renúncia alexandrino-calimaquiana a toda grandiosidade ou drama, restrita à alusão elegante e à perspectiva engraçada. “Uma oferenda votiva deve ser, quando possível, gorda, já a poesia há que ser delicada e fina”. Esse conselho do próprio deus Apolo é o que Calímaco reporta ter-lhe sido dado como retor da arte. Ele é um poeta pós-filosófico e quer ter arte e sapiência, teckné e sophia, julgados apenas pela arte, “não pelo metro persa”. . Porém não um poeta que não reponha o que é genuíno grego e plenamente revelado não tanto na tragédia, mas em Homero. A naturalidade e simplicidade são os valores definitivos, comuns a deuses e homens: “os deuses guiam o curso dos acontecimentos terrenos sem provocar no homem confusão ou medo, sem obrigá-lo a ajoelhar-se diante de sua esmagadora potência. Os homens contemplam com límpido olhar esse mundo rico de sentido, no qual vale a pena estar desperto, usar o senso e a inteligência. Nos poemas homéricos, estabelece-se aquela concepção da naturalidade do mundo que é grega, ou melhor, europeia. O que falta nos chamados povos primitivos é exatamente essa ‘naturalidade’; e o erro de Rousseau é querer encontrá-la neles”. (op. cit. p. 125)

23 Na dramaturgia o mito homérico sobe ao palco, mas com um fator de complexidade que não havia antes, porque agora o homem é responsável pelas próprias decisões. Ao que parece é a decalagem que a autoconsciência opera entre causa e consequência o elemento trágico que repugna a Calímaco, e que ele transforma em jocosidade. (p. 272 e ss.) Assim também Snell reporta sobre o “Y”, imagem pitagórica do bívio, símbolo do caminho que conduz em algum lugar a uma bifurcação. A imagem é a escolha necessária entre o bem e o mal. (p. 255) Em seu estudo sobre Calímaco porém (p. 277 e ss.), Snell esclarece que essa imagem deriva no fundo das concepções hesiódicas em Os Trabalhos e os Dias, reelaboradas por Pródico em sua fábula de Héracles. Calímaco a reutiliza, do mesmo modo conservando a lição, que depois se conserva cristã, sobre ser larga a via do vício, kakia; e estreita a senda da virtude, aretê. Mas em Calímaco a escolha da aretê não tem um sentido que transcenda a si mesmo. Ele não prefere a grandiosidade tonitroante de Ésquilo, mas a elegância e finura de Eurípides, ao contrário de Aristófanes, porque nele não há traço de consideração ética a propósito do sentido da poesia, e é assim que podemos entender a injunção de ser julgado somente pelo critério poético. (p. 276, 277)

24 O que Hesíodo introduz ao ver de Snell é a noção da ordem do mundo previamente planejada na totalidade por Zeus, enquanto em Homero a ordem não era preparada conscientemente. Mas na poesia de Hesíodo estão importados fatores de monstruosidade típicos de estórias de horror, seja do Oriente via Ásia Menor ou conservação na Beócia de resíduos de crenças primitivas que os gregos fizeram bem em cedo se livrarem. Não obstante o mundo de Hesíodo ser “imensamente mais racional do que o de Homero”, por que agora surgem distinções entre os mundos dos deuses e dos homens, como da bem-aventurança e da contingência, entre aparência e realidade. (p. 50 e ss.)

25 Esse aspecto da interpretação de Snell é criticado em Os Deuses Gregos. Os autores o mencionam de um modo que ecoa a referência das palavras de Atená a Aquiles, como acima vimos o que Snell considera exemplar das formas sociais que os deuses homéricos presentificam. Na versão de Sissa e Detienne, o colóquio exortativo de Aquiles e Atená apenas põe em questão o modo pelo qual se exerce na religião grega a ascendência dos deuses sobre os homens: “O poder tranquilizante de Atená sobre Aquiles provoca imediatamente um debate essencial. Como os deuses agem sobre os homens, de que maneira chegam a orientar sua conduta?” (p. 111). Ao contrário do respeito mútuo sublinhado por Snell, para eles os deuses não tem respeito pela subjetividade humana. Por sonhos, pela influência do conselho, do convite ou da ordem, mas também como no caso de Páris, pela barganha, almejam manipular o homem conforme seus próprios desejos e objetivos.

26 Para Sissa e Detienne a reserva pré-egológica que Snell atribui ao homem homérico seria apenas a posição paranoica do corpo dividido, o indivíduo sentindo-se campo do antagonismo de forças que, como por um espaço vazio, competem pela “determinação de atos e discursos que não poderíamos considerar como ‘seus’” (p. 114, 117) Ao ver deles a anulação da autoconsciência é um estado causado por uma dupla soberania sobre si, a das paixões e a dos deuses. Enquanto ao menos no trecho que estudamos, para Snell o homem homérico não atribui a si paixões que não sejam já proveniência não humana, visto que qualquer elemento dotado de sentido na natureza é um deus ou a esfera de influência do deus. Nesse sentido, é um pensável ideado, uma perfeita forma eterna. Não há na natureza nada obscuro, irracional no sentido de incompreensível quanto à origem.

27 Bem inversamente, sobretudo o trecho de Atena e Aquiles Sissa e Detienne não consideram “exemplar”. Aqueles que conhecem o texto de Snell compreendem que para estes autores, ele teria se deixado identificar com a intenção retórica de Homero. Pois se a intervenção de Atená faz perceber uma cisão do que é humano, como desejo imoderado e imperioso à feição da ira, e o que pertence aos deuses como a pedagogia e a razão, “tudo isso é exato, mas nem todos os deuses representam o papel desempenhado por Atena, num momento muito preciso da guerra.” Bem inversamente, “essa sequência não é absolutamente emblemática, é singular e enganadora.”

28 Singular, pois apenas uma entre situações muito variadas reportáveis do encontro de homem e deus. Enganadora na posição de exemplo, pois ao contrário, “os deuses não agem sempre da mesma forma.” Não agem da mesma forma em relação ao outro, pois uns e outros tem estilos e modos de ação que não são iguais, e mesmo apesar do estilo, “um deus nem sempre é necessariamente igual a ele mesmo… pois, como os homens… os deuses tem humores como lágrimas, risos, bile negra, cólera ou pesar, desejo e alegria, ereções…

29 Também desenvolvem longamente os autores observações sobre o comportamento não confiável, dúbio, cheio de estratagemas de engano mútuo, seja entre deuses, seja entre deuses e homens, na conflagração de gregos e troianos, quando as duas partes eram do mesmo modo reverentes aos mesmos deuses. O aspecto literário da trama é ressaltado de um modo bem oposto ao que Snell sublinha como a fixação bem homérica da forma estável no plano microestrutural da coesão construído com base na comparação e no símile. Em “Os deuses gregos” trata-se de focalizar a trama, o plano macroestrutural da coerência, assim o jogo de contrários que servem porém sem saber ao mesmo desígnio do mais forte, Zeus. Para punir aquele que enraiveceu Aquiles, o filho da bem-aventurada Tétis, manda um sonho enganador a Agamenon, que o faria marchar contra os troianos sem saber situado numa condição de inferioridade total. Mas Agamenon, ao contrário, com intenção de burla ou de desafio aos próprios capitães de guerra, não obstante convencido de que Zeus o favorecia, inverte a mensagem, ordenando a retirada como se fosse o que Zeus lhe revelara melhor. Assim teria acabado a guerra com a deserção dos gregos se Hera, que ao contrário do marido - ao menos nessa altura em que tudo se concentra na cólera do filho de Tétis - protege os gregos. Ela intervem e faz com que os gregos retrocedam da fuga, voltando ao campo de batalha. Assim portanto, pensando atuar contra as ordens do marido, apenas faz o que ele queria, mas também Zeus não favorecerá os troianos por muito tempo. Não olvidará o compromisso com os gregos.

30 Zeus reina, ninguém o desobedece, de um modo ou de outro. Ele é o senhor do raio, o pai, o Deus maior, o Poder encarnado. Não é essa mesma conclusão a que Snell induziria a crer? Ora, o contraste das perspectivas de Snell e Sissa-Detienne parece apenas convir a dois modos de considerar o mesmo deus olímpico. Snell o considera pelo aspecto de ser uma função natural: Zeus, a soberania; Hera, o himeneu, etc. Aliás o que ele sublinha é o modo como Homero constrói o deus-personagem, tornando-os naturalmente presentes ao espírito do leitor, ora por atribuições bem compreensíveis e simples, “os deuses grandes e belos”, ora por epítetos que singularizam o semblante, “Hera de olhos bovinos”. Já Sissa e Detienne os vêem em pleno curso de acontecimentos bem humano-mundanos, envolvidos profunda e passionalmente na guerra de Troia. O mundanismo de homens e deuses, por um lado, dos dois misturados, por outro. Assim interpretam de modo um tanto enviesado certas idas e vindas que porpém apenas refletem uma linha de conduta coerente com a natureza do deus: Hera, contra o adultério; Afrodite, defendendo a paixão; Tétis, atendendo às súplicas do filho; Zeus, em seu papel de pai dos olímpicos, tendo que manter a prerrogativa deles contra o ultraje ou a menor transgressão.

31 Mas de fato os dois autores querem, mais que isso, mostrar que um mesmo deus não tem na concepção homérica aque atributo claro, simples, uma função totalmente determinada, que vimos Snell demarcar insistentemente. Afrodite é por exemplo a deusa cuja esfera funcional é o “doce desejo” que ao bel prazer dela, para o bem ou para o mal conforme as circunstâncias e os interesses, alucina até Zeus, o pai dos deuses e dos homens, a encarnação da sabedoria e da razão. Mas o casamento, que é um dos componentes do “doce desejo” não a personifica. Há “Himeneu”, a união conjugal personificada, há “Hera” que zela pela fidelidade e pela união dos esposos.

Em geral Afrodite, que tem poder sobre o desejo, não se identifica com a conjugalidade nem com o próprio desejo “que é uma coisa em si, autônoma”. Se Hera quer seduzir Zeus para o fazer adormecer e assim deixar os troianos à própria sorte, pede a Afrodite um cinto, uma fita, que contem a sedução, o desejo. A fita é um objeto independente. Afrodite não suspeita que milita contra os próprios troianos.

32 Zeus vinga-se, pois, dela se gabar de “emaranhar as fronteiras do cosmos”, na expressão de Ann Bergren citada por Sissa e Detienne, misturando como quer deuses e mulheres, mais poderosa que Zeus, o pai. Os seus amores com Ares a tornam objeto do riso de todos os deuses (p. 53). Pois surpreende-se o par adúltero numa rede, mas não recordam aqui os autores que já o casamento de Afrodite com Hefestos, o ferreiro divino, filho rejeitado de Hera por ser coxo, foi obrigado pelo pai dos deuses. Filho partenogenético, mais uma subversão da esposa contra as infidelidades do marido – na letra de Sissa-Detienne, provocadas todas pela ação de Afrodite - de que tantos deuses são o fruto. Esse filho, em todo caso, vai se vingar da mãe fazendo-a sentar num trono presenteado ao seu gosto mais íntimo, porém assim que ela se senta, deliciada, não sai mais da cadeira, está presa e bem presa e ninguém consegue tirá-la dali até que Hefesto revela a um deus bem versado em persuasão retórica o seu desejo, único meio dele libertar a mãe do trono cadeado. Então Afrodite, a mais bela, é obrigada a se casar com Hefesto, o mais feio.

33 Mas não podemos ver nesses contos, mais a Snell, um meio de aliciamento moral, um “educar deleitando” como na pedagogia horaciana? Sim, mas os deuses seriam eles mesmos passíveis de exemplarizar a desmedida? Horácio ou Platão? Este que censura Homero, expulsa os poetas mitógrafos, aplicando as leis do reino socrático-teocrático, consoante a redução metafísica do deus à Razão – ao menos até o ponto em que esta não se opõe frontalmente à mania, a loucura que se define possessão pelo deus à exclusão de outras. E sobretudo a possessão erótica, a loucura efeito de Eros, que ao contrário do ascetismo ou do cálculo sofístico das conveniências, é o que santifica o amor, e a santificação aí tem o papel da sanção moral na Cidade platônica. Se Homero degenera, é porque ao ver de Sócrates platônico ele não une a ambos, a Loucura e o Logos. Não estariam Sissa e Detienne considerando Homero pelo viés platônico, somente a loucura, ainda que não para censurar?

33’ Seja como for que se prefira interpretar os gregos, entre Snell e Sissa-Detienne, há uma considerável irredutibilidade entre Os Deuses Gregos, c om seu modo de apresentar a religião grega arcaica e os atavismos em épocas posteriores como não-filosóficos essencialmente, e aquele que vimos Detienne mesmo arquitetar na lógica estrutural que liga Homero ao Platonismo, em “Os Mestres da Verdade”. Aqui, efeito de estrutura, a oposição verdade e esquecimento deriva do alinhamento de oposições que regulam o pensável: por um lado, o do esquecimento e da Ápate, tudo o que é obscuro, relativo à noite, ao erro, até a “persuasão”/mulher/palavra violenta; do lado da verdade tudo o que tem clareza, relativo ao dia, ao acerto, até a “peithó”/mulher/palavra branda. Se identificarmos Léthe, o esquecimento, com pseudós, a falsidade, a economia é a mesma mas já se está em plena Cidade, no mundo do pensamento racional como da filosofia. Mas lá, em os Deuses Gregos, fato de estória. Se os deuses gregos não são como os taoístas é porque o gênero de linguagem dos helenos é outro, a epopeia, a narrativa – e o problema Hesíodo pode ser empurrado para o lado dos filósofos, “triton genos”, terceiro gênero, que Derrida mostrou em Khôra não se tratar, apesar das aparências ou como a aparência ela mesma, de algo que escape totalmente à ordem do modelo, a binaridade, a não-contradição, aqui Derrida citando Vernant – a Khôra é a estrutura enunciada, bem inversamente a ser tradutível por matéria ela é a intradutibilidade por ser o Nome em si, o que instaura o lugar da modelação, onde a palavra em si escapa da narrativa indo ter domicílio exclusivamente no Logos (“Khôra”, São Paulo, Papirus, 1995). Em Sissa-Detienne os deuses gregos não agem apenas quando interrompem sua beatitude para ajudar os homens, como fazem os “Imortais” na China. Na Grécia estão sempre envolvidos em acontecimentos olímpicos, e os festins com que se ocupam desde o amanhecer até dormir são amiúde o ambiente onde as altercações, os ciúmes entre irmãos como Ares e Atená, e principalmente as querelas dos esposos, Zeus e Hera, eclodem. Mas o ambiente filosófico, já o vimos, faz problema a essa economia da continuidade na ruptura. Aqui seria o caso de indagar, por que será que tanto mais a imutabilidade do feudo se transforma no turbilhão da vida na Cidade, tanto menos se precisa de narrativa, e mais se faz filosofia – até que Platão, querendo restaurar o feudo, retorna com a narração? Teria a narrativa uma função progressiva no Inconsciente? O tao é causa de tudo, afirmam Detienne e Giulia Sissa, portanto na China taoísta não se precisava de narrativa, nem de agitação. Poderíamos ajuntar - nem de filosofia? Mas na China do criticismo taoísta anterior às derivas populares religiosas de mesmo nome sem muito a ver com ele, estava havendo do mesmo modo que na Grécia da Polis, um laissez faire decorrente da prosperidade da burguesia que logo depois chega a comerciar com Roma, na rota da seda. A inversão da trajetória criticista na unificação imperial é paralela a Leste aos acontecimentos a Oeste, entre o império Romano cristão e o feudalismo.

34 A meu ver, a oposição de causa e efeito não seria bem uma concepção taoísta de Lao e Chuang Tze, assim como tampouco nos críticos gregos da noção de causa registrados por Sexto Empírico, o cético que pelo contraste desses críticos com os defensores suspendem o juízo sobre se há ou não causa. Não obstante, como já observei, o aspecto da violência despótica como sadismo arcaico, sacrificial, é o que por igual se salienta tanto aí como em “Os Deuses Gregos” de parceria com. E o que pode demarcar o desacordo crucial estruturalista a Snell, é que neste os gregos são racialmente originais, enquanto Detienne e Vernant estarão mais interessados em apresentar essa originalidade como uma modulação genial do que é porém um entorno “antigo” generalizado.

34’ Aqui podemos lembrar o exemplo histórico da arte náutica. A influência fenícia favoreceu a reintrodução da escrita e os gregos copiaram também a sua arte náutica. No entanto os gregos logo inovaram inventando a trirreme (Corinto, séc. VIII), barco com três classes de remadores, e superaram progressivamente os fenícios no domínio marítimo e comercial derivando daí o contexto da expansão colonial. Resulta assim a incorporação ao território grego antigo da Magna Grécia (Sul da Itália e Sicília) e de outras colônias abrangendo desde Fasis, na região mais a Leste do Mar Negro até a costa da Ibéria (Espanha), incluindo Massília no Sul da Gália (França), cidade que fundou, na mesma região, Nikaia (Niza), Antipolis (Antibes) e Monekis (Mônaco). A cerâmica parece ter sido introduzida na Grécia por influência egípcia. Mas após um período inicial de cópia dos modelos do Egito a arte do mundo Egeu atinge uma excelência incomparável com vasilhas e ânforas representando seres marinhos mas também plantas e motivos estilizados, curvilínios, em cores vivas e brilhantes,particularmente amarelo, rosado, vermelho, cinza, laranja e branco, revestidas com verniz.

35 As pinturas murais do palácio de Knossos representam cenas da vida comum, de festas, caça, principalmente ao javali, cerimônias cultuais, com figuras sempre cheias de movimento e ação, animadas com naturalidade, sem a rigidez da arte egípcia que as havia inicialmente inspirado. As colunas do palácio têm linhas que se alargam na extremidade superior com capitéis sóbrios que lembram o estilo do capitel dórico. Atribui-se aos cretenses, a civilização pioneira do território grego do segundo milênio, que depois os aqueus micênicos conquistaram adaptando porém a cultura que aí encontraram, grande conhecimento de matemática e engenharia civil.

36 Mas tratar os gregos pelo que seria uma pista da estrutura da mentalidade antiga, e ao mesmo tempo grego sendo o que trouxe ao mundo contribuições únicas como a filosofia e a isonomia, como faz a escola estrutural, coloca a questão de ênfase – na originalidade ou na comunidade? Se em todo caso, conforme todos os seus intérpretes, a genialidade é o que convém só aos gregos, como vemos também para Snell a racionalidade é uma via dupla, assim como a narrativa e a estrutura para Sissa e Detienne.

37 Por um lado, Sócrates reproduz a verdade que pertenceu à aristocracia antiga, num mundo julgável amoral por essa perspectiva, mesmo que seja agora o mundo da democracia, conforme a leitura de “Os Mestres da Verdade”. Por outro lado ele integra o rol dos filósofos que pervertem, pela moralidade mesma, o sentido prático, inocente e gozoso da religião da Polis grega, em “Os Deuses Gregos”. Para Snell o que é menos alto na Grécia, mesmo a razão como apenas medida do bom senso, sempre seria atribuível à mistura com o estrangeiro. Mas a boa racionalidade grega, aquela que resultará na ciência empírica como em Alcméon mas também num Sócrates que apenas aprofunda a descoberta grega da humanidade, deriva de circunstâncias da religião poética genuinamente homérica: a simplicidade e naturalidade dos deuses; as características da letra poética, como uso frequente de comparações e metáforas que estabilizaram gradualmente no intelecto grego a noção da forma, como o que permanece igual entre os dois termos do símile ou analogia; e como também já notara Heidegger, o fato do verbo poder ser substantivado, que Snell explica a partir da existência do artigo definido.

38 A aristocracia arcaica permanece, pois, nessa paradigmática forma mentis interpretativa europeia, a mentalidade gerativa – assim como a Grécia, o berço da Europa. Os "outros" da Cidade, na Cidade, não a alteram. Sejam os cidadãos eles mesmos já individualizados, ou os dramaturgos mitógrafos que misturam elementos não originários. Assim não causa surpresa que num certo ponto Snell considere ser a própria Cidade que moraliza contra a tipicidade de si mesma. Se os juízos de Calímaco e Aristófanes são tão opostos quanto a Ésquilo e Eurípides, é porque em Calímaco a poesia já perdera a função social que tivera antes, quando a dramaturgia na Polis era um ritual comunitário. Enquanto Aristófanes deplora essa perda, Calímaco é um produto dela, e isso resulta numa poesia autotélica, mas assim como numa inocência das origens quando se trata da cultura grega.

39 Nem as mudanças de regime. Para demonstrar a tese da inalterabilidade da forma mentis originária na Grécia – porém ao contrário de Snell, como apenas by product do mundo Antigo - Vernant e Derrida enfrentam pois a questão Hesíodo, quando se trata do fato de história, o período pós-aristocrático grego, de um modo próprio, ainda que conservando o princípio.

40 Ao contrário da maioria dos intérpretes estruturais, Vernant vai fazer inclusão de Hesíodo na mentalidade aristocrática, ao contrário da posição censória, e Derrida, como vimos, eleva ao máximo o alcance desse gesto da audácia, incluindo os sofistas. Mas Vernant já havia resolvido a questão do lógos como irrupção de um mundo da cidadania igualitária, reservando à nascente filosofia, as seitas filosófico-religiosas à Pitátoras e em geral as confrarias de sábios, a função da estrita continuidade ao regime originário: "manifestam, em condições e meios diferentes, o mesmo movimento social de alargamento e de divulgação de uma tradição sagrada aristocrática". ("Mito e pensamento entre os gregos", op. cit. p. 461)

41 Utiliza ele aí a informação histórica. Como já observei, cita Thomson fazendo ver que Tales e Anaximandro são aparentados à alta nobreza sacerdotal fenícia (p. 462). Entre o rei-sacerdote da época homérica e o filósofo da Polis, as mudanças sociais apenas sancionam a cisão de natureza e sociedade, antes unidas. Mas assim a expressão consagrada para toda uma escola de estudos, a transformação do mito em razão, dota-se de um sentido ambíguo, não significa necessariamente o que parece, uma ruptura real, mas a continuidade – não obstante podermos também utilizar Detienne e Vernant para um modelo progressista do mito ao pensamento “racional”. Isso é algo compreensível, se neles como em Deleuze e Lacan as potências do falso e do equívoco não são menosprezadas. Ora porque são criadoras de mundos conforme o primeiro, ora porque é delas que surge a verdade. Mas não seria por isso que “Os Deuses Gregos” voltam atrás para surpreender o falso até na origem mítica, aquela que em “Os Mestres da Verdade”, como o título sugere, o desconhecia na razão inversa da conveniência?

43 Em Vernant a filosofia reinterpreta a função da soberania sagrada opondo o permanente como a posse da terra, ao devir como pura circulação monetária. Para Vernant, há, pois, uma estreita relação entre a base econômica e a superestrutura conceitual, porém ao contrário do progresso das relações de produção condicionar o mesmo nas relações de classe, ele apenas conserva o paradigma estrutural da hierarquia.

43 São as forças, fundamentos e princípios ocultos que animavam o conhecimento ritual e religioso do sagrado, o que a filosofia tem a missão de manter oposto ao comezinho, fugaz e incerto. A oposição central é a mesma arcaica, entre verdade e erro, como se a pluralidade da doxa pudesse ser ignorada num pensamento voltado à explicação da emergência do pensamento leigo.

44 Recentemente a doxa vem sendo até mesmo utilizada terminologicamente, como em Bourdieu, como sinônimo de ideologia, mas em função do que seria a unívoca expressão da cotidianeidade. A problemática sofística, que depois é recolhida na Escola Cética pirrônica, da impossibilidade da generalidade na atribuição devido ao caráter irredutível da experiência pessoal, deixa de ser pensada, assim como desde Aristóteles na Metafísica foi reduzida à oposição de normal e patológico. A irredutibilidade de visão é notável. Para sofistas e céticos, se o mel é doce mas também o açúcar, a doçura está em nós, nas nossas sensações mutáveis e variáveis, não pode ser predicada do objeto. Para Platão, inversamente, se o mel é doce assim como o açúcar, é porque eles participam objetivamente da mesma ideia ou forma da “doçura”. E se a mesma pessoa, doente sente o vinho amargo, sã o sente doce, o problema é a doença e não a objetividade – já os tropos da heterogeneidade de espécie e de cultura deixam simplesmente de ser replicados na metafísica. Só o grego é racional para Aristóteles – o escravo oriental não chega a tanto, pela languidez que o torna cativo do intrépido heleno, mostra não fazer uso das capacidades intelectivas. E esse grego, mais uma vez, não sendo todos mas alguns: os homens e proprietários de escravos.

45 As experiências laboratoriais da psicologia contemporânea confirmam o caráter irredutível da percepção própria – nem todos veem o mesmo numa apresentação repentina da coisa - como queriam os sofistas e céticos antigos. A oposição de erro e verdade já não conserva o papel principal quando se trata da interpretação do discurso, mas sim a compreensão até onde possível da particularidade inalienável da experiência e dos a prioris culturais do próprio discurso. Um aspecto muito ressaltado da transformação do romance no século XX foi justamente que a escrita derivava à experiência do escritor escrevendo, ao contrário de comunicação da generalidade, assim Barthes designava o escrever literário contemporâneo como um verbo intransitivo, a criação das categorias do livro que já não são pois simplesmente transpostas da realidade. Para Sissa e Detienne, porém, o prazer barthesiano do texto é aquele da cotidianeidade que Homero introduziu com seu peculiar mundo de deuses sempre envolvidos em peripécias.

46 Porém a análise sociológica da ideologia continua a pesquisar o caráter unívoco da dominação. Ela não percebe que as categorias de que se utiliza para estabelecer o que é o contrário da alienação também são históricas e assim móveis e plurais. Contudo aquilo que poderíamos estabelecer como a base, a concepção da privacidade, é o que a fonte mesma da problematização da ideologia não conserva, enquanto um horizonte ditatorial que dissolve a pessoa na categoria de classe. Se os próprios Marx e Engels assim quiseram ou não, aqui não seria oportuno esclarecer, mas sim que hoje mais do que nunca compreendemos a importância de superar a definição do conflito de classes no tratamento da dominação ideológica, para colocar a ênfase histórica na democracia como organização social visando as garantias da liberdade privada, algo que só se torna pensável a partir da atribuição igualitária dos direitos com base num critério de igualdade do fato mesmo da existência. Mas isso convive bem com a evidência antropológica de que as sociedades são geralmente extratificadas, pois haver singularização de grupos e condições não implica necessariamente que eles não tem igualdade de status político.

47 A garantia da privacidade é ao mesmo tempo o meio pelo qual se torna pensável a instância pública. Vemos pois que na origem, a filosofia é mudança nisso pelo que se destina ao público, não ao singular do acontecimento divinatório, iniciático. Nisso Vernant também convém (p. 482 e segs.), mas aqui a sofística é sutilmente esquecida. Ela é o que Platão colocou na ordem da circulação monetária, portanto não precisa ser explicada, como algo novo é filha da cidade assim como as invenções que demarcam a mudança do regime, o progresso técnico, matemático, econômico e político. Essas invenções ou aquisições explicam a mudança efetiva. A filosofia inova com elas, mas como a função da continuidade hierárquica que identifica a totalidade "grega".

48 Nesse desenvolvimento a sofística é escamoteada, obviamente - pois ela não é um dos fatos técnicos da mudança, e sim a transformação intelectual do mesmo modo que a filosofia. Incorporada a eles, deixa de preocupar. Em “Os Mestres da Verdade”, Detienne aprofunda esse recurso, apostando mais na oposição de sofística e filosofia, de modo que a venalidade desses homens da ocasião que proliferam na Polis como ambiente aventureiro de lucro e mobilidade social, se torna sublinhada. A antiga oposição verdade/esquecimento ao se tornar verdade/falsidade na filosofia é a conservação do valor do verdadeiro ainda que como contrário do valorizado como arte do engano nos sofistas e traficantes da cultura, assim como na ambiguidade explorada pela retórica dos tribunais. A conservação do valor exclusivamente divinatório do verdadeiro é feita ao contrário, pela limitação do trato humano ao âmbito do falso.

49 Quanto a Derrida, vemos que ele parece proceder, ao invés do contraste, uma inserção da sofística no jogo da permanência hierárquica como elemento da proveniência do Logos. A isso se destina, aliás, a admissão dos antecedentes não-gregos da filosofia nascente na Grécia. Se lá existe evidente descontinuidade do regime político, a interpretação estrutural não fará da cisão aristocracia-democracia um mesmo que Oriente-Ocidente a ponto de estabelecer a concepção deste último na ruptura pós-aristocrática da Polis grega. Ao contrário, como exemplo da metodologia estrutural, Vernant subsume a Polis à abstração da aristocracia: "como a filosofia se desenvolve do mito, como o filósofo deriva do mago, assim também a Cidade se constitui a partir da antiga organização social..." (p. 464). Os privilégios e honrarias dos grupos dinásticos passam a ser qualificativos dos cidadãos pertencentes à mesma Polis.

50 A isonomia, igualdade dos cidadãos que não tem pois privilégios distintos uns dos outros, ao contrário do que ocorre na aristocracia, onde as famílias da nobreza são hierarquicamente superiores aos plebeus que tem assim obrigação de servi-las, se torna na metodologia estrutural ela mesma o privilégio por abstração, generalizado a pertença política dos nacionais. A "unificação política" ser "amálgama" das tribos originárias" (p. 463, 464) não coloca para Vernant a questão da enorme transformação em curso, uma vez que então os "demos", regiões estabelecidas como unidades federativas, tornam-se o referencial da nacionalidade, o mais provável sentido original do termo "democracia".

51 A permanência hierárquica como denominador comum da mentalidade grega independente do regime é em Derrida, inclusiva da sofística, mas assim, se vemos uma oposição nítida entre ele e o esquema da verdade filosófica e falsidade sofística que Vernant e Detienne estabelecem, o que parece estar ocorrendo é a mesma metodologia estrutural-funcional aperfeiçoando-se para eliminar todo traço destoante da unidade. Para Foucault, igualmente, como pronunciou-se ele numa entrevista, Platão e Aristóteles seriam a expressão dos gregos em geral, a síntese a que os gregos seriam sempre redutíveis. Mais à frente voltaremos à tese de Derrida que define a oposição central da mentalidade grega, inversamente a verdade-erro/esquecimento, em termos de dentro-fora. Cumpre, aqui, observar mais detidamente a questão Hesíodo em Vernant.

 

III

 

1 Sendo muito instrutiva a discussão que Vernant referencia a propósito de sua tese, conforme as críticas que suscitou especificamente de Defradas e Goldschmidt, aqui a polêmica não seria muito necessário seguir, não tanto pelo fato de girar em torno da problemática da temporalidade no mito hesiódico, o que deveremos examinar oportunamente. Mas sim porque a discussão ignora o que considero mais importante, a saber, não se as raças de Hesíodo e a curiosa interpolação dos heróis é cíclica ou sucessiva. Mas sim o que significa. Se a tripartição funcional das classes na tese de Vernant é criticável a meu ver, pelo fato de que Hesíodo não pensa a função julgadora como aristocracia/realeza e sim já como tribunal racional, o que o mito das raças traduz não poderia ser a genealogia do poder, equivalência da raça de ouro originária à realeza. E, o mais importante, a atribuição, por Hesíodo, do mal da alternância das raças que conduziria à idade do ferro como ao pior dos mundos possíveis, à classe dos guerreiros, de modo que sua utopia seria a conjugação direta do rei justo com os agricultores laboriosos. Para Vernant, a perspectiva hesiódica é de que os guerreiros implicam pois o mal da guerra como o símbolo do que solapa o ritmo lento da produtividade neste mundo de esforço contínuo contra a degeneração crescente até as crianças virem a nascer com os cabelos brancos.

2 A meu ver Mircea Eliade ("Mito e Realidade", São Paulo, Perspectiva, 1972) permite situar uma interpretação do mito das idades em Hesíodo, num contexto mais amplo das significações míticas em geral quanto a noções de origem em sua relação com o estabelecimento do mundo e atual estado de coisas. Eliade cita Vernant, sem na verdade criticar sua concepção de que o poeta arcaico grego, o aedo, "inspirado pelas Musas tem acesso às realidades originais" porém de um modo estritamente comparável à evocação do mundo dos mortos para aquele que pode contudo dele tornar a sair e voltar ao mundo dos vivos: "O privilégio que Mnemosine confere ao aedo é o de um contato com o outro mundo, a possibilidade de nele entrar e dele sair livremente. O passado surge como uma dimensão do além" (p. 108).

3 Essa citação, que em nota aproxima Vernant de Coomaraswamy, é coerente com a substância da perspectiva de Eliade sobre a valorização da memória na Grécia em dois extratos, a memória dos eventos primordiais e a recordação da alma pessoal. Ambas unindo assim, pela oposição mítica da memória ao esquecimento, o mito e a filosofia, e a estes unindo também ao que seria o generalizado "comportamento do homem das sociedades arcaicas e tradicionais" (p. 111) Platão é aqui especialmente evocado, pelo esquematismo de sua filosofia entre o esquecimento oriundo da encarnação material, e a rememoração facultada pela filosofia antes que apenas pelo estado oposto da materialidade.

5 Assim, comparando a filosofia de Platão ao que chamou de "ontologia arcaica", Eliade explica "em que sentido a teoria das Ideias e a anamnese platônica" podem ser generalizadas. É que o homem arcaico-tradicional tem sua vida regulada pelos modelos exemplares que encontra nos mitos, os quais são paradigmáticos relativamente a todos os seus atos. "Os mitos lhe asseguram que tudo o que ele faz ou pretende fazer, já foi feito nos princípios dos Tempos, in illo tempore" (grifo dele).

6 Não seria pois por uma contraposição consciente que Eliade poderia ser utilizado como fonte para uma interpretação alternativa à de Vernant, sobre a significação do mito das idades em Hesíodo. Mas sim por uma aplicação da síntese que Eliade produziu a propósito de temas e recursos míticos, obtida a partir da comparação de mitos oriundos de muitas sociedades antropologicamente já estudadas. Ora, conforme Eliade, os tempos da origem são sempre miticamente aqueles da presença de Deus. O que interessa aqui é especialmente o fato dessa presença ser constante na economia do mito antes do que Eliade tratou como desmitificações históricas tendo curso pelo desenvolvimento das sociedades organizadas em grandes civilizações até a nossa era da ciência, onde a desmitificação foi total.

7 Um aspecto da desmitificação em seus inícios, é o fato de se instituírem classes segregadas sacerdotais, pois originalmente, nas sociedades mais simples, onde conserva toda a sua pujança sendo o único meio cultural existente, o mito e o rito são vividos intensamente pela comunidade, os atos do xamã só são eficazes por essa participação comunitária, ao contrário do que ocorre na segregação da classe sacerdotal que racionaliza progressivamente os mitos originários até que, como na Índia e na Grécia eles se tornam matéria especulativa e lógos racional surgente. O rito mítico vem a corresponder à repetição da origem, da presença de Deus que criou e do ato da criação, substituindo o estado de coisas afastado da origem pela ação do tempo, pelo estado de coisas como era presente na origem, ou seja, com toda pujança, vigor, força, daquilo que é sem qualquer alteridade que modifique o seu ser.

8 A meu ver vários motivos filosóficos estão implícitos nessa leitura de Eliade, como o bem platônico, que confere às essências o poder de serem o que são, a tradução tomista do bem platônico em existência que pertence só a Deus e só por ele é comunicada às demais essências independente da definição própria a elas, ou a variação da potência conceituada por Spinoza como inerente à essência, de modo que na duração modal, compondo-se a outros modos, a essência será mais ou menos ela mesma.

9 Essa concepção que opõe a mesmidade da coisa à possibilidade degenerativa antes que apenas ao não-ser, é o que Eliade considera, pois, o caráter típico do homem primitivo: "É aqui que encontramos a diferença mais importante entre o homem das sociedades arcaicas e o homem moderno: a irreversibilidade dos acontecimentos que, para este último, é a nota característica da História, não constitui uma evidência para o primeiro... Para o homem das sociedades arcaicas... o que aconteceu ab origine pode ser repetido através do poder dos ritos. Para ele, portanto, o essencial é conhecer os mitos... essencial não somente porque os mitos lhe oferecem uma explicação de mundo", mas essencial porque conhecendo a origem das coisas, assim como o que os Ancestrais, os Deuses e os Heróis fizeram no início, os homens podem repetir o que foi feito, restituir o que se perdeu ou degenerou.

10 Assim o mito e o rito não são para o homem pré-moderno atas de rememoração, apenas: "O homem das sociedades arcaicas é obrigado não somente a rememorar a história mítica de sua tribo, ms também de reatualizá-la periodicamente". Qualquer pessoa, sem precisar ser iniciado, por apenas conhecer a origem, pode "reiterar" a criação exemplar num momento decisivo como a germinação do arroz (p. 17/19, grifo dele).

11 Ora, se muito da controvérsia antropológica sobre o significado do mito em sua oposição conceitualmente constitutiva ao lógos, tem sido prejudicada, como me parece, pelo fato de esquecer-se que o lógos mesmo é histórico, não diz o mesmo na Grécia Antiga ou nas fases da modernidade, nem se faz destituído de pluralidade interna em cada contexto histórico, nessa colocação de Eliade como vimos, por sua proximidade flagrante a tantas motivações da filosofia, isso fica bem nítido. O propósito mesmo de Eliade é surpreender o substrato mítico na aparência do que se opõe a ele como a historiografia e a filosofia ou a consciência comum do homem moderno fascinado como é pela comunicação em massa. Na verdade o que pode parecer surpreendente é o contraste que Eliade faz entre o mito e seu verdadeiro opositor, que não seria nenhum destes citados, mas a religião mesma na forma do cristianismo que conscientemente, na letra dos seus apologistas e exegetas, tratou de refutar qualquer interpretação de seu conteúdo como mito.

12 Mas Eliade considera reconstituível as fusões das mitologias dos povos convertidos sob a uniformidade aparente das Escrituras, de modo que não haveria apenas um mas vários cristianismos, conforme por exemplo à oposição da doutrina transcendente do catolicismo e o cristianismo imanente, o "cristianismo rural" do Sul e Sudeste europeus, que fala a linguagem dos mitos da natureza, assim como para os camponeses da Europa oriental, "essa atitude" de sacralização da natureza pelo cristianismo, não implica paganizar o cristianismo, mas sim, pelo contrário, cristianizar a religião dos ancestrais (p. 149).

12’ Quanto à Hesíodo especificamente, Mircea Eliade ora o considera um eco de Homero como referência mito-religiosa grega, ora salienta que Homero educou toda a Grécia, conforme a expressão de Platão, mas não por ter visado a esse resultado, já que destinava seus poemas apenas aos membros da "aristocracia militar e feudal", enquanto Hesíodo visava um outro tipo de audiência, narrando mitos ignorados ou apenas esboçados nos poemas homéricos ( p. 129 e ss.).

13 Considera que Hesíodo na verdade lida com mitos muito arcaicos, com raízes na pré-história, que porém mesmo antes de serem registrados por ele já haviam sofrido mudanças e transformações significativas.

14 E de fato essa é a concepção de Cornford sobre Hesíodo, como se informa na introdução à obra tradutora da "Teogonia"(A.L. Cerqueira, M.T. A. Lyra. Niteroi-RJ, Universidade Federal Fluminense, 1979, p. 19), aduzindo que "A hipótese de um parentesco entre os mitos cosmológicos da Teogonia e um conjunto mítico-ritual oriental reforçou-se com a publicação de um texto hitita que conta a epopeia de kumarbi" estabelecida por Bernett em The epic of Kumarbi and The Theogony of Hesiod" (Jounal of hellenic studies LXII, 1945), com base nas pequenas tábuas procedentes dos arquivos reais de Boghaskala, antiga capital hitita, escritas em caracteres cuneiformes. Mas também Vernant em Mito e Pensamento entre os Gregos (p. 444) referencia Guthrie, que anotou e reviu o manuscrito de Cornford sobre a relação da Teogonia grega com o complexo mítico babilônico.

15 Guthrie realmente considerou a publicação da epopeia hitita de Kumarbi reforço à hipótese, por estabelecer a ligação entre as duas versões do mito da guerra pela soberania movida pelo rei e pai dos deuses, Zeus ou Marduk, contra potestades vigentes pretéritas que haviam degenerado, como Cronos devorando os filhos ou Tiamat personificando a desordem caótica. Vernant sublinha que na Babilônia o rei entronizado tinha obrigação ritual de repetir anualmente "a prova e a vitória" de Marduk numa grande festa durante a qual a epopeia Enuma elis era recitada. Por esse meio, como Vernant expressa, o poder de Deus "concentra-se na pessoa do rei. O ordenamento do mundo e a regulação do cliclo das estações aparecem impregnados na atividade real: são aspectos da função de soberania. Natureza e sociedade estão confundidos". (p. 445)

16 Hesíodo também se diferencia de Homero, para Eliade, por sistematizar os mitos, além de os registrar. A sistematização em Hesíodo se faz compreendendo a genealogia dos deuses como "uma série sucessiva de procriações", enquanto que "a procriação, para ele, é a forma ideal de vir à existência". Aqui já podemos notar que na controvérsia de Defradas contra Vernant, Eliade estaria coerente com o primeiro, defendendo pois um tempo mítico sucessivo quanto a Hesíodo. Eliade cita Jaeger, para quem a sistematização de Hesíodo exibe já um "caráter racional", uma vez que articula pensamentos mítico e causal, assim precedendo a pesquisa da arkhé, a origem elementar pré-socrática, cuja importância Platão no Banquete teria salientado.

17 Conforme Eliade, "a ideia de Hesíodo, segundo a qual Eros foi o primeiro deus a aparecer após o Caos e a Terra foi ulteriormente desenvolvida por Parmênides e Empédocles". Eliade também referencia Karl Meuli. A propósito trata-se de ser Hesíodo "o primeiro a falar de Prometeu", de modo porém que para Eliade, Hesíodo "não poderia saber que o mito central de Prometeu se baseava num mal-entendido, ou, mais exatamente, no 'esquecimento' da significação religiosa primordial". Se em Hesíodo, Zeus vitupera Prometeu por tê-lo enganado na partilha da gordura, fazendo-o escolher a parte dos ossos coberta enganosamente. Meuli "comparou esses scrifício olímpico aos rituais dos caçadores arcaicos da Ásia Setentrional", onde o que devia ser oferecido aos deuses era justamente apenas "os ossos e a cabeça do animal". O mesmo costume era observado entre os pastores da Ásia Central. Assim para Eliade,"aquilo que, num estado arcaico de cultura, era considerado a homenagem por excelência a um Deus celeste, tornou-se na Grécia a trapaça exemplar...". Porém na letra de Hesíodo, de fato Zeus nunca se deixara enganar, ele apenas espreitava a intenção trapaceira de Prometeu, que depois se confirmou no episódio do roubo do fogo, pelo qual seguiu-se o castigo. Ainda aí Zeus deixa que Héracles liberte Prometeu para honrar o filho. Em Hesíodo, pois, a hybris (transgressão) dos inferiores nunca atinge realmente o pai dos deuses, que dela se serve como exemplo da sua força. Esse aspecto foi devidamente enfatizado por Vernant. Os três pilares da lição religiosa de Hesíodo seriam, pois: a) impossível enganar Zeus, nenhuma fraude lhe escapa; b) uma vez tendo havido a fraude segue-se a grande lei de nada gratuito, tudo pelo trabalho; c) não há bem sem mal (Vernant, p. 74). E segundo a tradução da Teogonia de que dispomos, Hesíodo efetivamente registra a origem mítica do costume evocado por Meuli, pois, como lemos nesse trecho "Desde então, sobre a terra, os filhos dos homens queimam aos imortais os ossos nús das vítimas." (Teogonia, 535)

18 É interessante que Cerqueira e Lyra tenham referenciado o Mito e Pensamento entre os Gregos de Vernant, visto que para ele "a criação do homem está implicada na divisão do animal sacrificado." ("Teogonia", p. 41) Realmente o mito referencia o castigo pelo roubo do fogo, não apenas de Prometeu, mas também dos homens. Assim Zeus criou Pandora, a linda mulher, geradora das demais, cujos dons atrativos modelados pela astúcia dos deuses, seriam o flagelo dos homens, não se acomodando à pobreza, "mas à abundância somente", fazendo-os assim trabalhar arduamente para satisfazê-las. (Teogonia, 536)

19 Na verdade Vernant estuda o mito de Prometeu especialmente do ponto de vista do outro poema de Hesíodo, "Os trabalhos e os dias" (Vernant, p. 27). O que ele destaca nesse mito é o aspecto da ambiguidade, da Ápate, o "erro", ligada porém ao dolos, o dólos, a intenção trapaceira (p. 72). Em nossa língua um crime "doloso" é intencional, portanto punível por lei, ao contrário do "culposo" derivado de ação não intencional, de que se seguiu a consequência por acaso. Assim Pandora encerra o paradoxo do bem e do mal, tanto a beleza como a crueldade que cerca a condição humana exposta às doenças, à fadiga do trabalho para obter o pão, à exaustão na decrepitude, ao ser finito. A mulher seria em Hesíodo, para Vernant, o que "simboliza, em sua duplicidade, uma condição humana em que os males tem, a partir de então, um lugar ao lado dos bens, onde se encontram como que inextrincavelmente misturados a ele". (p. 75) Ventres insaciáveis, cobiçando os bens do homem desde antes do casamento, sempre à espera de festins, elas são perigosas às forças dele, representam a velhice prematura (73). Há aqui uma correlação da juventude com a seiva, da velhice com o gasto, portanto a figura da velhice é o ressecamento progressivo. Mas de fato, quando lemos Hesíodo, constatamos que ele coloca aí um paralelismo entre duas possibilidades quando o destino é o casamento. Encontrar uma esposa boa, que tem a "mente sã", ou o contrário. Em todo caso o mal compensa o bem porque o trabalho é o corolário do casamento, porém no caso da má esposa somente, a aflição "no peito, na alma, no coração" é um "mal incurável". Assim segundo creio se atenua a semelhança de Pandora a uma Eva grega, relação não proposta por qualquer dos estudiosos examinados. Se também é por Eva que Adão tem que comer o pão com o árduo trabalho, a inscrição alternativa da mulher como compensação é algo peculiar a Hesíodo. Inversamente a destacar esse paralelismo dos destinos matrimoniais em Hesíodo, Vernant comenta somente a singularidade resultante do raciocínio. Ele questiona o contraste de Hesíodo entre o gasto a que o homem casado está fadado, e a abundância que o solteiro se garante pela economia desse mesmo gasto (Os trabalhos e os dias, 605). Indaga-se Vernant: por que a sorte dos solteiros e dos casados é desigual? Para Vernant a resposta é esse "elo, tão fortemente estabelecido pelo mito, entre a criação da primeira mulher, o aparecimento dos males, a necessidade de uma emulação contínua no trabalho agrícola." Inversamente à unilateralidade da interpretação de Vernant, creio que resposta deveria contudo localizar a explicação mítica do "estabelecido" como necessidade, uma vez que o sexo introduz logicamente mais um elemento na série, a necessidade da geração de filhos, o meio pelo qual nascemos, de modo que a solteirice é o transitório ao contrário do permanente. Assim como a série das raças enuncia, do ouro ao ferro, o tempo da juventude não sendo único nem próprio do humano. E como reza a Teogonia, Eros domina o coração dos homens e dos deuses.

20 Meu propósito é mostrar que na compreensão de Hesíodo, o mais adequado é examinar a hipótese do significado antropológico de todo mito segundo Eliade. Ao contrário da lógica divisora como na definição estrutural, em Eliade o mito é a palingenesia, a recriação da essência em seu ser incontaminado, uma vez que para o homem arcaico assim como para Platão, "o essencial precede a existência." (Eliade, p. 85) Ora, o que Hesíodo teria feito conforme me parece bem interpretável, é uma desmitificação dentro do mito, de modo que ele por um lado conserva a vocação recriadora, mas com um intuito bem oposto à repetição da origem e anulação do tempo. Essa intenção seria conceituar, ainda que pelo instrumento da palavra mito-poética, as estruturas do mundo efetivo, do mundo dos homens. Uma vez conhecendo a estas, inversamente à origem, é que lições sobre o dever-ser se possibilitam. As lições versarão pois sobre o justo e o injusto, porém não como figuras oníricas, como para Detienne são as do mito desde a interpretação psicanalítica, e mesmo, para alguns pós-freudianos, as do mito seriam mais audaciosas ainda que as do sonho ("A escrita de orfeu", op. cit. p. 128). E sim seguindo-se como o corolário prático desde o estado de coisas efetivo.

21 Vejamos primeiro as comparações exequíveis. Assim como na germinação do arroz no Timor, de modo que pela recitação do mito da origem o arroz plantado agora crescerá forte e com o mesmo viço porque se repetiu como o arroz essencial na origem, a raça de ouro em Hesíodo é sempre jovem. A antípoda, a última na ordem das gerações raciais, sendo a do ferro, já nasce velha, destinada à velhice, por isso que simboliza o afastamento da origem - e algo deve estar depois. Ora, assim é pelo mito mesmo que o receptor se vê forçado a compreender a situação oposta à origem como a sua mesma e a dos seus semelhantes. Hesíodo estaria expressando a determinação puramente humanística de um mundo que se tornou necessário pensar na sua independência da origem sobre-humana.

22 Um mito do homem, uma lição de coisas. Realmente, os mundos/raças são a meu ver tempos estratificados, níveis ou patamares independentes uns dos outros, conforme me pareceu a hipótese de Vernant, inversamente à cronologia linear que seu opositor, Defradas, supõe única possível contra a hipótese de um mito fora do tempo. Nem sucessividade nem atemporalidade, um tempo estrutural - não obstante alhures Vernant falar também de ciclo.

23 Ao defender-se contra a acusação de ter formulado essa hipótese da atemporalidade, Vernant considera um "tempo lógico" (p. 66) "que comporta menos sucessão de momentos do que estratificação de camadas, superposição de idades". (p. 65) Assim, se as raças não se sucedem num tempo linear, não seria porque elas estão fora do tempo, mas porque situam-se nesse outro tempo que me parece mais correto atribuir como tempo estrutural, cujo modelo é sem dúvida o inconsciente freudiano, suas fases ou funções, se bem que ele mesmo já poderia ser associado à extratificação geológica como fizeram algo jocosamente Deleuze-Guattari no Mille-Plateaux, e à extratificação arqueológica propriamente dita.

24 Em todo caso, a noção é mesmo expressa em Vernant: "Em lugar de uma sequência temporal contínua, há fases que se alternam segundo as relações de oposição e de complementaridade. O tempo não decorre segundo uma sucessão cronológica, mas conforme as relações dialéticas de um sistema de antinomias, do qual nos resta marcar a correspondência com certas estruturas permanentes da sociedade humana e do mundo divino" (p. 67). Essa permanência, porém, é que não se explica de fato apenas pelo caráter antinômico, uma vez que entre o humano e o divino, justamente Vernant não quer ver qualquer dialética antinômica. Repetindo o que já destaquei antes: "Assim, a ordem de sucessão temporal, expressa em uma narrativa genealógica, parecia-me corresponder à ordem hierárquica que preside permanentemente na organização da sociedade, tanto humana quanto divina". Mas será a hierarquia o equivalente dos mundos, do ouro e do ferro? Haverá alguma permanência de um no outro? O sistema antinômico estrutural parece perfeitamente sugerir o contrário.

25 Além disso, vemos que aqui Vernant está se defendendo também da acusação de ter apagado a gênese pelo fato da estrutura, quando na verdade, segundo ele, pretendeu bem o inverso: "na narrativa da Teogonia bem como na descrição das raças... mito genético e divisão estrutural em lugar de se oporem claramente como parece aos nossos olhos, são indissociáveis". Porém alguns aspectos da permanência que Vernant considera constatáveis por exemplo na oposição platônica de, por um lado, mito/verdade/terra, e, por outro lado, retórica/logro/circulação monetária, não são reconhecíveis pela história. Onde a classe capitalista internacional do helenismo estava muito oposta a qualquer personificação pela terra, sendo até contrastante o desprestígio da autoctonia, como o das línguas nativas, e o prestígio da mobilidade como do grego internacional. Porém tanto mais o capitalismo avançava na sua feição antiga, mais o mito sobrepujava o então nascente lógos, e isso numa radicalização pela qual sobrepujar não significava mais eliminar, e sim incorporar, fazer dizer na sua própria razão. Foi assim que o verbo se fez carne, e é interessante que a exigência do cristianismo contra o mito, em nome do lógos, tenha até mesmo sido que este último nasceu com Cristo e a religião histórica, suprimindo-se o capítulo grego da filosofia.

26 Assim se expressa Detienne, referindo-se ao argumento citado de Orígines segundo o qual os mitos, como dos judeus do Velho testamento, seriam essa prova de "uma inteligência de meninos". Como faz ver Detienne, a ideia aí impressa é que disso seria prazeroso desfrutar num tempo próprio, porém que cedo se determina apenas limitado a um "discurso da pobreza intelectual sem deixar de ser o da Primeira Idade e das origens." Estas se tornam portanto apenas o capítulo inicial da "história que leva de modo irreversível do Antigo Testamento ao Novo, conferindo assim à desmitologização a virtude de uma passagem do mythos ao logos". (p. 119)

27 Em Hesíodo propriamente, as oposições estruturais do mito seriam, segundo Vernant, as posições de um sistema hierárquico. A oposição central sendo o alto (soberania) e o baixo (plebeus), o que constatamos como oposição central da mentalidade grega em Vernant e Detienne, a saber, a verdade e seu oposto, esquecimento ou falsidade, conforme os regimes dos genos e da Polis, se deixa desse modo reduzir. A verdade é sempre função da soberania, como da justiça. Não adequação da coisa ao intelecto, segundo a fórmula célebre do medievo Isaac Israeli. Na era pós-genos, como função do lógos, pois tudo o que prenunciar a fórmula prosaica da adequação é ainda apenas derivação da função da realeza. A função da justiça não poderia assim ser concebida na Antiguidade como comum, assumida por qualquer um que se prestasse aos requisitos de um cargo público. Repetindo o que já vimos, mas valendo lembrar também aqui, a princípio a função da justiça na interpretação estrutural é a mesma da soberania, do rei por direito divino, em seguida a sacralidade da soberania se comuniza na forma grega da "cidadania".

28 Na fórmula da partilha do sacrifício violento como o princípio isonômico, assim recambiada na interpretação estrutural de Hesíodo como centralidade da oposição soberania sagrada/plebe pecaminosa, a democracia antiga é ela mesma o sagrado comunizado. O político, pertença natural à Polis, é pois jamais pensado na Grécia Antiga, se ele existe é apenas função da modernidade, mas torna-se assim algo duvidoso que realmente exista. Pois, como num outro vetor da análise estrutural, a sofística chega a ser pensada, em Barbara Cassin, independente de toda metafísica da verdade, a princípio não apenas o reverso dela. Porém para o demonstrar só valendo-se do contrário e recobrindo pelo avesso as diatribes avant la lettre de um Aristóteles contra o prazer de falar. O resultado é ainda o de Detienne em Os Mestres da Verdade. O "tipo de pensamento filosófico e religioso que é diametralmente oposto ao dos sofistas" é aquele que "pretende atingir e revelar uma 'verdade' que é homólogo e antítese da 'verdade religiosa'" (op. cit. p. 73)

29 A aletheia, a verdade em grego, é figurada miticamente em Plutarco e no Fedro platônico como tendo lugar em uma planície (p. 64), nesta em que residem todas as formas do que foi, é e será. Em Platão as almas seguem os deuses, os grupos de almas seguem o deus que lhe é conatural, para verem o que está na planície. As bem-aventuradas são as que o conseguem ver sem afastarem-se muito do deus que seguem. O filósofo repete numa nova destinação a mesma reserva da verdade ao sagrado que definiria a religiosidade aristocrática. A filosofia se congemina às seitas iniciáticas e seja a regra de vida das escolas, sejam os ritos assombrosos dos adeptos, trata-se da atribuição do antigo rei mago e do poeta que inspirado pelas Musas cantavam o seu saber, este que pertencendo à mitologia, consistia em "lembrar-se do passado, discernir o presente, prever o futuro" (p. 65, 66).

30 O inverso é o sofista que recolhe de um modo subversivo a mesma lição. Se ela ensina que a esfera do mundo comum, não sagrado, é Léthe ou esquecimento, o sofista se cinge a ele como ao "tempo da contingência e da ambiguidade" (p. 59) a que se restringe o secular. Parece ter sido Simônides de Ceos, o poeta mercenário da Polis, quem introduziu segundo Detienne a oposição verdade/opinião. (p. 58) E o que o filósofo condenaria, Cassin festeja como "a música do consenso" que exaure, para objetivos de definição, essa impossibilidade de definir que subjaz ao espírito da linguagem segundo a retórica sofística. (“Gregos, Bárbaros, Estrangeiros: A cidade e seus outros”. Rio de Janeiro, Ed. 34, 1993, p. 51) A sofística conforme Cassin é pois tudo o que Aristóteles e Platão disseram dela porém sem atingir o próprio limite discursivo. Crendo assim que podiam fazer mais do que agradar pela equivocidade, sem no entanto pressupor com Lacan o desdobramento da verdade. E tal que a democracia é essa alquimia dos valores na qual o bom orador convence a cada um que fala o que ele ou ela pensa, quando não poderiam pensar de modo mais oposto entre si, como "o metafísico e a cozinheira" – que porém nunca se darão conta disso.

31 A meu ver, Cassin não percebe assim que essa limitação anti-metafísica é apenas o efeito da metafísica. A subsunção do verdadeiro ao supramundano e religioso – logo, no sentido do lógos humano, sem demonstração racional possível. A polissemia não coloca o heideggeriano ser dos pré-socráticos apenas nisso pelo que este pode se deixar arrastar à experiência fenomenológica, se bem que equívoca, se polissêmica, não ao modo de Husserl. Mas não seria por isso mesmo que interpretar Heidegger como um sofista "logológico", conforme Cassin aproveitando a terminologia de Novalis é algo problemático? Assim ocorre em seu "Ensaios Sofísticos", e se aí Cassin rastreia as ambiguidades heideggerianas a propósito, o que me parece certo é, primeiro que o modelo da verdade como não-contradição não pode ser imputado a Sexto Empírico, que segundo Cassin seria quem Heidegger estaria seguindo sem atenção para fontes alternativas a propósito dos retores antigos. O texto sextiano explicitamente não autoriza qualquer definição para a verdade, uma vez que por definição se compreenda um enunciado universal, independente da singularidade do pathos, a "sensação" subjetiva, que não pode ser considerado mera opinião. Segundo, mais importante ainda, é que apenas a referência elogiosa de Heidegger a Protágoras não permite deduzir que se trata da posição sobre a sofística, pelo contrário, Protágoras é elogiado como um pré-socrático pensador da polissemia do Ser. Essa posição não se coaduna com o texto sextiano, uma vez que nele há apoio às críticas registradas contra a sentença de Protágoras, pois se o homem fosse a medida das coisas, e um homem negasse ser a medida, ele seria e não seria a medida, o que é absurdo.

31’ Aí vemos pois um critério de raciocínio que não se limita à contradição de verdadeiro e falso, mas já se coaduna ao atual conceito lógico de absurdo, o que não pode ser verdadeiro ou falso por ser destituído de sentido como se costuma exemplificar na proposição "o atual rei da França é careca" - uma vez que não há monarquia na França atualmente. O critério do absurdo é designado por Sexto como inconceptível, o impossível de conceber. Na verdade o que me parece contrastante com a posição cética é o corolário do "ser" que a sentença expressa, condicionado pela doxa como pelo que parece a cada um. Heidegger supõe que ajuntar o "não-ser" possível reconduz Protágoras à a-letheia pré-socrática, a possibilidade do oculto no des-ocultado. Ora, é possível que Protágoras mesmo concordasse que a questão central do contexto intelectual do seu século não devesse ser colocada nos termos do Ser, se ela enunciava a irredutibilidade da experiência pessoal quanto aos objetos da percepção. Assim o que enunciava é que não se pode predicar a qualidade da percepção ao objeto como ao seu ser. E a posição de Sexto não sendo a negação completa do saber do objeto, pelo limite não-opinativo da sensação, mas a suspensão do juízo sobre os dogmas filosóficos que versam pois sobre o que não é prático, o que não se restringe à experiência. Se ela é heterogênea, resta o acordo mútuo possível se há um referencial na experiência, pois a vida estável em sociedade procede do haver de ligações constantes entre signo e referente, o que também permite a ciência quando o acordo quanto à ligação é observacional como na medicina. Entender a posição de Heidegger implica fazer abstração da filosofia teórica e postular ao invés uma ontologia do prático, existencial. O ser, então, é realmente uma verdade das coisas, mas as coisas não são inertes, elas são a parte constitutiva da experiência do Ser que é só a do homem, a pre-sença. Ao contrário do ceticismo, em Heidegger a atribuição do Ser não deriva da experiência e do falibilismo da observação, mas sim do modo de ser do homem e dos a prioris das culturas. O ser é polissêmico porém tanto porque as culturas são variáveis como porque numa mesma cultura há possibilidades variáveis de atribuir ser. O ceticismo já inclui a irredutibilidade cultural como tropo não diretamente da incognoscibilidade, mas da suspensão do juízo a propósito da coisa em si. A linguagem pathos eautós, da sensação própria, difere porém da sofística porque não pode ser modificada pela opinião, nem é do seu âmbito. O que o ceticismo não reúne é alguma concepção sobre o Homem, e como modo de Ser, à relatividade cultural. A aporia cética torna-se mais atual que a unidade heideggeriana desses referenciais. Pois como hoje se questiona a conceptibilidade do “humano” em nome da relatividade cultural, também o ceticismo considerava-o inconceptível com base em que os homens mesmos não concordam quanto ao que eles são. Novamente temos o paradoxo protagórico, pois responder que ainda assim eles são aqueles que atribuem ser a si mesmos, esbarra com a objeção cética que nada atribui. O recurso heideggeriano é desaprovar o ceticismo, colocá-lo fora de jogo, etc., mas sem lembrar que não só o cético pode assim proceder. Ora a questão é mais atual ainda porque teórico-críticos na linha de Adorno a Habermas e existencialistas tem radicalizado o recurso segregativo de Heidegger, para abranger o campo da legalidade, como no comunitarismo ou uma vertente do feminismo à Benhabib, atacando a democracia representativa como algo inautêntico, portanto autoritariamente imputando ao “ser humano” uma “encarnação” ou narratividade que apenas corresponde com que possam os idealistas se identificar.

32 Para Cassin, trata-se só dos efeitos de linguagem, fato de estrutura. A estrutura é anti-humanística, pois não se deve crer nela, é apenas jogo, não teria sentido decidir sobre verdade ou falsidade das regras de um jogo, se elas instruem realmente os lances possíveis, mas não há nada além. Então o recurso é a variação contínua de estruturas e jogos, os valores só são postos para serem subvertidos, sendo esse axioma o que ligaria os sofistas antigos à poesia atual à exemplo de Francis Ponge. Não creio porém que esse fosse o espírito do gorgiano Elogio de Helena que não considero ser um elogio do Logos, mas uma denúncia veemente contra o despotismo.

32’ Que na palavra se discerne o falso e o verdadeiro é sim a mensagem do retórico, uma vez que por verdade aí parece subjacente o significado do acordo entre intenção e expressão. O interessante no Elogio de Helena é que esse acordo, como exemplifica o caso de Helena, é visado pelo lado do receptor, é ele quem deve estar atento a isso uma vez que a palavra endereçada malevolamente tenciona suspender sua atenção natural ao interesse próprio. Ao contrário, no tratado do não-ser do mesmo Gorgias, a linguagem nunca pode dizer o verdadeiro uma vez que este resida no mesmo acordo subjetivo, pois a linguagem é um instrumento, uma estrutura, estranha à pragmática, imiscível a ela. Entre a pragmática do Tratado e a semântica do Elogio, estabelecer o nexo se torna o cul de sac na interpretação da sofística. Em todo caso parece que podemos inferir que para Gorgias, a semântica existe mas é autotélica, assim não tem relação com a verdade que é só pragmática. Para Sexto Empírico, ao contrário, a semântica não existe, não é autotélica (tendo um significado que não comporta a experiência das coisas), mas sim inconceptível, mera aparência de significado que porém não resiste ao exame de como o podemos pensar. Só a semiótica pragmática é conceptível, se a ligação de signo e referente é observacional (fumaça e fogo, remédio e cura). As definições dogmáticas idealistas dos filósofos não são pois conceptíveis.

33 Não parece que Gorgias considere que a excelência da retórica é a noção mal formada perfeita - como se define atualmente, o mesmo que Cassin considerou consenso, ou seja, não o que habitualmente se poderia considerar, um verdadeiro acordo de intenções, mas a falácia pela qual são usadas palavras de frouxa significação, sem defini-las, como "liberdade", "autoridade", e hoje em dia até mesmo "democracia". Aquilo que associamos aos maus políticos. O interessante ao meu argumento sendo que não apenas Gorgias não o considera assim, mas explicitamente era o que o Elogio de Helena estava denunciando como o uso da retórica para o mau.

34 Esse é um ponto em comum entre Gorgias e Hesíodo, se a este podemos interpretar como um falibilista do âmbito prático. Isto é, alguém que coloca em primeiro plano o fato das instituições humanas a exemplo da justiça pública serem as únicas possíveis porém dependerem apenas das decisões dos homens e assim serem possíveis erro ou dolo. A posição falibilista não implica pois que haja uma divisão de humano e divino homóloga à de falso e verdadeiro, uma vez que o erro/dolo é fortuito, a instituição funda-se na possibilidade da verdade mesmo nesse plano humanístico. Assim podemos inferir que cada possibilidade de desvio está sendo sempre caçada com a finalidade de suprimir-se como possível. Uma consequência otimista do progresso humano é implícita. A posição falibilista não seria pois a mesma de Simônides de Ceos, se é verdade que este faz equivaler a doxa e o falso ou enganoso. A arte como exploração do engano é algo bastante relacionável ao contexto grego, onde porém a arte alcançou o cume como já observamos, conforme um critério de ilusão perfeita. Porém esse locus é o que a argumentação em torno do limite subjetivo da experiência explorava, junto com outros tópicos como a dependência da espécie - os animais não tem a mesma experiência do objeto - ou da cultura de que alguém é nativo. A subjetividade aqui é a impossibilidade da objetividade, não a sua condição de possibilidade. Mas a impossibilidade é o meio do cálculo quanto ao melhor, aquilo que precisamos equacionar para contornar. A mensagem da organização social grega é sempre otimista e desenvolvimentista nesse sentido humanístico, e a vemos prolongar-se nas escolas de felicidade do helenismo.

35 A que a significação da doxa na sofística é a deslocada pelo pathos em Sexto Empírico, em todo caso, aquilo que decorre da singularidade subjetiva. A crença na singularidade da percepção era tão forte nesses meios, que argumentava-se como em Sexto sobre a impossibilidade de pessoas com a cor dos olhos diversa entre si não poderiam ter a mesma sensação de cor, independente das palavras denotativas das cores serem as mesmas devido a cobrirem uma mesma gama de variação cromática. Porém não pode haver erro ou falsidade na apercepção, isto é, na percepção que temos quanto a ser esta ou aquela a percepção do objeto que estamos tendo, doce ou amargo, por exemplo. É interessante assim justamente o modo como Sexto Empírico destrói o consenso sobre a música - assim querendo destruir o conceito filosófico de música no seu "contra os músicos" - mostrando que ao contrário do que pensava Pitágoras ou aqueles que a supunham útil ao exército, nada prova que tipos definidos de ritmo obtenham o mesmo resultado na alma, visto que para alguns a mesma música pode parecer irritante ou ao menos nada incitante, ao contrário do que para outros.

36 Essa é uma concepção que poderíamos considerar errada, já que tanto amamos a música, e Benjamin já havia se indagado sobre que tipo de personalidade é a dos tempos modernos e da alma surrealista, quando alguém poderia considerar algum acontecimento fundamental seu inseparável da música que por acaso estivesse ouvindo no rádio naquele momento. Benjamin foi porém criticado por Adorno por ser ingênuo quanto aos tentáculos da comunicação de massas que hoje poderíamos culpar pela degeneração da música na Globalização, cujo radical simplismo sonoro, quando não mera repetição hiper-redutora do já-feito, e limitação das letras a mensagem fascista, nada faz recordar a alta qualidade e as personalidades criativas e livres dos gênios da música na era pop.

36’ O funk, pagode e o sertanejo são os únicos vetores, com uma linha culta que deixou de ser popular, mas as três modalidades apenas como repetição de frames, nenhuma concepção da música como uma composição particular. A exceção tem sido a música gospel protestante, única que conservou a orquestra e o bel canto sofisticados, e quanto à voz e criatividade “pop” até mesmo mais do que o normal da linha mpb anterior à globalização, o gospel do rádio comum atual semelhando o que se fazia só no Rock não “popular” das rádios especializadas. Mas vimos também recentemente várias destas personalidades degenerarem a própria memória ao virem ao Brasil, ou desde os Estados Unidos, para fazer show- propaganda eleitoral boca de urna para a corrupção petista, regime de abuso odioso de subalternos como nada além de representantes do grande capital, caipiras delirantes oriundos de latifúndios no megafavelamento arcaico, mais todo tipo de aloprados insuflados por ideologia misógina demagógica contra os cidadãos especialmente mulheres não ninfetas, porém associado a records de privatizações a multinacionais com plenos poderes contra a privacidade.

37 A revolta contra o abuso do poder do capital no petismo foi tratada na base da força bruta, como nas manifestações que tomaram o país depois que a eliminação de ativistas políticos no campesinato nordestino, reduto eleitoral do pt-pmdb-pdt chegou ao inaceitável. Não só as manifestações foram reprimidas com espantosa força bruta como ficou documentado por inúmeros vídeos, além de terem sido presos vários atribuídos líderes estudantis, como as exigências na pauta foram desprezadas após a reeleição de 2014, para ao invés ocorrer perseguição ao poder aquisitivo dos salários especialmente dos funcionários públicos pois que geralmente exercem cargos com formação letrada como professores, médicos, policiais. Os violentos latifúndios nordestinos – típicos do que já estudou Alain Tourraine - a Globalização petista impediu serem erradicados no Brasil, assim como tem promovido heroicização da mentalidade arcaica despótica que o caracteriza, onde a escravização por dívida que assolava a Grécia do século VIII ac. é um processo simples, pois os peões, inclusive crianças, tem que comprar alimentos e produtos de uso necessário no “barracão” do mesmo senhor de terras, que cobra acima do preço, amontoando assim dívida de mera subsistência que passa de pai para filho, num valor superior ao do já abjeto “salário”, do qual até se desconta “cambão”, períodos de trabalho grátis para o patrão.

37’ Mesmo assim não raro os peões que se evadem em massa ao Sudeste inchando favelas quando ocorre mecanização capitalista no campo, conservam a mentalidade arcaica, misógina, tradicionalista, agressiva à privacidade, de franco ressentimento à livre expressão, à organização social dos direitos civis e ao cultivo de cultura letrada, que a mídia na Globalização tem impingido como algum tipo de “modelo” na própria cidade como dos partidos tipo PRP que monopolizam áreas de circulação como supermercados, igrejas, faculdades, bairros, etc., para fazerem agressividade nazista com nula privacidade a partir de associações, sindicatos como de transportes públicos, etc., relacionados a peleguismo como a crime organizado. Portanto desde o petismo se define regime ilegalista-imperialista de opressão de atendimento e extorsão monetária no Brasil, cujos setores estratégicos industriais e de serviços estão dominados por multinacionais, regime apoiado por uma esquerda internacional que tem se reduzido a mera “idiotice”, agora utilizando-se do nome de “diferença”, mais até que qualquer direita arrogando-se poderes lesivos da privacidade assim como comportamento histérico de agressividade a qualquer objetividade como até o mero conhecimento do heliocentrismo. Mas nem direita nem esquerda ostentam hoje em dia qualquer coerência ou consciência da legalidade constitucional como respeito aos direitos privados. Como não cremos que esse caos político da imbecilidade bem conveniente à corrupção e à brutalidade do trator – como o governador do pdt cearense tratou os policiais grevistas este ano, apossando-se de um trator por acaso nas cercanias para os atropelar adentrando assim “motorizado” ao quartel (como já registrei o prefeito bêbado do pdt São João de Meriti me atropelou no Centro da Cidade RJ em 1987, em frente ao Forum, quando eu voltava do estágio de biblioteconomia no Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear, tendo sido socorrida pela polícia que parou o carro do prefeito e aplicou o teste do bafômetro) ao invés de alguma irrupção do nada, não seja o resultado de um processo, como podemos atribuir trata-se de um retrocesso a mentalidades despóticas, mas não adianta culpar o “multiculturalismo” até erradamente definido como primitivismo ou as influências do capital oriental. Se eles são realmente um fator a considerar, como estamos constatando aqui a Globalização recolonizadora mapeada no conflito norte e sul não tem nada de incompatível com a tendência a um recentramento aristocratizante como redução eurocentrista da história do intelecto nos estudos gregos. O que na metodologia da mentira que nos USA tipifica Hollywood vai repercutir no mito cinematográfico de Sparta, como recentemente um filme que utilizou um ator brasileiro – mostrada como salvadora da democracia ateniense.

38 O “contra os músicos” expressa na verdade, antes que alguma atitude autoritária relativa a que hábitos devemos ter e o que devemos ou não preferir, uma concepção da vanguarda modernista Dadá – assim é exatamente no mesmo sentido de Sexto que a vanguarda provocava a pseudo-conceptibilidade comum ao indagar se o som de um caminhão passando na rua é mais ou menos “musical” do que os exercícios de um aluno principiante numa escola de música. O experimentalismo atonal e as reproduções da música não moderna-ocidental como de primitivos, demarcou o limite das possibilidades do romantismo até Wagner, conforme Carpeaux (“Nova história da música”), e assim se explica a colocação provocadora, epigramática, daquela indagação. Mas após o modernismo, o Rock e o pop exploraram novamente o sistema Rameau-Bach que estabeleceu a música orquestral europeia. Eles desenvolveram um experimentalismo de fusões multicultural como no “progressivo” que mistura Rock e música clássica; o “som experimental” como exploração das possibilidades ilimitadas da vocalização e variação, componente do pop rock em geral, mas também como no Tangerine Dream, conjunto que explorava sons não convencionais, sem compromisso com a harmonia; ou no nosso “tropicalismo” da transvanguarda que fez a fusão dos ritmos populares brasileiros – o bolero sentimental dos anos trinta, os ritmos do folclore interiorano - com o Rock. Essas são claramente o correlato do artista produtor, que hoje o business de mídia tudo faz por anular. O irônico é que o artista produtor é a liberdade encarnada, portanto não confunde imagem e personalidade. Ao contrário, a tônica da atualidade é o músico mero funcionário da gravadora, a música como repetição de frames computadorizados, mas que “tem público”, é nele mesmo, na pessoa de si, o déspota haurático da massa - um ridículo de todo óbvio.

38’ Sexto reduz pois a signo dogmático os componentes da teoria musical. Assim como os números da aritmética e as formas da geometria, as supostas regras de gramática e as classificações retóricas, os signos da astrologia ou os cômputos astronômicos, são apenas conceitos, a questão não sendo que eles devem ser simplesmente negados ou afirmados, se na verdade são tanto um como outro na pluralidade dos dogmas que combatem entre si longe do acordo mútuo possível, mas que não são a coisa mesma, ao contrário do que pretendem fazer crer aqueles que querem passar por mestres com poder para decretar o que é certo e o que é errado na prática dos sujeitos que se expressam e vivem independente de qualquer necessidade. Essa redução conceitualista é estritamente moderna, transvalorizada porém, visto que na atualidade as ciências humanas se limitam como “teoria”, estando sempre mais afastadas da condição prescritiva, não se arrogando cognoscibilidade direta do objeto mas apenas critérios de pesquisas como perspectivas independentes. Ao contrário, na Globalização a aberração prescritiva especialmente na linguística tem sido uma constante até mesmo como critério dos programas de computador que monopolizam como logos de firmas multinacionais biliardárias, dominando sobre a documentação dos países até a escrita privada, as possibilidades de expressão. Nas escolas com critérios pedagógicos passadistas, já que dominadas pelos clãs da dominação info-midiática recolonizadora, já não se limita à redação não literária e interpretação de textos. Ordenam às crianças que “façam” o mesmo que o exemplo, assim a aberração de crianças de ginásio tendo que “fazer” sonetos e trovas, isso ainda como quesitos de provas sujeitos a nota.

39 Na lírica eólia, provavelmente estabelecida entre Hesíodo e a sofística, a introdução da singularidade subjetiva é feita porém em vista do paradoxo, o Eros amargo e doce na poesia de Safo, a qual introduz, segundo Jaeger, o gênero literário das relações amorosas de homem e mulher, não obstante na origem ter tido um fundo homossexual definido. Esse gênero seria aperfeiçoado no Banquete platônico, sob as mesmas circunstâncias. O texto sextiano já não registra a decorrência do paradoxal. Coloca uma cisão muito nítida e dogmática entre percepção real e imaginação irreal, crendo que o critério do que chamarei o objeto pático, cuja qualificação é inteiramente subjetiva, basta para o discernimento do fantasioso, o que hoje não consideraríamos senão para efeitos de um positivismo ultrapassado. Mas o critério médico de Sexto, pelo qual toda perturbação do pathos provém do imaginário, é ainda a psicanalítica. O que permanece irredutível é que para a psicanálise o imaginário antecede na perspectiva da gênese à faculdade do verdadeiro.

39’ Assim a subjetividade tem um sentido autognóstico na modernidade que não se reduz a nada do mundo antigo. É interessante que W. Schlegel, nas “Lições de Arte Dramática”, tenha recusado que a antiga harpa eólia, lendariamente tocando música sozinha se deixada ao movimento dos ventos na areia da praia, fosse um exemplo coerente com o conceito romântico da arte.

40 Na concepção de Sexto de fato a imaginação não é criadora.Os males do mundo são enfrentados pelo senso perceptivo do sujeito visando sua adaptação melhor às circunstâncias, portanto não são eles que podem causar a perturbação anímica, isto é, exclusivamente pática. Ao contrário, a imaginação de quem nada sofre mas fantasia o sofrimento não tem compensação adaptativa, é um sofrimento inútil. Sexto não pensa que a retórica possa ser um remédio nesse caso, ao contrário da Segunda Sofística de Elio Aristides.

41 Eis no ceticismo um exemplo bem típico de escola de felicidade helenística. Ao mesmo tempo tudo depende do homem como ser consciente de si, mas o homem é esse automaton num mundo regido por uma sorte, uma Tique, conceituada em império da necessidade. Somente que ao contrário de Lacan, o automaton não sendo o Inconsciente, a linguagem construída como personalidade desde o imaginário. E sim um pathos, um lugar da sensação que nem mesmo pode discernir independente das aparências, sobre se é corpo ou alma, visto que ambos são conceitos, dogmas não decidíveis entre si. A alternativa ao tiquismo, ao império da sorte sendo, a "natureza" estoica, apenas repete o paradoxo antigo. Pois que podemos entender pela injunção “agir conforme a natureza?”

42 A concepção de imaginação em Sexto Empírico é interessante na perspectiva histórica e também filosófica. Snell opera uma reconstrução filológica das noções filosóficas e/ou relacionadas à natureza compositiva do homem, que teria origem nas formas verbais da poesia, especialmente Homero, onde teriam sido derivadas metaforicamente de verbos relacionados a atos físicos. A seu ver, na língua grega é sob nossos olhos “que vemos formar-se a concepção ‘abstrata’ de todas as coisas relativas ao espírito e à alma, de tal modo que podemos com exatidão seguir o desenvolvimento dessas denominações metafóricas.” (op. cit. p. 203) Nas correlações aí assinaladas, “originariamente o espírito é concebido por analogia com os órgãos do corpo”. A psiqué (alma) é a respiração, o alento que mantém o homem vivo. O thymós é o órgão dos “movimentos” espirituais e o nous é o “espírito” enquanto o que “vê” o que “cria imagens”. O “saber”, eidénai, é um “ter visto”; “conhecer”, guignoskein, é relacionado ao “ver’, enquanto o “compreender”, suniénai é um “sentir”,. e o entender alguma coisa , epistetasthai, é relacionado ao “conhecimento prático”. O termo “método” é relacionado, assim como “progresso” ou “desenvolvimento”, à imagem do “caminho”, assim como se fala do “andamento do poema”.

43 O trânsito grego da linguagem do mito à do pensamento racional seria aquele que consegue se libertar das metáforas apenas para continuar a mover-se “apoiado nas muletas da analogia”. Aqui é complicado decidir se Snell conserva ou não o limite do “suplemento” que Derrida definiu como esquema metafísico, a incoerência auto-definida Razão que consiste, como na concepção platônico-aristotélica, em conceituar uma secundariedade mais segunda que a secundariedade em si, como da escrita relativamente à fala assim estipulada em relação às paixões da alma; ou da metáfora em relação ao conceito, porém tendo ela um lugar eminente quando estratégia melhor para definir… o sentido próprio. O uso do termo “muletas” não se mostra bastante para a decisão, pois os símiles, comparações e metáforas do mito são os próprios “modelos que, de quando em quando, o pensamento elege na tentativa de chegar a um conhecimento racional do mundo.”

44 Ora, o que a “imaginação”, phantasia, não listada por Snell, colocaria nesse ponto, é a evidência de que não deriva de nenhum verbo para ação física. Em grego nem mesmo é sinônimo de “invenção”, épinoetikón, que se emprega também para tudo o que conota o “fazer ideia” de alguma coisa, realizar no espírito o que ela seja, ao contrário do que nós hoje designamos pura fantasia. Nesse sentido de phantasia, não sendo correlato do visível, também não é do sensível, pelo contrário, é o que faz ver e sentir, ainda que ilusoriamente. Ao que parece é um termo que só tem relação com o homem mesmo, o ser humano organicamente subjetivado, observado naquilo que são suas ações próprias, não componentes abstratos de um seu ser compósito.

45 Em Hesíodo há ao menos, a meu ver, uma possibilidade de interpretação no sentido dele ser um precursor do movimento desenvolvimentista humanístico que atinge o ápice no ceticismo – alguns como Mondolfo sugerindo que assim nem mesmo se pode negar totalmente o Sujeito pensável já na Antiguidade, ou ao menos não podemos negar como veio a ser pensável no kantismo, o ceticismo tendo sido o primeiro capítulo da obra que continua só mil e oitocentos anos depois, com o criticismo kantiano. Não obstante ser claro que a Teogonia versa sobre o divino ao contrário da epopeia homérica que visa os acontecimentos humanos.

46 Mas aqui teríamos um quiasma, visto que versando sobre o divino Hesíodo explica a gênese do ser-assim do homem, enquanto que versando sobre o humano, Homero explica a dependência absoluta dos fenômenos aos deuses. Na possibilidade de Hesíodo ser a expressão precursora do desenvolvimento humano na Grécia antiga, este seria pois irredutível a qualquer derivação de uma mentalidade tal que a democracia como construção do falacioso consenso demagógico, único possível ao homem, seria apenas o império da fraude de modo que se há alternativa reside na soberania do rei por direito divino, isto é, o que deus mesmo entroniza. O que restaria explicar é como, se é deus que entroniza o rei, e só há realidade divina, houve ou poderia haver passagem para um regime não monárquico. Ora, não se trata dessa explicação em Hesíodo. Isso só seria assim se esse respeito religioso fosse mesmo o freio da ambição. Mas o que a história registra é o contrário, a aristocracia como nada além de fruição despótica do poder, ao menos quando a função transitória de defesa do território que teve o castelo nas épocas de invasões e insegurança territorial - ou a função da invasão mesma como Sparta ou o Acad mesopotâmico - deixou de ser comprovável na circunstância de paz e prosperidade.

47 A pujança da sociedade leiga construindo-se em meio à expansão geral, econômica, técnica e territorial, assim unida em torno de um pensamento dessa construção do homem possível, é algo bem mais crível como a energia impulsionando o gênio grego manifesto na Polis, do que apenas o Homero arcaico na qualidade de porta-voz da cultura aristocrática. A tese eurocêntrica tão difundida da aristocracia como o fator de propulsão da cultura posterior é aliás risível por isso que assim como Acad, os dórios indo-europeus invasores eram de todo iletrados, o que Sparta persistiu ser.

48 Os historiadores registram sobre Hesíodo uma perspectiva francamente conflitiva. Ele é o porta-voz do descontentamento para com o regime aristocrático, o símbolo da mudança do regime. Ellauri e Baridon ("Historia Universal-Grécia", Buenos Aires, Kapelusz, 1958) são oportunos citar por sua ênfase no regime aristocrático em termos do privilégio da própria cidadania: "Só os nobres eram considerados como verdadeiros cidadãos, com direito a intervir no governo da cidade." (p. 38, 39) A instituição da nobreza mantinha-se intimamente unida, "acreditava descender de um antepassado comum, herói protetor da cidade, ao qual rendiam culto", e, assim "estes vínculos de suposto parentesco faziam da cidadania um privilégio que só se podia adquirir por nascimento" num dos "grupos religioso-familiares" que compunham a aristocracia por oposição aos plebeus comuns.

49 Assim vemos que se a cidadania por nascimento é uma atribuição que se mantém na Polis democrática à feição da nacionalidade moderna, isso não basta para afirmar que se trata da mesma concepção cidadã que a aristocracia, se a Polis define-se por não haver oposição do cidadão a qualquer outro status dentro do mesmo universo referencial do significado da cidadania, a nacionalidade "política". A Polis abole o conceito de direitos que são pensáveis apenas por oposição a destituídos de direitos pela própria oposição do status.

50 É nesse sentido tão básico que podemos compreender porque a Polis democrática é um regime racional na acepção que esse termo possa ter enquanto correlato da legalidade, a reciprocidade à Piaget, com um critério demonstrável da civilidade. Ele rompe com a falácia opositiva, na qual se constrói o privilégio apenas por si mesmo, na falsa demonstração de algo como contrário a si não havendo porém critério à contrariedade além do modo de ser de si assim oponível. A oposição do dentro e do fora no sentido paranóico, oposição sem relação. A democracia podemos compreender pois como a inteligibilidade pós-moderna, sim, porém relacional, na qual um conceito de relação definida abrange dois termos que por ela se interligam, bem inversamente ao conceito cassiniano de crença equívoca numa igualdade apenas fantasiosa, como o que permite aos poderosos manipularem à vontade os cordões dos fantoches, de modo que tudo depende do que os poucos poderosos do lógos querem, de como esses poucos poderosos do lógos pensam, e o poder é saber concentrar as forças do fascínio sobre esse "um" desejo.

51 E a pós-modernidade relacional aqui implica pois uma crítica à modernidade naquilo pelo que construiu um conceito reducionista da história, à sombra da crescente dominação do poder renascentista como retorno colonialista do império antigo, que tem plena consolidação no século XVII - sendo preciso lembrar o quanto o antigo foi um capital internacional tão vasto a ponto de abranger de Roma à China, assim como o colonial se tornou abrangente do “Novo Mundo”. É sintomático assim que só bem recentemente, nas vésperas da pós-modernidade conceituada, se venha equacionando a dependência intrínseca desse poder ao business da comunicação em massas. Inversamente à racionalidade da economia assalariada à Marx ou da empresa burocrática à Weber.

52 Por outro lado, se a falácia opositiva ínsita à construção mítica do poder - pleonasmo, pois não existe outra - faz parecer que a tese da divisão por oposição é a origem do mito, é preciso lembrar que reduzir todo mito a uma mesma origem é ignorar a multiplicidade dos regimes que a antropologia já não desconhece há muito. Um mito da sociedade igualitarista não se constrói pela mesma mentalidade do mito hierárquico. Assim, ao colocar Hesíodo nesse capítulo que define o regime aristocrático grego como aquele em que, se havia um rei, ele governava apenas conforme o conselho da classe aristocrática, portanto podendo ser suplantado por esta, Ellauri e Baridon referem-se não a qualquer relação de sua poesia com a mentalidade daquele regime, mas apenas com a "situação miserável das classes populares" que foi por ele "agudamente descrita". Mas esta já é a época dos conflitos entre as classes urbanas e o campesinato, derivados da ultrapassagem da idade das trevas pela reativação do comércio. As importações de cereais de regiões onde sua produção era mais barata do que na Grécia resultou na crise do campesinato, porém explorada oportunisticamente pelos nobres que se tornaram prestamistas dos agricultores não obstante terem estes apelado a eles enquanto a classe dominante que deveria estar atuando no interesse da população. Na verdade a produção agrícola na Grécia até aí conforme Ellauri e Baridon era demasiado rústica, como na separação do joio e do trigo que era feita do modo mais simples, arrojando-se o cereal ao ar com pás de madeira, quando ventava, de modo que o vento arrastasse o joio do grão.

53 Os empréstimos dos nobres ao campesinato eram feitos sob garantia não só de terras como da pessoa, resultando na escravização por dívidas, o que foi um dos motivos mais importantes na sublevação democrática contra o regime anterior. Em 594 ac.Solon promulgou a seisachteia, “supressão das obrigações infamantes”, lei que proibiu a escravização por dívidas, o constrangimento físico e arrendar terras por pagamento de sexta parte.

53’ Conforme Ellauri e Baridon: "Em seu poema intitulado Os Trabalhos e os Dias", Hesíodo "descreveu a angústia dos camponeses pobres, vítimas dos credores, e expressa resignado que não cabe outro remédio senão confiar na justiça de Zeus, que algum dia os livrará das garras dos exploradores". (p. 41) Porém esta seria a situação típica do estado de guerra, classificado pré-social, conforme Locke em seu "Segundo Tratado do Governo", isto é, aquela situação em que num litígio só resta entregar a esperança da justiça a Deus. O Estado de Sociedade é aquele pois em que há um juiz, um magistrado que julga imparcialmente entre os litigantes conforme a lei que foi na gênese da sociedade reconhecida como válida por todos os que compõe essa sociedade. Aqui podemos colocar entre parênteses as defasagens da teoria do contrato social relativamente à constituição nacional que preside a nacionalidade contemporânea liberal. A questão é se Hesíodo realmente se mantém nesse limite pré-social assim definido, como porém o que define o regime da aristocracia arcaica. Ele mesmo poderia ser considerado um Locke avant la lettre, com seus conselhos sobre como desenvolver uma roça bem cultivada explorando como trabalhador honesto um canto do mundo livre da injusta propriedade de qualquer senhorio cruel.

54 Conforme Ellauri e Baridon, a mudança do regime ocorreu pelo crescente descontentamento contra o poderio aristocrático, um poderio que vinha da riqueza pela posse da terra acrescida continuamente pela escravização do campesinato por dívida. Mas esse descontentamento enquanto agente da mudança não sendo principalmente por parte do campesinato, e sim pela nova classe proprietária da riqueza com origem não agrária. São os comerciantes enriquecidos e os artífices da nova indústria.

55 Na indústria nascente se agregavam associações que substituíam o parentesco religioso da nobreza pelo da pertença profissional. Os autores consideram a semelhança das associações como dos "filhos do bronze", dos obreiros desse metal em Atenas, com o geno Alcmeônida que se auto-intitulava "filhos de Alcmeon". Tanto uns como outros tem um culto comum que faz dos participantes parentes religiosos. Mas como vimos, não foi por essa forma que a democracia se instituiu em termos de igualdade de status da cidadania. Uma vez que o novo regime democrático introduz o conceito de cidadania, inversamente ao parentesco religioso, conforme o sentido de heterogeneidade, a pertença familiar sendo particular, não o denominador comum que é apenas a igualdade de status político. Não há pois pertença comum do cidadão por critérios então considerados privados, assim como a pertença familiar, na cidadania no regime novo, democrático, a ponto da arte pictória da olaria na Ática até mesmo apresentar a obra do artista personalizado, que assina o seu nome nos vasos, conforme Rostovzeff (op. cit. p. 129 e ss.). Já a riqueza mercantil é mais aproximada à transformação da mentalidade, e o agente importante do descontentamento para com o regime aristocrático.

56 Ora, se Hesíodo não pode ser relacionado à classe mercantil, inversamente refletindo a problemática dos camponeses, em Rostovtzeff, ele integra ainda assim aquele complexo cultural que resultou na cultura ática, concentrando o ônus do que quer que seja que possa explicar como se tornara a Grécia nos séculos VII e VI ac.: "Sem esforço e numa explosão impetuosa de gênio, ela superou todos os obstáculos em seu caminho. Conhecia as realizações do Leste, dava-lhes valor e as usava; mas, sozinha, ela excogitou e criou sua própria cultura que lhe foi peculiar - uma cultura que para nós é muito mais natural e inteligível do que as civilizações anteriormente criadas pelo Leste".

57 O modo pelo qual Rostovtzeff apresenta Hesíodo contrasta com o de Ellauri e Baridon, nisso pelo que ele coloca como a mola do descontentamento surgente do campesinato um processo de contínua ruptura da grande propriedade dos genos. A revolução econômica se conserva como o fator histórico da transformação, porém o que ela acarretou a princípio foi a ruptura da grande propriedade agrária que pertencia às famílias aristocráticas, e formação de pequenas propriedades isoladas no território da respectiva comunidade: "Em alguns lugares, esse processo resultou numa divisão da terra entre as famílias do ramo predominante que finalmente reduziu a população nativa conquistada a um estado de servidão", assim ocorrendo em Sparta, Tessalia e Creta. Enquanto na Ática e na Beócia de Hesíodo, a ruptura da antiga divisão familiar agrária, que era apenas dos genos aristocráticos, resultou na criação de duas classes, a dos inúmeros pequenos proprietários plebeus e a dos poucos grandes proprietários nobres, provenientes da casa real ou das grandes famílias. Assim, conforme Rostovtzeff, "A vida do fazendeiro pobre, expulso pela pressão dos grandes vizinhos para as colinas e pântanos é descrita de maneira excelente na poesia de Hesíodo. Ele descreve a vida árdua num pequeno pedaço de terra", onde não há nada que torne o presente menos monótono, o amanhã é matéria de preocupação constante, não há esperança de algum verdadeiro futuro (p. 80 e ss.).

58 Assim vemos que Rostovtzeff não considera a poesia religiosa de Hesíodo como um fator que pudéssemos arrolar ao status "social" na classificação que utilizamos de Locke. Ele localiza nesse âmbito como mais pertinente, sim, o que chamou a religião de Apolo. Aqui Rostovzeff contenta-se com a tese da derivação da mentalidade grega clássica relativamente à poesia de Homero, como fator da consciência da "unidade nacional" grega assim como das "peculiaridades raciais da sua vida e religião" - sem, obviamente, que isso implique que os gregos fossem nação constituída, inversamente eles eram pequenos Estados nacionais independentes, unidos apenas por um vínculo histórico e linguagem comuns. Mas Rostovtzeff não considera que a religião de Apolo, emergente com a construção da Polis que resultou na forma do desenvolvimento clássico, fosse precisamente a homérica, o que ele especifica ao escrever que, mesmo se Apolo é cultuado em função da apresentação homérica, como "deus da luz em particular, mas também deus da agricultura e da criação de gado", ele se revestiu de novos atributos, num paralelismo com Héracles tornando-se assim "um defensor da humanidade contra as forças sombrias da natureza... como protetor e salvador", e, "mais importante ainda é o fato de que, com a figura de Apolo, a moralidade surge pioneiramente como parte da religião." (citação adaptada, p. 114) E se Apolo era o deus dos gregos em geral, mas o culto de Deméter, a Grande Mãe, era reservado aos considerados aptos e puros, "contudo, não havia distinção de sexo ou posição...". Todos os gregos considerados aptos pelas regra do culto poderiam ser incluídos, assim até mesmo os escravos, "mas não se admitia nenhum estrangeiro". (p. 115)

59 Os lugares santos da Grécia Antiga se tornaram os templos nacionais, dos deuses que eram adorados por todos os gregos, como Zeus em Dodona, Apolo em Delos e Didima, Deméter em Eleusis, cujos "mistérios" se transmitiram ao mundo posterior helenístico, e Posseidon perto de Corinto e sobretudo na Magna Grécia, hoje o templo mais conservado da região ocidental grega e cuja arquitetura comprova estado já muito desenvolvido na transição ao século V ac., sendo estes templos que Rostovtzeff acentua congregado os jogos atléticos, música e poesia, que os gregos adoravam.

60 Como podemos observar, os jogos tornaram-se pois isentos da características de sacrifícios humanos a que estavam limitados na aristocracia. Ao contrário, Rostovtzeff comenta que os jogos dessa nova época testemunham a centralidade da consciência do particular. Por eles a cidade fazia a defesa de sua autonomia, e sobretudo os jovens eram muito atraídos pela competição por estarem ansiosos por mostrar sua superioridade pessoal nas habilidades requeridas (p. 119).

61 Aqui poderíamos ajuntar a invenção da moeda, que circula na Grécia vinda da Ásia Menor (séc. VII ac.), estreitamente relacionada à concepção liberal do regime, mas na especificidade grega tão relacionada à religião, como exemplifica o Zeus de Elida, cuja moeda mostra na cara o seu rosto majestoso e na coroa o vemos em um trono tendo na mão a Vitória. A meu ver, se a transformação religiosa é um elemento tão importante na construção da mentalidade do novo regime na Grécia Antiga, Hesíodo é um referencial que necessita mais atenção, uma vez que sua poesia, que tem a mais proeminente expressão na história, representa a mudança na concepção e apresentação dos deuses relativamente a Homero.

62 Como já coloquei, minha impressão é pois que ele deveria ser visto como um tipo muito interessante de mitografia, uma vez que ela mitificaria pecisamente a hiância que se expande entre o "prestígio mágico das origens", conforme a expressão de Eliade (op. cit., p. 25) e a "desmitificação" que ocorre progressivamente de modo exemplar na Grécia. Ou seja, de um modo que ao mesmo tempo não define o abandono total dos mitemas eles mesmos, mas funciona como uma desmitificação do próprio correlato fundante do mito, antes que os deuses eles mesmos, o lugar, o referencial do que ensinam. Ao contrário da idade de ouro, a idade do ferro como o mundo em que vivemos nós, humanos circundados pela providência dos deuses como artífices desse plano do universo que todos os pré-socráticos pensarão como a legalidade da physis.

62 Podemos observar que Hesíodo se conserva nos parâmetros do pensamento religioso delineados pelo panteão homérico, mas a sua tipologia das raças comporta, segundo me parece, não a tripartição de classes que Vernant supõe estar conotada como o referencial indo-europeu de Dumezil, e sim o contraste entre as condições puramente divina e humana. Ou melhor, puramente divina e a efetivamente mesclada do humano com seus deuses. A originalidade de Hesíodo está assim não no fato de pensar um recuo da divindade. Sobre isso, Eliade registra que é também recurso mítico usual as divindades esquecidas, cujo ocaso é contrabalançado por evocações súbitas, quando a necessidade obriga pelo esgotamento de outros recursos, ou ocorre sacrifícios de divindades - aqui poderíamos lembrar Jesus, mas Eliade registra muitos casos na etnologia conhecida.

63 Porém o que considero essencial é que Hesíodo narra, inversamente, o trânsito a um mundo seccionado da origem. Já isso não acontece com qualquer dos casos mencionados por Eliade. A divindade, assassinada ou esquecida, pode ser reevocada dentro do mesmo plano mítico da origem. A desmitificação aí não seria aplicável, mas a degradação do mito na estória infantil, na lenda que circula como contos para crianças, é o limite do que Eliade define como tal, de modo que nesse vácuo criado pela obsolescência da função explicativa do mito emerge o lógos na acepção do pensamento racional. Ora, Hesíodo não banaliza o mito, evidentemente. O que ele realiza é o mito não sistêmico no sentido da racionalização formal, e sim o mito de um mundo humano desmitificado apenas no sentido de que nele não há o poder que explica as ações no mundo mágico, isto é, aquele povoado por seres divinos. A efetividade é pensada como ações relacionadas a uma legalidade imanente, as lei da compensação, etc.

64 Também evidente é que na Poesia de Hesíodo não se trata de pessimismo, e podemos notar que entre a crença na Justiça que lhe atribui Ellauri e Baridon, a como eu mesma também considero, e a desesperança que caracteriza a interpretação de Rostovtzeff, há uma contradição aparente. Em todo caso, o pessimismo só se define quando há total ausência de valores, mas isso não é algo que se possa considerar nesse caso. A poesia de Hesíodo já contem um elemento de reflexão da mais alta moralidade, o que é evidente numa Teogonia dos deuses vingadores, mas creio ser também especificável uma vez que nela a justiça e a obra produtiva são conjugadas.

65 Sua linguagem poética introduz o receptor na realidade crua deste mundo humano. Ora, não se trata de pessimismo, como poderia considerar a alma crente, de um mundo sem fundamento. Hesíodo crê na moral da produção e na decisão racional do tribunal. Inclusive os Erga (os "Trabalhos..."), são um apelo aos juízes no caso pessoal de Hesíodo, como Jaeger informa, em litígio com Perses, um irmão que lhe teria tomado a herança paterna. Nesse ponto sobretudo não concordo com Vernant e creio que ele se contradiz ao admitir, à frente do trecho em que postula o tempo estrutural, onde os tempos das raças coexistem como séries separadas, o tempo cíclico (p. 94), por onde a mensagem à raça de ferro seria ser extinta por Zeus que assim recomeçaria o ciclo, não existindo porém indicação precisa de Hesíodo a esse propósito.

66 Ora, se o recurso mítico opera a instalação da recepção neste mundo dos humanos, há vários elementos que o introduzem. O mundo em que a velhice destina a juventude, a prudência consistindo em previsão e providência, é também mundo não pensado antes como tal. Os homens se obstinam na fantasia do sobrenatural que os religiosos entretecem, porém o que devem fazer é organizarem seus recursos por meio do labor meticuloso que, assim, já é produção, a conjugação de esforço com a meticulosidade e as invenções que o reduzem, inversamente a apenas labuta coercitiva. Essa organização evita os percalços e por meio da boa lei instaura a justiça pós-aristocrática, não-ordálica.

67 Se ao contrário da desesperança que pressupõe Rostovzeff, Hesíodo pensa num bom futuro, é que esse mundo prevê pois o progresso. O retorno da boa lei torna-se função dos humanos fazer conforme sua deliberação. Mas se essa interpretação for verossímil, então é coerente considerar que inversamente às aparências, o poema tem por escopo introduzir à mente a realidade dessa era dos humanos. Se um mito costumeiramente versa sobre um referencial único, um personagem através do qual as múltiplas significações são a pretexto introduzidas, seria pertinente indagar qual é nesse caso.

68 O mito das idades ou das raças surge como informação insuficiente. Qual é a Idade ou raça que define o referencial do mito? Na tese de Vernant as raças se contrabalançam, nenhuma delas detém primazia, não porque não seja a de ouro o modelo da justiça cujo oposto, a hybris, figura o essencial da antípoda, de ferro, mas porque a oposição justo/injusto articula aquilo que as raças simbolizam, a tripartição fundamental das classes: soberania, militar, camponesa. O escopo do mito seria um feudalismo idealizado, conjunção de realeza aristocrática e servos campesinos, com a referência da guerra (os exércitos do rei centralizado) como o mal e o que precipita a antinomia entre os gênero de ser "totalmente jovem" divino da idade de ouro, e dos homens desde o nascimento velhos na idade de ferro.

69 Mas a tese se choca, primeiro, como já vimos, com o fato de que Hesíodo nem sempre se traduz como dirigindo a função do juízo a um rei oriundo da aristocracia, um senhor de terras local, e sim já à função especializada do juiz. Esse ponto é controverso, mas o título mesmo dos Erga traduz o escopo do poema que não se limita ao mito das idades, mas versa sobre o que convém à produção, sendo o conteúdo um guia do agricultor, mostrando-se o que é bom fazer conforme a época, as estações do ano e os dias do mês, mas também em geral como não contratar empregadas mulheres que tenham crianças - Aqui, conforme a tradução que conheço, o importante a assinalar é que o pequeno agricultor é ou se tornou dono da terra. Também mais como focaliza Jaeger, o pensamento de Hesíodo me parece bem tipificado se mesclarmos ao que hoje seria o gênero almanaque do agricultor, a questão da justiça exemplificado no litígio de Hesíodo com Perses, o irmão que segundo ele o defraudou na questão da herança. Um litígio de tribunal, com o apelo do injustiçado aos juízes para que não se deixem comprar pelo ladrão que por ter roubado tem posses para subornar. Vemos que ambos os tópicos são exclusivamente comezinhos, pensados na efetividade mais prosaica, sem recurso a mito algum. Mas também que são exemplares, um valor de exemplo que, também ele, só é universalizado a partir de um pensamento atado ao mundo prático.

70 A interpolação da contenda com Perses é justificada pela exemplaridade do litígio, uma vez que ela já envolve o processo público, o julgamento por um tribunal de justiça. Ao menos é a versão que usualmente se tem, bem tipificada por Jaeger, pela qual Hesíodo expressa a introdução do período jurídico, antecedendo o democrático e as leis escritas. A meu ver não há muitos motivos pelos quais se devesse desafiar a versão costumeira. Em todo caso, é garantido que o litígio com Perses deva ser resolvido por decisão dos homens, o que espelha o ideal que os norteia, o qual espera Hesíodo que seja da justiça num paralelismo notável com Locke, pelo qual justo é usufruir dos frutos da sua produção, injusto ou dominação é usufruir dos frutos da produção alheia.

71 Algo que me parece inegável é que em todo caso, Hesíodo não considera que a justiça decisiva do litígio seja a Idade de Ouro. Assim um tema comum entre Locke e Hesíodo é a natureza. O estado natural em Locke é usufruto do labor próprio, mas havendo a dominação (crime, monarquia absoluta ou escravidão), o estado de sociedade é o retorno da fruição justa porém já segundo leis do tribunal prescritas, inversamente ao simples ser das coisas. Em Hesíodo se natureza e sociedade parecem ainda confundidas, de fato há uma irredutibilidade flagrante que é o fato de que no mito aristocrático "natureza" ou divino é a soberania, o contrário do que ocorre em Hesíodo, onde "natureza" já é o ser assim das coisas.

72 Porém o ser assim das coisas conforme as idades, o que pressupõe que ele não pensasse o trabalho no sentido da labuta sempiternamente igual, uma falsa moralidade da força física, mas sim como produção, aquilo que se desenvolve em vista das invenções e providência. Se for desse modo, não obstante todas as críticas dos pré-socráticos a ele, Hesíodo já tem uma noção da physis como a que eles mesmos estão tratando. O locus de Hesíodo zombeteiro dos "reis de sentenças tortas" e "comedores de presentes" é pois abstraído por Vernant, que porém considera que Hesíodo pode estar criticando o rei injusto apenas tendo em vista um justo.

73 Um cotejo de Hesíodo e os pré-socráticos seria instrutivo, porém aqui é suficiente observar o que definimos como o elemento realmente transformador, de modo que a propósito dos pré-socráticos, não obstante a versão estrutural do prolongamento do mago da antiga realeza - quando na verdade o mago empedocleano é emprestado da Mesopotâmia porém adaptado à particularidade da pessoa inversamente a pertença de casta sacerdotal - não há dúvida possível sobre o estado social classificável. Esse elemento creio ser bem evidente como o pensamento do devir. Ora, não há mito do devir.

74 Em Eliade como vimos, o homem arcaico é o ser fantasístico da essência, e na versão estrutural não há diferença do clássico ao arcaico senão como variação do mesmo ser. Em Heidegger, o "Ser" enquanto pré-socrático é justamente o que não se opõe ao devir - motivo pelo qual podemos questionar a centralidade do ser em vista do "aí". Heráclito bem expressava-se ao negar que Zeus sempre quisesse - ou sempre não quisesse - ser chamado Zeus.

75 O devir é então o que Hesíodo introduz como o elemento específico do mundo humano laborante, porém são os pré-socráticos que pensam este mundo em termos de natureza explicitamente, não obstante essa ser uma natureza estritamente como ordem da legalidade. A inteligibilidade é portanto já social, pois o elemento da legitimação é o mesmo que o da Cidade. Cassin considera a meu ver nisso com certo propósito, que ser grego é ter uma concepção do sentido restrito à observância da lei, assim a natureza mesma só é pensada pelo viés da cultura, como uma possibilidade do saber. Ao contrário, não é que o bárbaro não tenha lei, impossibilidade neste mundo, mas sim que ele ignora não ser só ele que a tem. Ele confunde conteúdo e forma porque não entende a esta, se atém àquela. Assim em Hesíodo estão misturados natureza pré-socrática e produção social, ainda que esta só vislumbrada como uma possibilidade da justiça, enquanto os pré-socráticos já a consideram inerente ao ser. Mas por isso mesmo Hesíodo e os pré-socráticos se mantém nos antípodas da sofística como o pensamento de um mundo exclusivo da lei social – a lei natural não é que não exista, mesmo se derive do acaso, mas saber o que é se restringe à função da opinião, como hoje se designaria uma teoria em sentido não platônico.

76 Aquilo em que Hesíodo não é Heráclito, podemos ver. Na idade dos homens, neste mundo da ambiguidade entre o bem e o mal conforme a uma escolha que não se faz pelo conceito mas pela ação, Hesíodo preservou a incorruptibilidade dos deuses, Zeus e a justiça. O mundo mesmo enquanto natureza é inteligível de um modo não dialético, pois se há ambiguidade, uma razão maior a explica. A injustiça não é infundada como apenas o avesso, automaticamente disposto dada a presença da justiça, e se em Heráclito a justiça reina só, mas como o lógos imanente à alternância dos contrários, então ele se coíbe ser um pensador da injustiça, o que Hesíodo não deixa de ser. Para Heráclito, só ao homem cabe a culpa. Ela não é o lote da idade do ferro.

77 Em Hesíodo a injustiça é erro relativo a um processo natural, assim como só se seguiria o mesmo prato se a receita não fosse alterada. O erro é a injustiça contra alguém, o abuso de direitos naturalmente estabelecidos.

78 Os contrários, nesse sentido de bem e mal não são ínsitos à natureza, o erro é tudo aquilo que for contrário a esta. Mas com a consequência da introdução do problema da desigualdade que repercute no mundo humano, enquanto que em Heráclito a nescidade dos homens por seu afastamento da natureza como lei à imagem da Polis, é algo que está por ser equacionado num pensamento voltado explicitamente à physis como ao devir. Nesse contraste podemos ver como emerge uma temática muito praticada em Heidegger, que Arendt tangenciou na consideração da origem da história na Grécia. É o tema do homem como o que é temível, uma vez que referencial da desordem no seio do regrado tautologicamente como “natureza”, que Heidegger comenta sobre o coro de “Antígone” - para Arendt a história sendo a narrativa sobre esse fortuito humano, retomando o mito homérico naquele momento em que na corte dos Feácios, Ulisses ouve serem recontadas suas próprias já lendárias peripécias de viagem. Ela julga assim que essa é uma estimativa do próprio Aristóteles, mas por um lado, Heródoto não expõe o que Aristóteles define como destino – não o que qualquer um fez ou o que lhe aconteceu, mas o encadeamento de acontecimentos quando age neles um ser sobrenatural, o que é o caso do teatro que encena o mito moralizante. E também Heródoto não se cinge ao fortuito conforme a oposição a que Aristóteles se cinge: o destino universal sobre-natural na Poesia (drama/epopeia), ou o fortuito, sem sentido, fazer humano na História. Mas às relações estritamente sociais – inclusive internacionais - que estão envolvidas num acontecimento propriamente histórico, a guerra com a Pérsia e a vitória surpreendente dos gregos: “Enquanto a maioria dos atenienses lançava-se em perseguição aos fugitivos, os outros tomavam conta da cidade”, na referência ao último cerco, na praça de Sestos (livro IX, CXVII). Isso numa guerra contra os medos com quem colaboravam exércitos de inúmeras nacionalidades, entre as quais vale citar além dos Persas, o exército da Índia, dos árabes, lídios, líbios, egípcios, etíopes, citas (russos), sírios (“capadócios”), trácios, e vários outros citados, cujos armamentos e vestimentas Heródoto apresenta minuciosamente (VII, LX, LXXX).

 

A aletheia, Por Antinomia

 

 

I Aristocracia e Polis : o complexo cultural

1 A célebre fórmula da adequação da coisa ao intelecto, de Isaac Israeli, judeu egípcio produzindo entre os séculos IX e X, introduz melhor a questão moderna do enunciado válido. Ou seja, nem precedida pela projeção de um saber revelado imediato a partir da mântica divinatória, nem confinada à idiossincrasia, seja de indivíduo ou espécie.

2 Na relação com as coisas, com o mundo natural, a Idade Média a Leste, árabe ou judaica, desenvolveu um aristotelismo sui generis, da imanência, onde a potência não se separa do ato, mas resulta numa concepção ativa da matéria prenhe das formas. Esse conceito que Ernst Bloch seguiu de perto na filosofia de Avicena, e considerou fecundar o renascimento ocidental inclusive o Aufklaerung, ressoa com o que Bréhier atribuiu ao platonismo como movimento anti-aristotélico no medievo ocidental tardio. Em todo caso, há superação do limite que interdita a ciência da natureza numa acepção da metafísica que não define apenas a postulação de princípio. Não creio que isso seja bastante para explicar o Método Experimental e Galileu, inversamente ao limite probabilístico da ciência assim irredutível à teologia, introduzido por Pascal, precedendo-se pela descoberta das Américas, realidade puramente empírica. O que tem sido omitido na história das ideias, para fabricar-se uma unidade do saber como trajetória intrínseca daquela Europa idealizada como continuun desde a Grécia Antiga.

3 Na questão da Alétheia, porém, designando o entorno grego, vemos que este mantém algo de irredutível à interpretação medieval platônico-aristotélica. Nessa interpretação, a Leste teria havido, como Bloch notou, liberdade relativamente à censura católica do saber. Porém mesmo essa liberdade não basta para explicar a defasagem entre um pensamento da natureza totalizante, como ainda no Renascimento, e já científico-objetiva como do século XVIII newtoniano em diante. Se o Platão e Aristóteles gregos não são os medievais, o que resta em comum, não obstante o retorno da imanência nas versões não tomistas da metafísica, é a sacralização da natureza pensável, a idealização que desde o platonismo interrompe o desenvolvimento da cultura leiga, anti-aristocrática, de Hesíodo aos pré-socráticos e sofistas.

4 Com efeito, a explicação da doxa como campo do pseudés, o falso, nos termos estruturais de um deslocamento tal que apenas conserva a antinomia inicial aletheia/lethe, permanece questionável por não deixar focalizar sobre a coisa mesma. Ora o fato da doxa, a opinião, não ser necessariamente o falso, mas o relativo à subjetividade ou ao “nomos” que decide apenas sobre o exclusivamente humano, lei que é opção livre da sociedade, sobre questões que não tem na natureza um modelo a seguir – e quanto a isso vemos o quanto é o oposto do arcaico anterior, pois neste a mântica fazia a natureza algo mutável conforme o poder dos deuses e dos homens que eles castigavam ou favoreciam, enquanto as relações sociais e os costumes privados eram imutáveis, a sociedade reduzida à hierarquia estabelecida em si, assim como o aristocratismo de Nietzsche ainda objetava a Locke, no Para Além do Bem e do Mal, o factum da hierarquia, ou como a mídia de hoje fantasia seus super-heróis, Netflix, etc.; ora devido à irredutibilidade flagrante entre a concepção de esquecimento, relativa como é a um conhecimento da tradição oral fixa quanto ao conjunto conteudístico, e a concepção de falsidade, cujo correlato de não-ser é o fato qualquer da experiência mutável.

5 Se o que emerge do trânsito de um a outro conceitos de saber na Grécia Antiga é um criticismo do dado, primeiro evidentemente este precisou ser pensado por si só, como o correlato possível – sim ou não – do verdadeiro. A origem não podia ser a mesma forma mentis do que mudava, algo novo deve ter se introduzido como uma auto-apercepção que não havia antes. Sparta, a mais conservadora das Polis quanto ao pensamento arcaico, realmente se limitava politicamente ao voto sim/não nas assembleias – o que em todo caso implica a auto-consciência do ser humano na heterogeneidade da doxa e o correlato do logos como fato comum. No plano antropológico-social da Grécia Antiga, como vimos, podemos interpretar o deslocamento dos próprios agentes que protagonizam o evento conceituador da História. Esses agentes históricos novos, portanto que protagonizam a mudança social, mais que uma transformação econômica ou do regime político, são personagens relacionadas a classe, os novos atores econômicos, grandes comerciantes, expansionismo colonial, campesinos explorados; mas também as mudanças religiosas, culturais e sociais que esses agentes introduzem na relação com o entorno oriental a partir da expansão comercial, não são compreensíveis apenas como mescla do novo e do antigo, o oriente antes desconhecido e a religião homérica.

6 Os novos agentes históricos não sendo a nobreza arcaica, a mescla do novo é com algo que não conhecemos bem. Uma pista a propósito do que eles eram como povo foi dada por Jaeger na Paidéia, mas aí o “povo”, extrato populacional irredutível aos nobres cultos, é tratado como restrição da inteligência, limite dos valores a vitupério e elogio públicos. Como veremos à frente, a antropologia francesa não discorda muito disso, não obstante alçar a retórica sofístico-democrática restrita a fabricação de elogio à única posição anti-metafísica possível, o que evidentemente não parece muito vantajoso para os críticos da metafísica. Já o comentário de Snell sobre a posição de Térsites em Homero parece mais conveniente ao que aqui considero.

7 Um pouco como Paul Veyne, Snell pensa que os gregos acreditavam, sim, nos seus mitos. Porém não como ele ou Nietzsche explicam, porque o homem comum, nobre ou plebeu, sempre quer algo em que acreditar, a fé não sendo decisão racional mas envolvimento passional, correlato da superabundância de forças. Só os dispépticos, esses tipos de santarrões que, até eles, na Grécia tiveram que fazer evolução ao filósofo socrático ou cético, suspeitam, examinam e querem “saber”. Inversamente ao que Veyne e Nietzsche parecem supor, essa posição da passionalidade, na fé como no senso

comum, é a descoberta propriamente romanticista do homem, contra a alma classicista. Ao contrário do que Nietzsche pensava, o cristianismo não se mostra portanto necessariamente a corrupção socrática da inocência neste mundo.

8 Já Snell assim escreve: “Em Homero não são os fracos, mas sim os fortes e os poderosos os que mais próximos estão de Deus; o sem-deus, aquele de quem os deuses não se aproximam, a quem eles nada doam, é Térsites.” (p. 31) Essa é uma sentença enigmática no conjunto de um texto que trata do fenômeno religioso na Grécia antiga. Está aí como que de raspão, o escopo do texto sendo inversamente mostrar que “os gregos”, para quem os deuses existem como “deuses gregos”, não acreditam neles de um modo que possa ser comparável a uma fé cristã ou hebreia, como aposta à Pascal acerca do que não vemos, credo quia absurdo. Os deuses gregos são o visto e o visível, os fenômenos naturais, e é por isso que Heródoto reconhece os deuses gregos em todos os que reporta como bárbaros, Apolo-Horos, Ártemis-Bubastis, e quando não consegue uma similitude, quando “conhece mesmo algumas divindades bárbaras para as quais não pode indicar um nome grego... trata-se exatamente, no caso, de deuses especificamente bárbaros”. (p. 24)

9 Sem nos importunar o contrassenso aparente, resta indagar como Horos, o próprio filho de Ísis, veio a não ser tão especificamente bárbaro, tão nacionalmente egípcio, como qualquer outro deus do mesmo panteão. Na verdade Snell é menos incoerente do que parece, se lembrarmos que a estória bem grega da perseguição de Io por Hera vai culminar na transformação da perseguida na deusa Ísis – objeto dos amores adúlteros de Zeus, por ele transformada numa vaca aos olhos alheios para que Hera não suspeitasse; aquisição da novilha por Hera, que já suspeitando da fraude, a requisita a Zeus e incumbe a vigilância da bezerra a um monstro de cem olhos; libertação do animal por um estratagema de Hermes que mata o monstro; transformação dos olhos do monstro na cauda do pavão por Hera; errância da vaca até o Egito (para alguns perseguida por um moscardo mandado por Hera); súplica de Zeus a Hera, que então permite Io tornar à forma humana mas não pode voltar à Grécia; nascimento do filho Epafos, pai de Dânaos e Egito (protagonistas da lenda das danaides); transformação em Ísis. Nada de terrificante em qualquer estória dos deuses gregos, conforme Snell. Nenhum absurdo que requeira fé. Somente o espanto, no sentido da surpresa, do maravilhamento perante o belo, convindo pois a citação de Goethe: “A coisa mais sublime que pode acontecer ao homem é o espanto”. (p. 39) Até mesmo, francamente ao inverso de Detienne, para Snell em Homero não se trata de “magia que tenta subverter a natureza” os deuses mesmos estão sujeitos à ordem estabelecida, regras até da intervenção deles na vida terrena, limitam-se a inventar ou transformar, não criam do nada.

10 Snell não concorda pois com o que a meu ver é a ordem inversa da lei como Nomos, civil. Não apenas a lei como Physis, natureza, mas todo o pensamento arcaico que a totaliza, para o qual é ela que pode ser alterada pelo poder do sobrenatural. Snell supõe expressamente que o deus grego nunca altera a ordem natural, pois que a personifica. Um presságio ou milagre que se peça ao deus grego deve parecer apenas um agaθη tucη, àgathê Tícke, “feliz acaso”. Snell abstrai aí que Tické é o nome grego da deusa da fortuna.

11 Mas de que modo a transformação de um indivíduo numa vaca poderia ser assim considerado, inversamente à alteração da ordem natural? Se Térsites é tão grego quanto qualquer outro, mas para ele os “deuses gregos” não são a realidade natural, o que Térsites pensa do mundo que o cerca? Que é ordenado por uma lei material ou que é fortuito, sem lei? Não sabemos, e Snell não parece ter-se colocado a questão. Ele se limita a esse breve comentário após ter ponderado que em Homero, sempre que uma ação incomum se efetua, é porque Deus interveio, mas assim qualquer ato não próprio significa “ação cega, louca, abandonada pelo deus” - portanto, exemplifica-se: Térsites, o sem-deus.

12 Quanto à comunicação do homem do povo, desde a posição totalmente marginal na epopeia até o status cidadão na época da Polis, não há dela consciência no texto. Na época da Polis, ao ver de Snell, o processo contra Sócrates é algo incompreensível – como se pode acusar alguém de não crer no que está todo o tempo à frente do nariz como os fenômenos naturais, ou mesmo em si?Impensável na era homérica. Mesmo na Polis a “asebeia”, a “impiedade”, só poderia ser acusação de não valorizar, nomizein (“nomizein”) os deuses - essa a raiz do termo “numismática”, coleção de moedas, literalmente o cultivo do que tem valor. Snell não considera autêntica a tradução desse termo por “crer”.

13 Por outro lado, a seu ver a verdadeira religião grega já não era praticada. A condenação de Sócrates à pena capital por não “nomizein” os deuses, a expulsão de Anaxágoras e Diágoras, por negá-los, resultaram de “processos ditados não pela juvenil intolerância de uma religiosidade vigorosa e consciente, e sim pela irritação provocada pela defesa de uma posição perdida. Sobre a fé de um tempo ainda unitariamente religioso eles ainda nada nos dizem.” (p. 25) O termo “fé” mostra-se aqui, ao contrário de antes, oportuno.

14 A irritação está canalizada, ademais, pelo interesse político. Contra Anaxágoras, a intenção era atingir Péricles, e a questão não versava sobre a “fé” como conteúdo dogmático, substância da opinião – ao contrário da Inquisição. Somente sobre o respeito, a afirmação, ou o contrário, a negação, da coisa mesma, a existência dos deuses. Mas se Sócrates jamais os negou, ao contrário da similitude de posição acusada que Snell atribui a ele e os outros citados, devíamos notar que não são os deuses na acepção qualquer o que está na pauta dos processos, e sim os deuses da Cidade – Sócrates é acusado de introduzir novos, portanto a falta de respeito se refere à lei nacional.

15 Podemos nesse ponto considerar acertada a posição de Derrida quanto à Antiguidade como, o mais geralmente considerado, um pensamento como o platônico para o qual os termos de uma oposição não são relacionáveis entre si, são o todo outro. Na Grécia, não obstante Heráclito e na própria Cidade sofística, todos sabem que o adultério é a arte de Afrodite, mas a instituição conjugal é a fidelidade monogâmica, pelo sim pelo não, em vez de considerar o que pode acontecer como natural, se acontece deve ser punido exemplarmente como a falta de um lado, o dever de outro. Porém hoje em dia é assim que se considera a pobreza e a riqueza, e a fidelidade de Derrida a Nietzsche o impede de questionar o factum da hierarquia, palavra única com que Nietzsche supõe poder refutar toda a “teoria política” de Locke. Se Marx está aí para nos desmentir, não devemos esquecer que nenhum partido comunista relega ao povo a decisão, só à cúpula do partido, a “vanguarda”.

16 Tanto mais a redemocratização desde os anos oitenta libera tais partidos, desde a Globalização dos noventa já não se pratica o liberalismo comportamental da era pop. As revistas popularescas assim como os programas de televisão dirigidos a pobres à base do imperativo “isso é escândalo”, e no qual até mesmo se coloca gente para brigar o mais vulgarmente possível, atacam grosseiramente, com ar histérico, o adultério de estrelas, praticando a linguagem caipira, o “chifre” do coitado “arrazado”, “humilhado” - assim incitando a revalorizar aquela lei de “legítima defesa da honra”, tão típica do Nordeste, desusada mas ainda utilizada no caso Ângela Diniz (1976), pela qual o homem que se supõe “chifrado” pode matar a mulher que é absolvido.

17 Uma função do jornalista paranoico da atualidade a vigiar cada passo dos famosos se faz paga bem caro pelos donos dos canais de mídia, boletins cativos na página inicial. Pode-se objetar em defesa de Derrida que nem ele nem ninguém disse que a metafísica morreu de todo. Porém o que realmente significa sabermos, hoje, o que é a metafísica, como quem conhece a causa de uma doença? Se a patologia é social, se ela é a clausura de um tempo histórico, já desenhada desde Heidegger, como podemos saber? E o que vale esse saber?

18 Aquilo que entra na pauta do subjetivismo da Polis, totalmente em ruptura com a presença numênica da origem arcaica, não são conteúdos da tradição religiosa, sobre que versava a lei civil. E quanto a esta sendo matéria de consenso em se tratando do contexto da controvérsia, a democracia. É bem claramente o fato empírico. Por outro lado a Metafísica pós-democrática emerge com plena consciência de que este era o obstáculo à pretensão restauradora da aristocracia de que se fazia porta-voz. No século XIX o percurso da legalidade romanticista ao positivismo ditatorial, comteano ou marxista, e logo depois o anarquismo anti-estatal autoritário funcionalista, semelha uma repetição do mesmo. Como establishment, a aristocracia é o “apodítico” à Husserl ou Nietzsche, o a priori da hierarquia social dos impérios neocoloniais. Não havendo justificativa além da oposição pela oposição, do baixo e do alto, segue-se a “argumentação” transcendental, como objetivo de impedir que a exigência da justificativa seja ela mesma justificável.

20 O universal socrático, seria trivial registrar que não é empírico, mas sobretudo ainda se confunde a verdade aristotélica com a precursora do empirismo. Quando na Metafísica, Aristóteles o define enquanto um fato verdadeiro mas que não foi pensado pela mente de Deus, assim não concatenado à teleologia pressuposta do mundo, "a coisa mais desprezível do mundo". Se a interpretação oriental ajustou Aristóteles à imanência, não devemos considerar a meu ver que isso bastasse para algo mais do que o limite do mundo no misticismo.

21 O fato mais desprezível do mundo, por si só, aí, é a coisa acontecendo na exterioridade absoluta à mente de Deus. A mente de Deus é aquilo mesmo que em Sócrates e Platão o mundo das ideais. Imaginar pois algo que não é cópia do modelo ideal, ou, em linguagem aristotélica, que não é derivado de Deus atualmente pensante, torna-se na metafísica a disposição superlativamente penosa. Não se pode, com efeito, separar a gnoseologia e a ontologia de sua política aristocrática, como se preservou no medievo ou já como na interpretação aristotélica da própria Polis. A oligarquia dos senhores que por sua própria natureza mandam nas mulheres, nos filhos e nos escravos, que nessa mesma ordem mandam nos seguintes até o escravo oriental que não delibera, se limita a animal de carga. Aristóteles inaugurando assim a opção funcionalista entre as opções até aí restritas ao empirismo sofístico e o idealismo absoluto do sábio platônico, em matéria de ciências políticas. Não sendo a toa que ele é a influência suposta não-metafísica de Heidegger e Arendt. Ao menos na Grécia não creio muito nessa perspectiva.

22 A personificação da aristocracia pode variar entre Platão e Aristóteles, desde a nobreza palaciana até a elite masculina e senhorial da Polis escravocrata, mas o traço comum é o anátema da igualdade de status, relacionada – perfeitamente ao contrário da ciência cética - à inconceptibilidade da existência factual, e sendo, circularmente, o mundo modelar do qual deriva este designado único inteligível precisamente por ser hierárquico. O círculo – é hierárquico porque é modelar, é modelar porque é hierárquico – enunciado em nome da, e como a, Razão universal.

23 Nessa concepção pueril, não há inteligibilidade na presença que não da essência. Não, pois, se enquanto tal ela é o mesmo que toda outra, tanto mais que, se nelas mesmas diferem nitidamente, sua diferença não anula sua essencial equivalência. Ao contrário, essência só se atribui inteligivelmente à diferença que anula a ontologia do fato da presença como fato, para fundar sua presentificação num possível do que difere, de um modo único, o escalonamento hierárquico do baixo ao alto.

24 O que nos ensina a tese da ruptura democrática na Grécia, se logo a vemos subvertida por um movimento interior à sua vocação eletiva, a filosofia, a liberdade da expressão ela mesma? Até hoje, com exceção de Hegel, não se vê muitos elogios à sofística entre os historiadores da filosofia. Bréhier os põe na conta de humanistas, mas se tão pouco se conservou deles como dos pré-socráticos, não houve perda, pois assim também o naturalismo iônio, o racionalismo da Magna-Grécia, a religiosidade de Empédocles e dos pitagóricos, “logo veremos todos esses traços se unirem no mais prestigioso dos filósofos gregos, em Platão”. (Histoire de la Philosophie, Paris, Quadrige-P.U.F, 1989, p. 75) O humanismo aí não é o bastante para ultrapassar o balanço do movimento. A pecha ao não-filosofia, que não considera ter havido de fato uma crítica ao dogmatismo. Apenas virtuosidade que só chega a uma erística, “tal foi, malgrado os talentos superiores dos sofistas, os resultados de uma concepção da vida intelectual unicamente dirigida pelo sucesso.”

25 Mais que o percurso do século XIX, seria proveitoso o paralelismo desse destino com a nossa época atual, quando já não basta para a caracterizar nem mesmo a rubrica do pós-moderno como superação definitiva da unilateralidade de princípios – ora descoberto até no pecado ou na virtude do modernismo, conforme se ame ou se odeie o “pós-”, e mesmo de um Dadá. Pois já está bem delineado no horizonte a determinação Neometafísica – não só que poderia exemplificar Aubenque no “Faut-il déconstruire la Métaphysique?”, mas lembrando que no Brasil estamos sendo governados pelo tomismo olavista, e já Deleuze-Guattari em “O que é a metafísica?” tinha voltado atrás com relação aos estoicos para eleger Platão o pai do conceito e excluir o Oriente dos meios pensantes – como tudo que não Inglaterra, França e Alemanha… Uma época porém que já contava, com a Teoria do Inconsciente, aparentemente com o necessário para evitar qualquer retorno fascista.

26 Como a Grécia demonstra, não se pode acusar a subversão da democracia de não ter tido nada que a apoiasse naquilo mesmo que subvertia. Porque acreditavam ou não nos seus mitos – e Guthrie é um dos citáveis entre os que acham que entre os sofistas de fato pouco ou nada se acreditava – em todo caso a Atenas democrática expulsava filósofos mesmo se não fossem como Sócrates, abertamente espartanos e subversivos. As leis da Polis não eram muito relativistas quanto aos costumes, como salientei no exemplo do adultério. As mulheres em Sparta tinham até mais liberdade que em Atenas. Se a ruptura é uma tese postulável, mais vale colocá-la sob a rasura de um complexo. A moda dórica suplantou a iônica em Atenas, antes da guerra se tornar um fato. A ruptura teve, em algum momento, em algum lugar, que travestir-se de continuidade. Isso não anula a evidência que Rostovtzeff assinalou, sobre que em Atenas, o que causava espécie a todos os que a visitavam, andava-se nas ruas sem sombra de desigualdade, escravos e senhores, nobres e plebeus, ricos e pobres. Porém segundo ele, essa política de desatenção aos ricos, como outros também lembraram das exigências sempre renovadas de contribuírem com as necessidades da Cidade, deve ser considerada a maior responsável pela queda do regime.

27 Mas até a guera do Peloponeso a escravidão era uma possibilidade de gregos por gregos, como em Sparta, e pelo que vemos nas políticas do mandonismo do Sócrates platônicos e Aristóteles, a atribuição de obediência e mando por natureza é um pivô doutrinário. Temor de que os escravos sejam livres, como os sofistas possibilitam com a tese da escravidão apenas pela lei civil – esta que pode ser mudada. Já entre nós, o neocolonialismo impulsiona a transformação da Grécia na unidade aristocrática. Na metodologia funcional, celebração heidegger-arendtiana de um Aristóteles eminentemente prático, mas por aí a concorrência: quem pode se considerar o verdadeiro intérprete do prático, Arendt ou seu amado-odiado mestre – rivalidade sem motivo, retruca Kristeva, na biografia de Arendt. Não vê que ela a amava, a ela? Radicalização sistêmica dos estruturalismos: da antropologia francesa a Foucault e Derrida, a Grécia reduzida a Platão. Deleuze-Guattari, os retardatários, afinal se alinham na tendência, com o já citado “O que é a filosofia?”. Ao longo do século XX, a crítica da metafísica não cessou de se confundir com o seu criticado. Esqueça-se tudo sobre o Império Romano do Oriente, o Cosroe persa, Averrois, Avicena e Bizâncio. Na esteira da fabricação em série, uma Grécia ultra europeia.

Nem se pense que isso é novo. Peri vestido à grega em plena selva, cromo dos jornais em pleno romantismo brasileiro, propaganda da independência nacional reproduzida agora nos manuais secundaristas de Literatura.

 

 

 

 

II Escritura e Verdade

 

 

1 Podemos identificar a mesma paralogia que vimos sobre o círculo ontológico, quando se trata da escrita no Fedro. O erro de se confiar nela, a mácula intrínseca ao fato da letra, é apenas ater-se a ela como fato. Mas quanto à escrita, é algo surpreendente o corolário. Se assim for feito, segundo Sócrates, alguém escreverá verdadeiramente, isto é, estará crendo que a verdade está se produzindo como inteligível factual pelo fato de ser escrito. Eis o impossível. Sócrates considera tal crença limitada ao erro, como alguém tomar a imagem pela coisa (277 d). Mas aí o confronto não é tanto tomar a imagem de coisas quaisquer cotidianas por elas mesmas, mas a imagem do justo e do injusto, do bem e mau, como dos modelos ideais que regulam a natureza.

2 A escritura se conserva útil, conforme Sócrates, somente no escárnio de si mesma. A instrução de Sócrates sobre o escrito preenche o parágrafo 278 a;e. Sócrates opõe o filósofo e "o poeta, autor de discursos ou leis", como mais geralmente o pensador e o escritor. Se um pensador escreve, isso não se torna desdouro para ele porque, primeiro, cerceia a escritura de qualquer finalidade própria. Essa censura é interessante observar de perto. Pois o que Sócrates considera é que a finalidade própria da escritura existe "necessariamente", ou seja, aquilo que grosso modo tratamos por literariedade, com um parentesco evidente com a retórica, porém a esse dom reduzido ao espirituoso na letra ele recusa o atributo da seriedade, para reservá-lo ao denotado. Ora, o denotado não se situa na escrita, mas, ao contrário do que Derrida parece ter suposto, também não nos fatos, e sim somente nas ideias. É por isso que um segundo item é acrescentado à justificativa do pensador que escreve sem se tornar o oposto de si, o escritor. Nesse item o conteúdo do discurso, isto é, do escrito, é limitado, somente sendo sério "o que versa sobre a justiça, a beleza, e a excelência".

3 Estes tópicos são com evidência ideais, mas também as escritas assim limitadas devem ser "proferidas por mestres no interesse da instrução". Isto é, com intenção didática, mas aqui se tratando de pedagogia que não visa a inteligência, e sim "efetivamente numa alma, representa clareza, perfeição e avaliação séria".

4 Antes Sócrates havia oposto o sábio e o inteligente. (245 c) Esse trecho anterior é um autêntico elogio da loucura, contra o "simplesmente inteligente" atribuído ao fazedor de discursos escritos. A oposição do sábio e inteligente parece poder ser traduzida em termos de inspiração e técnica. Mas a inspiração não se limita ao homem, é o cerne encantatório do pensamento, uma vez que a loucura é estar possesso pelo deus. O simplesmente inteligente não compreenderá o elogio da inspiração, que consta na classificação socrática dos três tipos de loucura. A primeira é a loucura profética ("mântica") dos sacerdotes dos templos. A esta loucura oracular se acrescentam, aquela atribuível efetivamente à inspiração do poeta pelo deus ou as musas, e a que acomete "corretamente" segundo Sócrates, aos que vivem uma situação aflitiva, assim obtendo "alívio dos males do presente" (245 a).

4 O sábio porém logo se retifica como o que é apenas designação adequada a um deus. O filósofo, limite do saber humano, é o homem que escreve mas apenas para veicular o denotado didaticamente e assim conforme a um conteúdo selecionado que reside em sua alma como a intelecção do ideal. Antes a oposição sábio/inteligente, como vimos, instituiu-se entre o que é ou não capaz de compreender a defasagem da obra técnica relativamente à obra inspirada por um deus, esta que é feita portanto por um louco como por alguém em estado possesso pelo deus. Entre 245b e 278 d, o estatuto do sábio transitou do humano ao divino, conforme antinomias desiguais, respectivamente o não-sábio sendo o inteligente ou, inversamente, o filósofo. Em todo caso, a oposição de filósofo e inteligente não chega a ser declinada diretamente, parecendo apenas subentendida uma vez que o inteligente é o poeta que se restringe à técnica ou ao bom-senso, e o escritor, este nomeadamente o antípoda do filósofo, detém praticamente a mesma definição. Porém para postular essa mesmidade, precisaríamos convir que a técnica e a escritura a que chamarei imanente, tendo uma finalidade em si mesma, são pensados por Platão como idênticas.

5 Tudo induz a considerar que sim. É a lição ("demonstração") sobre a realidade das almas, humana e divina, que convém seguir-se ao elogio da loucura socrático. A teologia de Platão, portanto nela reconhecemos a constante filosófica do repúdio ao antropomorfismo (245 d), mas com o acréscimo idealista da desvalorização do corpo como condição mortal (246 c, d). Essa desvalorização é peculiar ao socratismo platônico, não apenas pitagórica-oriental, por associar-se à doutrina das ideias. Aqui se designam as ideias "realidades" eternas (247 e) e seu mundo se introduz por uma exposição que complementa a explicação teológica da alma em sua irredutibilidde divina e humana conforme a analogia (276, b) do auriga e a parelha de cavalos que conduz, sendo inteiramente bons os dos deuses, miscigenados bom e mal o dos humanos, assim se compreende porque só os deuses permanecem sempre na altura celeste (247 a).

6 Nesse complemento os homens seguem os deuses enquanto não são atraídos para a morada terrestre devido ao peso da desordem de sua parelha. A trajetória dos deuses atinge o cume celeste e a visão do que está acima do céu (247 c), mas a precariedade da parelha humana só permite ver um pouco das realidades que lá permanecem, como "a justiça, o autocontrole e o conhecimento absolutos", enquanto "conhecimento do que realmente é", inversamente ao que "encerra geração e que varia" por serem realidades misturadas com outras coisas, não eternas, imutáveis, idênticas a si mesmas.

7 Na teologia platônica já há prefiguração da temática aristotélica do automotor, a alma como o semovente, e aí se faz a refutação aparente do antropomorfismo teológico (245 c - 246 d). Não obstante a alma ser imortal somente para Platão.

8 Na complementação expositiva da senda celeste dos deuses, até a visão da planície supraceleste da aletheia que encerra conhecimento absoluto (247 d), decorre, primeiro, a hierarquia das almas, conforme viram menos ou mais na planície até serem perturbadas pela parelha (247 d- 250 c), e logo depois a lição sobre o amor, que inclui o significado ideal da beleza (250 d - 256 c), retornando-se à posição sagrada da loucura (257). Nesse retorno, a loucura do amor é relacionada à teologia anímica. A ligação inspirada por Eros se torna salvífica, garantindo escapar da vicissitude kármica por uma elevação da alma na eternidade.

9 O interessante nesse argumento é o reverso da mensagem, de modo que a salvação pela loucura amorosa se afirma expressamente contra aquilo que "conforme as pessoas ordinárias constitui virtude louvável" (256, 257). Aqui vemos um tipo de loucura não contado nas três precedentes, do sacerdote, do poeta inspirado e do perturbado. A religião de Platão escapa pois ao sacerdócio templário regular da Cidade pelo mesmo viés pelo qual escapa à moralidade vigente.

10 Essa escapadela é subversiva, efetivamente no todo contextual do Fedro. Sócrates está se opondo ao espirituoso texto do apresentado como muito famoso retórico Lísias, assim pessoa da alta sociedade ou estimado por ela. O texto é exposto no Fedro (231 a 234 c), ou como referência de um texto real ou como mero arranjo platônico. O texto é porém exposto duas vezes, pois não só citado na íntegra, como também reescrito por Sócrates como que de improviso para demonstrar como ele seria se seguisse as regras de estilo socrático.

11 O recurso dos discursos superpostos é porém apenas um subterfúgio para a negação, feita em homenagem a Estesicoro, poeta citado por Sócrates pelo verso no qual denega uma afirmação que fizera antes. Assim não devemos acreditar que a retificação do discurso de Lísias é o que Sócrates almeja ensinar. O que ele pretende é negar frontalmente tudo o que Lísias escreveu, taxando-o pecaminoso como elogio da relação sexual independente do amor, socraticamente a possessão pelo deus Eros, ao mesmo tempo que errado do ponto de vista do estilo. Quanto a este, a definição do bom estilo socrática tem por critério, do mesmo modo, apenas coadunar-se, conforme considera, com os preceitos religiosos que defende. Uma vez que o escrito de Lísias é na verdade ao mesmo tempo que espirituoso, uma defesa da sensatez contra o arrebatamento passional da juventude, como costuma ocorrer muito do Diálogo platônico deve o que tem de atrativo aos empréstimos que faz daqueles a quem se opõe, os retóricos que compõem argumentos no estilo gracioso, culto e sofisticado conhecido como a prosa ática.

12 Sócrates está se opondo ao espirituoso texto de Lísias em que, como vimos, um homem que se diz não apaixonado espera apenas assim seduzir melhor o belo rapaz, mostrando como os apaixonados arrastam os jovens à insensatez na qual se perdem na vida. Se Sócrates reprova Lísias por não começar pela definição do tema, se esmera além disso na condenação religiosa do conteúdo. A oposição de mundano e sagrado é construída por uma posição do conhecimento religioso que ao mesmo tempo é uma posição religiosa da loucura na acepção de se estar possesso pelo deus, como critério de conhecimento.

13 A distância do saber à humanidade é preenchida pela loucura como suplemento da ignorância constitutiva da má parelha humana - eis a que se reduz o Diálogo no tocante ao religioso socrático, a petição de princípio pela qual é humana porque é má, é má porque é humana.

14 E a loucura como possessão divina, loucura passageira portanto, não doença, é encantamento cujo valor Sócrates exalta como o que atinge eficazmente o alvo definido porém pela retórica, a saber, o fascínio sobre as almas, poder de penetração na alma alheia. Se o retor considera que esse poder está sempre sendo testado em cada discurso pronunciado, porque cabe à assistência se deixar seduzir ou não, ou mesmo, existindo o a priori da diversidade de opiniões, Sócrates não considera qualquer possibilidade de desacordo senão como comprovação da baixeza da alma.

16 Se o "reino" platônico se estabelecesse como Sócrates o pinta na "Politeia" (traduzido “A República” mas tendo um sentido óbvio bem oposto) a hegemonia seria o objetivo gramsciano, onde os dissidentes são votados à morte física - assim como para Sócrates e os gramscianos da guerra de posições, já os votam à morte simbólica - de fato na ala feminista da “teoria crítica” recente aqueles que não consideram que a democracia seja a panela dos compadres que sabem tudo uns sobre os outros, como Arendt-Gilligan reduzindo a existência à narrativa (que assim não teria pois como se auto-designar, já que a afirmação “a existência é uma narrativa” é uma base expositiva) em vez da subjetividade ser livre, são chamados de “desencarnados”, considerados meros "teóricos" não "prático-críticos", esta nem sendo a ala feminista à Harding, que condena o mero conhecimento heliocêntrico ao status de machismo. Não se compreende assim porque existem mulheres engenheiras, empiristas ou democratas, nem como é que se veio a pensar em tais coisas como “direitos iguais”. Interessante lembrar que Horkheimer e Adorno se confessaram platônicos nisso pelo que a política seria o meio único, o veículo obrigatório, de todo conteúdo de saber, o que à metafísica era submetido como parte do todo.

17 Ora, quanto ao conhecimento que não é loucura, ms a parte do visto detida pela alma – não obstante isso permanecer ambíguo uma vez que o visto se deve igualmente à possessão pelo deus do seguidor do cortejo – Sócrates distingue a hierarquia dos tipos humanos no Fedro. O que na "politeia" será condensado nas classes metálicas da alma, o governante filósofo de ouro, os guardiões de prata, os meros serviçais de metais sem valor. A hierarquia do Fedro enfeixa pela ordem: o filósofo que se faz poeta inspirado; guerreiro; político administrador ou financista; atleta ou médico; profeta ou místico; artista imitativo ou agricultor; sofista ou democrata, tirano. Não obstante, quando Fedro indaga a Sócrates de onde hauriu o critério de sua imediata recusa do discurso de Lísias, a resposta não apela à sabedoria ou reminiscência da aletheia no além, muito menos à pertença cívico-religiosa da cidadania ateniense. Referencia, ao inverso, os "homens e mulheres sábios de outrora que discursaram ou escreveram acerca desse tema (235 b), citando Safo, Anacreonte e autores de prosa, aduzindo que por si conscientiza-se da própria ignorância, de modo que nem mesmo recordando-se dos nomes de todas essas suas fontes (235 d).

18 Uma Estética modernista, mas para um modernismo pop ou até já pós-moderno, se a referência é nada menos que Marcuse.

19 Nessa referência de Eros e Civilização, em “As Cartas sobre a Educação Estética do Homem”, Schiller aparece como político revolucionário. As funções estética e educativa não são porém meros meios, elas são a finalidade em si da transformação social. Segundo Marcuse, Schiller escreveu mais “sobre o impacto da Crítica do Juízo”, de Kant, onde a função estética se reconceitua como a reconciliação da moralidade e sensualidade.

20 Em Kant o belo torna-se o símbolo da moralidade uma vez que a função estética, assim como a razão prática, não são o reino da natureza como da necessidade, mas sim da humanidade como da liberdade. É a beleza que se reconceituou, o belo como símbolo da liberdade. Schiller politiza ou historiciza Kant. Ele escreve visando “à reconstrução da civilização em virtude da força libertadora da função estética, sendo que esta função foi considerada como contendo a possibilidade de um novo princípio de realidade.”

21 A meu ver Schiller é mais pré-romântico do que propriamente romantismo, pois neste o conceito de beleza é sempre relativizado para não ser confundido com a noção clássica de perfeição. Marcuse lida com o referencial romântico assim como para muitos, sem distinção relativa a um “pré-”. Aqui estamos nos atendo exclusivamente à concepção que ele veicula. Como vemos pelo uso do conceito freudiano, o romantismo está sendo usado por Marcuse de um modo bastante inovador, em prol da Teoria do Inconsciente – onde geralmente o romantismo é tratado como pária, falso conceito do homem - mas contra os aspectos repressivos que ainda seriam denunciáveis na acomodação do próprio Freud da descoberta que fez a propósito da libido. O princípio de realidade freudiano era estático, a objetividade do mundo material regido como seria pelas leis lógicas como da não-contradição, e aqui trata-se de torná-lo histórico, um vez transferido ao reino estético e da liberdade puramente humanos.

20 Também aqui, no contexto de Schiller, o termo “estética” já havia sido transmutado por Baumgarten, do “referente aos sentidos” para “pertinente à beleza e à arte”. O uso que Marcuse está estabelecendo porém é mais estritamente o referente à sensualidade, à libido ou Eros, que ele pretende afirmar sozinho, sem a oposição do instinto de morte, que a seu ver, como mais uma crítica a Freud, não é inerente ao sistema psíquico, mas produzido pela repressão histórica. O que Marcuse restringe à educação para o trabalho, ao trabalho por si como a ideia que polarizou a agressividade contrária à livre expressão da libido. A ideia do que é oposto necessariamente à sexualidade e liberdade. (“Eros e Civilização”,Rio de Janeiro, LTC, 2009, p. 156 e ss.)

22 Marcuse não é deleuziano nisso pelo que é o conceito mesmo de “produção” que a seu ver sintetiza todos estes aspectos da repressão histórica mediada pelo trabalho, que modela o instinto destrutivo-repressivo. A produção é portanto para Marcuse, a civilização mesma cuja história se confunde com a repressão a Eros, ambos os termos,Eros e civilização ou instinto destrutivo-repressivo, redesignando a polaridade primordial do inconsciente, que não deriva porém de sua natureza, como de algum princípio de realidade, mas da vicissitude histórica.

23 Na pressão dos instintos frente ao mundo material na mais crua selvageria natural, o homem primitivo interpretou desnecessariamente a sublimação como necessidade de produzir, como de um “desempenho” submisso à necessidade cega, e a educação para o trabalho como o contrário da educação para o prazer. Se a civilização não resulta até agora senão no que era inicialmente, uma barbárie da dominação do homem pelo homem, é a educação para o prazer, a superação do sistema laboral conhecido, o móvel da transformação social que eliminará um tal funesto destino e transformará a humanidade numa espécie tão feliz quanto possam vir a ser os seres humanos pela realização das suas aptidões auto-sublimadoras.

24 A revolução depende da libertação de Eros frente a todos os constrangimentos impostos pela fabricação do Thanatos repressivo, e assim libertação se define pela “transformação da sexualidade em Eros” (p. 174 e ss.) A ideia motora é que uma ordem não-repressiva da civilização na atualidade, teria a consequência esperada de regressão a níveis arcaicos dos instintos, anteriores à sublimação, mas como não seria uma regressão espontânea, e sim dentro do aparato já conquistado da estabilidade institucional e epistêmica. Assim ao contrário de ser a consequência de uma derrota individual, ela seria uma vitória adaptativa da espécie.

25 Assim que uma ordem social não-repressiva fosse adotada, mas ao mesmo tempo como a possibilidade mesma da ordem não-repressiva, Marcuse postula a consequência dela “gerar relações eróticas duradouras” entre sujeitos “maduros”. A hipótese a ser testada é se a eliminação de toda sobre-repressão, os instintos sexuais seriam passíveis de desenvolver uma racionalidade da libido, não só compatível com a civilização mas promovendo “o progresso para as formas superiores de liberdade civilizada”.

26 O conceito chave da desrepressão neocivilizacional é pois a auto-sublimação dos instintos, portanto não carecendo de repressão para superarem a condição anárquica inadaptável típica dos estágios iniciais da vida. E em nível social é uma ordem não-repressiva institucional que se define como neolaboral porque nela o trabalho já não seria oposto a jogo, brinquedo e prazer.

27 A concepção pós-freudiana de Marcuse, onde a homologia psicanalítica de trajeto instintivo e história social é assim tão postulada como redefinida, pode ser bem exemplificada pelo que ele atribui a Schiller antes que à relação onto-filogenética de Freud: “Na ideia de Schiller de um ‘estado estético’, a visão de uma cultura não-repressiva é concretizada no nível de civilização madura”. Nesse nível a organização dos instintos converte-se num problema social (na terminologia de Schiller, político), tal como acontece na Psicologia de Freud. Os processos que criam o ego e o superego também modelam e perpetuam instituições e relações sociais específicas.” A um ponto em que “os conceitos psicanalíticos como sublimação, identificação e introjeção não possuem apenas um conteúdo psíquico, mas também social”, indo aportar “em um sistema de instituições, leis, agências, coisas e costumes que enfrentam o indivíduo como entidade objetiva.”

28 Mas como estamos constatando, antes de Schiller como precursor politizado de Freud, já a mistura sui generis de alma kármica oriental e politeísmo grego que no Fedro o Sócrates platônico enuncia, visa a mesma função estético-erótica como veículo conduzindo à razão mesma enquanto não dissociável da moralidade. A redefinição da Estética por Schiller poderia ser uma leitura da concepção socrática de arte como possessão por um deus que entretanto é a coisa em si expressa: “A ciência da cognição sensitiva”. O que Derrida não apreende fundamentalmente, já que estabelece a interpretação do Fedro na oposição básica de instintos (sensualidade/Sinnlichkeit) e Razão.

29 Mas se o Fedro localiza a sensualidade como esfera ativa do deus Eros, uma realidade sobre-humana, conforme o politeísmo grego esta é ao mesmo tempo a esfera da realização do ser humano. Tanto em nível instintivo – o arrebatamento amoroso, passional como libido; como em nível cognitivo, a visão anímica das ideias puras, formas retoras de tudo o mais, a justiça, a beleza, e a excelência (virtude do bem). Também para Marcuse lendo Schiller, se assim como em Kant a faculdade que exerce a liberdade estética criadora da beleza é a imaginação, “o livre jogo” do imaginário é o que “traça e projeta as potencialidades do ser total”. Mas assim, por um lado, “essas potencialidades revelam-se como formas puras. Como tal, constituem uma ordem sui generis, existem ‘de acordo com as leis da beleza’”. Por outro lado, o reino da liberdade, é “universal” - como Platão introduziu conceitualmente.

30 Conforme Marcuse, em Schiller, “Se a função estética deve governar a existência humana, ela só poderá fazê-lo se tornar-se ‘universal’”. Essa possibilidade não pertence ao passado histórico, visto que nele as coerções materiais realmente só podiam conduzir à interpretação da necessidade do trabalho repressivo, ele próprio coercitivo. Mas se “a revolução estética pressupõe ‘uma revolução total no modo da percepção e sentimento’, e tal revolução só se torna possível se a civilização tiver atingido a mais alta maturidade física e intelectual”, nesse presente da civilização a “coação da necessidade” se substituiu pela “coação da superfluidade” ou “abundância”. E nessa nova situação “a existência humana é impelida para um movimento livre que é, em si próprio, um meio e uma finalidade”.

31 A esse “movimento livre” Marcuse conceitua “jogo”. Assim porém, “jogo” é oposto a três instâncias. É oposto de “trabalho”, ao mesmo tempo que substitui a noção do trabalho como situamento neolaboral das ocupações na revolução pulsional. Também se opõe nocionalmente à materialidade e à temporalidade. O jogo se opõe à matéria, já o vimos, porque ele é o contrário da ação coagida, como a toda submissão do indivíduo e da sociedade à antiga ordem da necessidade. A civilização do jogo e do prazer, como reino da liberdade se encontra portanto só na abundância, viceja fora de toda “luta pela existência”. Ele abole a oposição do universal e do particular nisso pelo que não se dirige à cultura que transforma como algo além do sujeito, a transformação inversamente é a lei universal da gratificação do sujeito.

32 O jogo se opõe sobretudo ao tempo como à “finitude íntima, a brevidade de todas as condições e estados.” Aqui a noção de luta se repõe: “Se o ‘estado estético’ se destina a ser, realmente, o estado de liberdade, então terá que derrotar, em última instância, o curso destrutivo do tempo”.

33 Essas três oposições do jogo, ao trabalho, à matéria e ao tempo, são criticáveis como contradições inerentes. O tempo como finitude é o oposto de si mesmo como o locus historicizado da realização des-repressiva na atualidade. O mesmo se poderia afirmar da matéria e do trabalho. Mas é nítido que estas três oposições são as mesmas que Sócrates estabelece na realização do amor e da escrita inspirada.

34 Antes da realização pela abundância na atualidade, a aristocracia liberta da labuta e da carência pela instituição da escravatura, e por aí podendo o aristocrata idealizar-se acima da matéria e postular a idealidade mesma acima do tempo, fez pela concepção da arte em Sócrates o mesmo que o sonho da cosmópolis liberal industrializada fez pela crítica do Juízo em Kant.

35 Como símbolo da participação do deus em nós, a estética da inspiração socrática expressa o mesmo que em Kant o transcendental. A antítese entre a razão serva da necessidade e a razão realizada por meio da sensualidade estetizada na liberdade, é encenada no Fedro. Não no mito de Thamuz, mas na crítica de Sócrates a Lísias.

36 Lísias é o herói da razão limitada ao entendimento que representa a coerção do mundo externo sobre nós. Essa seria porém uma lição sui generis, já que são os sofistas e não Sócrates que concebem a lei civil como convenção, inversamente à natureza – e assim o entenderá Hegel. Mas o desenvolvimento do Fedro parece endereçar justamente uma refutação a esse dado, como a uma mera aparência.

37 Mesmo se pudermos nos indagar do por que Sócrates nunca ter entendido o sedutor não-apaixonado como uma redução ao absurdo, já que este, ao contrário do que bancaria o apaixonado, é que se preocupa com o futuro e a reputação do rapaz, logo, ele é o verdadeiro amante, quem realmente ama, a repulsa socrática da peça espirituosa de Lísias é clara. O amor é algo irredutível a todo cálculo de bem ou de mal, assim como de toda definição pela qual se o possa provar. É ele quem prova, exercendo -se sobre cada um de nós sem qualquer defesa possível nossa, e então segundo o caráter mostrando até onde a paixão leva a pessoa.

38 Essa interpretação do Fedro é coerente com a crítica de Sexto Empírico à sofística como à propaganda da retórica como meio de dobrar a opinião – o que o escrito de Lísias, reductio ad absurdum ou não, pretende conseguir. Sexto considera que a verdadeira sensação que se tem é inegável, não mediada, não podendo ser considerada uma opinião. Além disso, ele protesta que “ser escravo da opinião” é o que mais a alguém deveria provocar repulsa, inversamente a admiração pelos supostos poderes do discurso.

39 Se nessa linha Sexto concorda com Platão, mesmo sem precisar admitir com este que a existência dos deuses é evidência racional mais que artigo de fé, também como já vimos, exemplifica com os textos platônicos a excelência literária. Para mostrar que esta não depende de conhecimentos de retórica, mas sim do intertexto canônico da literatura, o conhecimento dos grandes autores consagrados. Como qualquer um é fluente em sua língua, aquela que aprendeu com os pais a fazer-se entender sem ter precisado aprender regras de gramática ou quaisquer outras disciplinas. A pretensão didaticista de apontar o que é certo ou errado, o que é necessário ou não, mostra-se ridícula, pois de todo inútil ao propósito mesmo daqueles a quem visa “ensinar”.

40 Um aspecto muito atual dessa crítica é a redução do fenômeno estético crítico, livre e criativo, às regras de consumação do business de comunicação em massa, que se arrogam o poder sobre a opinião. A crítica marxista da ideologia aqui não seria de muita ajuda, pois Marx, para quem o capitalismo e a técnica eram o fenômeno do qual a consciência de si era apenas o derivativo, celebrava, no momento mesmo em que explicava assim o caráter exclusivamente moderno da individualidade, o fato de que atualmente nenhuma idealização da musa era possível ou necessária, pois estava patente que o sucesso dependia da casa publicadora da moda, funcionando à base da máquina impressora em série. Como estamos constatando no Fedro, antes mesmo que Roma pudesse ter inventado o fenômeno da multidão, pelo que se lhe atribui entre o neoplatonismo e Santo Agostinho a paternidade da consciência de si, como do sujeito só em meio à turba, mesmo se não ainda o Sujeito pensável da teoria atual, o deus socrático da mania inspiradora permitia reconceituar a musa como essa pessoalidade passional que ele mesmo testemunhava como a assistência do seu espírito de revelação particular. Hybris para a religião civil, concebida como referencial comunitário. É interessante que nem Marx, nem Sócrates – ao que parece tampouco Schiller – pensaram a recepção como algo não predeterminável por alguma função definida. Ao contrário da relatividade do interesse a um momento histórico, o que postulou Kermode em “Formas de Atenção”.

41 Assim como o amor também a arte que encontra a recepção do público é a possessão do inspirado pelo deus, na exposição do Fedro quanto ao que torna Sócrates tão avesso ao gênero restrito ao argumento espirituoso. Não há um meio de forçar a recepção da fama, o aplauso sincero do público, ou a reciprocidade do amor em quem é amado, por qualquer cálculo ou argumentação por mais exato ou convincente que seja. Antes que Sócrates lembrasse estar ele mesmo mudando a “forma da atenção” do seu tempo – pois afinal até aí Lísias era bem recebido pelo público ateniense – ele se lembra só da existência de um cânon, o passado como critério da futurição, deslocando assim o interesse presente no mundano e prático, pelo interesse nos modelos sacralizáveis da “inspiração”. O central na concepção de Sócrates é o paradoxo do deus em nós. Expressar-se, atuar, aquilo que se quer ou se sente, é então ao mesmo tempo que a possessão do ser, o correlato da liberdade.

42 Em Kant esse correlato é inerente à arquitetônica da Razão, que engendra e regula as nossas faculdades. A liberdade está em nós como o transcendental, e a moralidade, que é a verdadeira liberdade, é uma das faculdades sobre a qual a Razão legisla. Para Sócrates a atuação e expressão da passionalidade são o efeito da possessão do deus, como o amor é possessão por Eros, e nesse sentido do transcendente ela é a moralidade mesma.

42’ Entre o transcendente e o transcendental, como entre a aristocracia e a sociedade da abundância, temos a irredutibilidade histórica da Grécia antiga ao Romanticismo. Mas assim como Nietzsche descobriu a Grécia noturna, restrita porém ao que não era socrático, pode ser que agora estejamos descobrindo um platonismo que não pudesse ser de fato tão irredutível à passionalidade ou à situcionalidade apropriadora como Nietzsche ou Heidegger pretenderam.

43 Se a antítese de Marcuse é a mesma do Fedro, entre por um lado a razão instrumental, a máquina, a técnica, a matéria, o tempo e o trabalho, e por outro lado a arte, o campo estético, a sensualidade, a forma pura eterna e o jogo como atuação do prazer, Derrida estaria certo ao ler o Fedro como a carta do mundo antigo estruturado por uma rede de oposições marcadas – assim ele seria um crítico adequado de Marcuse, não apenas da ala da Escola de Frankfurt que não assimila o inconsciente. Assim como para Derrida é o caso do modo contra-opositivo no Fedro, em Marcuse a repressão e a desrepressão como opostos não estão entre si numa relação, mesmo que a relação seja definida expressamente como o trajeto da história, do passado ao presente, locus revolucionário da futurição.

43’ A meu ver, o pensamento marcusiano de um estado neolaboral estético-prazeroso é muito atrativo, e a teoria da repressão histórica, que permite historicizar também o princípio de realidade, instigante. Porém como vimos torna-se contraditório em vários aspectos, pois rejeita o que é o meio mesmo da efetividade no qual se pretende instalado – como termporalidade, materialidade e produção. Quanto a esta, não significa “trabalho” no sentido da labuta, mas o meio das conquistas contra a necessidade, já que na produção se faz o progresso tecnológico e cultural que não seria destrutivo da natureza ou dominador do homem pelo homem (tomando “homem” no sentido da humanidade) se não fosse monopolizado pelo capital-imperialismo psicótico voraz, mas socializado internacionalmente de modo a viabilizar multiplicidades de desenvolvimento localmente adaptativo, já que é em escala internacional que a produção se faz abundante o suficiente para significar pesquisa de ponta e progresso tecnológico transformador.

44 O conceito de produção como semiótica desde o inconsciente, como no pós-estruturalismo anula a oposição de trabalho e jogo. A antítese produção-prazer não se mostra tão aparente à obviedade como a de trabalho-prazer. A evidência do caráter meramente utópico desta já resulta na dificuldade de configurar a meta de um “trabalho” que fosse ao mesmo tempo brinquedo descompromissado com o produto. A redução do “desempenho” à obrigação oposta do prazer, quando na verdade não se sabe bem se é assim, é uma decorrência da teoria. Não se pode contornar a aporia de que quanto mais a profissão é gratificante no sentido de ser correlato da vocação, menos teríamos prazer na redução dela a brinquedo, pois nela mesma, na seriedade que exige um livro de filosofia, um projeto de engenharia, uma cirurgia, é que está o prazer. Ao contrário, para Marcuse se o cabeleireiro ou o alfaiate se comprazem no belo penteado ou no belo terno, isso seria indesejável na perspectiva revolucionária porque o desejo deles estaria apenas confirmando as premissas repressivas do princípio do desempenho.

44’ Se lemos Marcuse poeticamente, mais como um insight do que precisamos, fazendo pensar em como torná-lo exequível, do que um projeto político definido, é possível que ele se mostre muito avançado e um bom crítico da atualidade – senão por que persevera na oposição do primitivo/corpo e moderno-ocidental/tecnologia. O mais que se pode fazer quanto a isso é notar que os comentários de Marcuse sobre a universalidade do regime da gratificação subjetiva na sociedade da abundância não inova relativamente ao que já está valendo em qualquer Constituição nacional liberal democrática. Assim não se careceria de revolução na nossa época – ao contrário da de Schiller – mas na remoção dos obstáculos - como o capital-imperialismo gangsterista (“monopolista”) contrários à legalidade efetiva, esta a definição da “universalidade” que Marcuse permite interpretar. A questão que se impõe a uma leitura de Eros e Civilização é pois até que ponto ele consegue explicar estes obstáculos, uma vez que a transformação instintual já ocorreu há duzentos anos atrás na História, quando o regime Constitucional dos sujeitos livres se estabeleceu. Independente de conflitos intersubjetivos e de interpretação quanto a quem é justo gratificar nesses casos, o que já está previsto numa Constituição e não se considera que qualquer sociedade não tenha, trata-se pois quanto a esses obstáculos à democracia liberal, do que se pode considerar estrutural, não fortuito nem motivado apenas pela índole particular. Assim a questão seria entender não só porque os obstáculos estruturais não foram removidos, mas como cresceram tão assustadoramente na era da invasão dos corpos e das mentes pela dominação info-midiática. A meu ver não seria possível por uma teoria que perseverasse na estrita homologia do inconsciente e sociedade. O imperialismo é o modus operandi da dominação contra-democrática seja de que tipo for, capitalista ou comunista, inclusive o crime organizado e sobretudo os ilegalismos hediondos do business de mídia - agora acoplado à micro-informática. Visto que como “grande problema” o crime organizado se reduz a pivô do capitalismo planetário na Globalização definida dominação recolonizadora info-midiática . A questão é pois geopolítica, abrangendo na atualidade o regime despótico do capital “multinacional’, e se há um inconsciente da dominação ele é apenas o discurso do progresso unilateral de um Ocidente que porém na efetividade só “progride” pela interdependência ao Terceiro Mundo.

44 Não creio que o pós-estruturalismo tenha chegado ao ponto dessa crítica, como ao inconsciente geopolítico, e a esquerda tem apenas se estiolado na fragmentação do status, funcionando como o imperialismo quer, pois que a garantia dos direitos civis para qualquer status já é função da Constituição nacional mas sempre obstaculizada pela corrupção imperialista, monopólio político/tecnológico sendo o único meio de acumular recursos para o Poder localizado em qualquer país suplantar a organização civil local.

45 Vemos pois que o próprio Derrida também mostra dificuldade quanto a não se deixar reduzir ao mundo antigo do qual, assim como Marcuse, se enuncia a antítese perfeita. A rede de oposições que Derrida define como estruturante do Fedro tem esse erro de considerar antitéticas a loucura e a racionalidade assim como a sexualidade e a Razão. Mesmo se pudéssemos detectar aqui mais uma contradição do Fedro. Agora não apenas entre censurar quem escreve o que lhe vem à cabeça do mesmo modo que a quem retoca e reelabora o seu escrito – como aliás vemos fazer Euclides, no Teeteto (143 a,c) explicando como um Diálogo socrático é escrito. Mas entre opor-se à escrita que se faz por si mesma enquanto arte literária independente da visão anímica, opor o escritor e o filósofo, e estabelecer como modelo da arte inspirada os grandes escritores do passado, isso, ainda, para uma lição de escrita- lembrete, escrita do mentor, que só registra o que deve ser lembrado como a visão do belo, do bom e do justo.

45’ Ora, Derrida engana-se a meu ver, quando ajunta à trama opositiva também a antítese entre a fala viva e a escrita puro signo. Supondo assim que a escrita que vale para Platão, aquela que torna a ser aceita depois que foi expulsa, é a que segue a lei de reprodução da fala, aquela, pois, que se anula como tal. Mas não é na fala comum que está o modelo, o correlato da visão ideal em Platão, e sim na inspiração, passionalidade, loucura mânica – neologismo de Sócrates que revelaria porém apenas a etimologia do termo, a “mania”, loucura da possessão pelo deus, que vincula o verdadeiro sentido do termo mântica, magia - por um lado. E também na dialética, reservada à filosofia a que aquela inspiração deve conduzir o apaixonado pelo verdadeiro amante, o filósofo, o iniciado na moral do deus, da aretê como da visão anímica.

46 A dialética platônica, que não ainda a Aufhebung à Hegel, não portanto a expressa atualização de Heráclito na era do evolucionismo subjetivista, é assim o mais contrário a esta, como um método de geômetra, um modelo matemático. A oposição do sobrenatural e eterno ao comum e vital, se faz no platonismo não expulsando o signo, pois a linguagem filosófica não está do lado do comum, mas do eterno, e o eterno platônico é o matemático, onde evidentemente o signo não pode estar ausente.

47 Assim também Derrida na Gramatologia, opõe duas escritas. Aquela que induz ao erro fonologocêntrico, à aparência de limitar-se a essa outra aparência que é o presente comum, o presente vivo contínuo ao seu passado e ao seu futuro, enquanto bastante, transparente, a si mesmo, autônomo a tudo o mais pensável. Essa é a escrita inteiramente fonética, alfabética, a possibilitação da metafísica nessa interpretação de metafísica como aquela oposição suposta platônica do signo à fala viva, seguida da reintrodução do signo como secundário em relação à fala.

48 E por outro lado, aquela escrita que é puro jogo espácio-temporalizante no Inconsciente, escrita não-linear da semiótica do desejo, que as escritas não-lineares existentes permitem conceituar. Mas jogo aí definindo-se matematicamente, como álgebra – a legalidade dos “sistemas de signos”, conforme a noção de “simbólico” (não “simbolismo”) lacaniano, ampliada do puramente linguístico a qualquer âmbito semiótico.

49 O inconsciente derridiano – como pós-estruturalista em geral mesmo se os autores o conceituem particularmente – é então um passado puro, unicamente a inscrição do signo, jamais conectável ao presente existencial da consciência. Não acessível a esta.

50 A trama opositiva platônica é similar a de Derrida. Pelo lado do Real: transcendente-transcendental, signo matemático (geométrico/algébrico), fora da temporalidade histórica, passado-puro, anamnese restrita ao sábio-teórico, eternidade sistêmica, passionalidade inconsciente-possessão inspiração como meio da filosofia-desenvolvimento cognitivo. Pelo lado da ilusão, mundo da aparência: fala comum, presente vivo, ilusão da autonomia que é porém sujeição a uma coerção do fora, escrita notacional-argumentativa persuasão visando dobrar a opinião e a coerção.

51 Muitas questões poderiam ser levantadas num cotejo de Marcuse e Derrida, reformulando algumas das nossas atuais impressões acerca das relações entre Teoria Crítica e Pós-estruturalismo. Se até agora costuma-se restringir a oposição de ambos como de visões da consciência e do inconsciente, omitindo-se a teoria erótico-estética do inconsciente marcusiano, que insere a Teoria Crítica naquilo que poderíamos considerar um avanço relativo à SexPol de W. Reich. Nesse cotejo de Marcuse e Derrida, leituras de Platão Kant e Schiller seriam certamente renovadas. Aos propósitos desses estudo não se mostra porém oportuno, conveniente apenas a estudos especialmente voltados, assim como as questões relativas às contradições do platonismo, que não diz a mesma coisa em Diálogos diferentes – assim a defesa do amor contra a convenção só é pertinente ao âmbito do Fedro, no Teeteto por exemplo, o bom casamento é a arte das parteiras. A menos que casamento e amor sejam referenciais irredutíveis no pensamento platônico, o que não seria inverossímil na Grécia. Na sociedade cristã há apenas a prostituta ou “amante”, e a esposa. Na Grécia Antiga havia três tipos de relação. O casamento, que era apenas a esfera da procriação e conservação do patrimônio familiar. O amor do homem e da mulher era mais típico da relação de concubinato, paralela geralmente ao casamento, a concubina sendo quem cuidava do homem, sobretudo na velhice. A satisfação sexual, somente reservada aos homens, era com as hetairas (prostitutas) e com os efebos, os jovens rapazes. Na esfera social em que o platonismo encena a atuação de Sócrates, entre os jovens ricos e aristocratas, essa duplicidade do desfrute sexual típico do homem, isento de compromisso, havia se restrito aos efebos, visto que abarcava agora o amor, como um meio de enobrecer pelos valores a causa da aristocracia, e o amor era considerado assemelhar o amante e o objeto amado. Como na classe superior a mulher era considerada ininteligente, só o amor do masculino elevaria o sujeito, havendo também a valorização da força física, da virilidade mesma. É provável que fora da classe superior com seu comportamento politicamente interessado contra-democrático da época clássica, nas classes média e popular esses costumes não se mantivessem tão rigidamente. Diógenes Laércio mostra o casamento feliz de Crates e Hiparquia, fruto da escolha do marido pela moça apaixonada, que se torna como ele filósofa da escola cínica. Assim também relações homossexuais semelhantes a concubinatos – principalmente entre os platônicos. Um homem que fosse tão “filósofo” que não tinha interesse nas relações sociais, criticado na sociedade pela abstinência, vai a uma prostituta uma vez e assim o povo se aquieta.

52 Quanto ao Fedro, vemos que nele o Sócrates platônico não condena a escritura mais do que todo aparato cujo objetivo é imanente à factualidade, assim como a moralidade cujo critério é a ordem das condutas visando o benefício terreno dos sujeitos que decidem. Pelo cotejo com Schiller, podemos conjecturar que o interesse aí só é condenável porque ele é providência contra o que tem aparência de necessidade e factualidade mas que não é tal. O papel da aristocracia escravocrata é aí histórico e utópico - relativamente a uma sociedade em que os fusos trabalhariam sozinhos tal como Aristóteles já podia explicitar e Marcuse julgou atual ou em vias de se atualizar. Mas na imanência do platonismo o paradoxo não é tanto esse como o de um explicitado que na verdade se inscreve como imperativo inconsciente. Sócrates não está pensando na aristocracia quando inventa uma religião kármica politeísta, e sim na universalidade, e é assim que Lacan lê o Teeteto como a origem da psicanálise – realmente aí vemos não só a oposição de opinião e ciência, doxa e episteme (201 a). Como também uma teoria dos traços mnésicos ou “marcas” semelhante à de Freud (193 c,d) e se ela peca por estabelecer na transcendência, empírica ou ideal, o correlato percebido, sem uma causalidade mental como a libido, a teoria do amor e da arte como possessão pelo deus no Fedro é um complemento paradoxal da transcendência. Em todo caso, nesta vida a teoria socrática é inatista. Mas é a aristocracia e os espartanos que Platão está defendendo e ao mesmo projetando como a monarquia do sábio assistido pelas castas hierarquizada pelo valor anímico.

53 A oposição de fora e dentro, que Derrida atribui como de morte e vida, realmente parece deslocada por seu atribuído estatuto generalizante, tanto valendo para sofistas como para platônicos na unificação derridiana da Grécia. Que vale para Sócrates é bem nítido, mas o argumento demonstrativo quanto à sofística parece bastante forçado. Além disso, o “dentro” socrático é inverso à comum opinião, pois não condiz com a naturalidade imanente ao mundo e sociedade que Derrida atribui a ele, é o critério da eternidade transcendente da alma, o julgamento do seu bem ou mal nessa perspectiva soteriológica. Aqui Derrida não só omite a relação da loucura com a razão socrática, visto que na estrutura opositiva coloca a loucura do lado do fora, a razão do lado do dentro, como também não alcança o âmbito do Real platônico, que não é a imanência factual do terreno como da fala, mas o além, o supraterrenal a que a dialética visa.

 

III Entre o Mito e a Antropologia : O estabelecimento do platonismo

 

 

a) Theuth : um mito platônico

 

1 Detienne, em "A escrita de Orfeu", considerou, sem citar o nome de Derrida mas como sabemos sendo essa a tese de "A Farmácia de Platão", a "secundariedade" da escrita na Antiguidade e especialmente no platonismo, atribuição bastante precipitada. Ele desenvolve com minúcia o argumento oposto a Derrida para mostrar que a escrita tinha um estatuto religioso de alto nível e um uso prático estabelecido como na escrita das leis públicas. Realmente é precipitada, porém não para uma inversão total do argumento. Há pois algo em comum entre Detienne e Derrida, que é a concepção da generalização estrutural possível do entorno grego, e até mesmo de toda Antiguidade. Para Jaeger, o Fedro é a consagração do estilo clássico, portanto não algo tão generalizado que não fosse apenas grego. Platão estaria justificando sua atividade de escritor ao mostrar em que ela é útil ao propósito filosófico-religioso – ao contrário do escritor-retor-“logôgrafo”, ou, numa palavra, o sofista. Para Derrida, inversamente, o sintoma da fobia anti-escritura em Platão é sua denegação da própria atividade como escritor dos Diálogos, conforme registros epistolográficos comprovariam, por Platão atribuir tudo o que disse a Sócrates, nunca havendo alguma "obra de Platão".

2 Neste conjunto controverso de opiniões, a concepção de Jaeger oferece algum referencial oportuno, considerando que a excelência do estilo estaria na íntima união da letra e do espírito. Ou seja, Platão estaria coibindo um uso ulterior dos seus textos como se houvessem sido produzidos para ouvidos não iniciados no seu ensinamento ou com intenção de cativar o leitor por si mesmo, inversamente a ficar sempre visível que o seu escrito serve de registro de um ensino oral sólido, religioso e moral.

3 Ora, deste modo seria esperável que um ensino crítico, sobre como não se deve escrever, fosse explicitado paralelamente àquele sobre como se deve. O Fedro platônico mostra Sócrates procedendo a esse ensino crítico em dois níveis. Um em que se trata do fazer como tal, o que poderíamos designar a lição do estilo. E o mais importante do ponto de vista do texto, é o que tangencia o cerne da problematização de Derrida a propósito do Fedro, em torno do que seria o mito de Thoth como inventor da escritura. Ou seja, sobre a significação mesma de algo escrito.

4 Na fricção destes dois níveis, podemos colocar o problema de interpretação do caráter inconsistente, como que improvisado e próprio de conversa informal na pressão das trocas emotivas que Platão encena algo intensas entre Sócrates, no papel de um mestre ainda que na berlinda, e Fedro, o jovem que questiona o mestre impulsionado pelas influências do dia, no contexto da passionalidade da relação homem/jovem, mestre/discípulo característico da Grécia de então. É a inconsistência voluntariamente produzida para expressar algo que devemos entender?

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5 O recurso paródico do texto platônico é um dos pilares da sua construção, o que faz a graça da exposição, porém a paródia de Lísias por Sócrates se inscreveria bem num rol de recursos puramente retóricos, cuja utilização é o que bastaria para condenar a escrita por sua autonomia, segundo o critério socrático. Essa condenação lembra bem o que decorreu algo recentemente, na altura dos anos cinquenta do século passado, quando a ditadura estilística do "Realismo Socialista" estava imposta como lei de Estado nos países da União Soviética – está hoje atuando no Brasil como censura de mercado vigente ainda após ter sido onipresente no petismo - porém na desestalinização estando em curso congressos como o da Tchecoslováquia, que refletiam as questões levantadas pela necessidade de revisar a lei e afrouxar a censura. Aí a Vanguarda, solenemente proscrita desde inícios do século sob o rótulo da "decadência burguesa", devia ser resgatada necessariamente, uma vez que se consubstanciara como repertório inconteste das gerações no mercado editorial.

6 O recurso foi assimilar a Vanguarda quando ela podia ser ressignificada como um outro tipo de Realismo social, mas persistir na condenação quando não podia. E quando não podia era definido justamente conforme a retomada crescente do aspecto puramente semiótico-construtivo da linguagem estética, quando a "arte" se faz apenas da reutilização dos seus próprios recursos, digamos, técnicos. O que estava subjacente ao nascente "Popismo", porém muito mais exacerbado no "pós-moderno". Então o rótulo da decadência persistia aplicável ao popismo nascente, como de fato se comprova pela rejeição durante longo tempo, das "esquerdas" políticas relativamente a todo aparato das "esquerdas" estéticas na era pop, inclusive o aparato da revolução dos costumes, o slogan da liberdade sexual, expansão da consciência, etc. Tudo isso que era considerado nas esquerdas políticas que predominavam na universidade, a própria "decadência burguesa", quando na verdade era algo complexo, tanto revoluções necessárias desrepressivas, como convergência na corrente central da arrancada capitalística rumo à Globalização dessovietizada, assim tudo menos "decadência" comprobatória da derrocada iminente do capitalismo ocidental. A ala da esquerda política que não tinha tanta antipatia pelos jovens desreprimidos e que não tinha já confiança qualquer na condução sovieticista do problema social, não acreditava menos nessa balela. Apenas temia e tremia perante o que considerava a derrocada iminente do último reduto da liberdade de expressão neste planeta, o regime democrático norte-americano.

7 Ou seja, nessa questão do significado e significante, que ainda é atual, a lição de estilo socrática se ramifica ao outro nível, da onto-logia, como do ser do lógos, uma vez que as duas teses que se defrontam são por um lado, a restrição ao significado, por outro lado a descoberta do significante. Está claro que Derrida posicionou desse modo, nesse quadro de época como intertexto histórico que os seus leitores estavam integrando ou bem ao corrente, a sua leitura do Fedro platônico. O recalque neurótico do significante com que porém se constrói qualquer lógos, qualquer discurso, se elevou nesse quado a conflito central do inconsciente. Porém Derrida julgou a neurose da secundariedade do significante - que não é apenas o da "escrita" no sentido corrente do termo - em termos precipitados nisso pelo que a ela, como conflito central, reduziu o conceito que até aí se definia como o de um conflito central inconsciente. Isto é, o conceito da repressão sexual com que se descobrira até então o próprio inconsciente, repressão que se deslocara conceitualmente desde Lacan à hierarquia do gênero como androcentrismo universal.

8 Porém a tessitura do pensamento platônico do significado transcendental - como diríamos hoje, ou mais propriamente, conforme o parâmetro antigo, o Ser da Metafísica como universal, à Heidegger - essa tessitura não é tão simplesmente opositiva, como a cadeia de contraposições que Derrida julga derivar da contrariedade central entre fora/ dentro, signo/fala, finitude/vida. Pois, conforme ele, as contraposições derivadas seriam loucura/razão, sexualidade/pureza,/bastardo/pai-filho. Já vimos que, inversamente, Platão sacraliza a loucura, e precisamente pelo viés da sexualidade ou erotismo. É notável que entre todas as oposições e a que Derrida destaca como entre primeiro e segundo, na desconstrução derridiana há um desnível, na medida em que é nela que ocorre a reentry de toda secundariedade previamente seccionada, posicionada, censurada, limitada. O que é expulso pela oposição neurótica - isto é, contraditória num sentido genético: fantasística porém auto-concebida como a lógica em si, o lógos do Ser - então retorna. É reassimilado, readmitido, a meu ver o que Derrida está assim definindo numa palavra, sublimado.

9 Creio porém que uma verdadeira repressão atua aí, uma vez que as oposições derridianas não cobrem o envolvimento da sexualidade, da loucura do amor, da religiosidade aristocrática grega, assim bem irredutível ao que Nietzsche pensou, ao contrário, como a raiz ascética populista do cristianismo. E o que distingue a religiosidade da perversão arcaica-aristocrática é a repressão, o sadismo da expulsão eliminatória do que não se subsume ao definido unilateralmente como sagrado, ablação da alteridade. O regime arcaico da identidade absoluta atua a repressão que não é aquela útil, aquela de que depende a sublimação. Se a repressão inútil é a causa da neurose, Derrida não explicou a esta quando porém a definiu como o caso platônico. Ele ao mesmo tempo supõe a sublimação e o contrário, a neurose.

10 Esse modo de condenar in toto o "ocidente", o "logocentrismo", lembra o modo como Foucault condena in toto o regime disciplinar da modernidade. Contra isto, que é nada menos do que tudo, compreensivelmente nada se pode fazer. A resolução dos problemas fica adiada para depois da revolução total, cujo horizonte é nebuloso uma vez que definir o estado de coisas saudável só se poderia fazer numa completa independência ao estado de coisas presente, o que é historicamente impossível. A sublimação mesma, historicamente, até agora, é o estado de coisas presentes na Razão, isto é, na modernidade ocidental. Ou melhor, como contradição enunciada, apenas se pode fazer algo a partir disto, o que é um meio de se manter o discurso eurocêntrico, isto é, do capitalismo e modernidade industrial como evolução da Razão humana em geral. Um meio, pois, de (re)-construir a binária oposição central Ocidente/outro.

11 A ambiguidade de Derrida entre a sublimação e a neurose parece explicar esse gesto no vácuo, esse salto no mesmo lugar, que é o seu reconhecimento de que Platão está expulsando junto com a escrita autônoma, expressamente o sofista, porém ao mesmo tempo a sua tese de que Platão e o sofista pensam o mesmo sobre a escrita autônoma. Derrida não analisou de fato a expulsão platônica, "política", do sofista. A repressão arcaica propriamente dita. Algo interessante a propósito é cotejarmos as concepções de penalidade de Sócrates na "Politeia" e do sofista Protágoras segundo a doxografia. Enquanto Sócrates tem uma concepção penal arcaica, infantil heterônoma na classificação de Piaget, por onde a infração deve ser punida com castigos de severidade centuplicada relativamente ao delito, o que Sócrates esperava acontecer no além da vida àqueles que agiram pecaminosamente, Protágoras pensa que a penalidade é apenas preventiva do crime e correcional nesta vida, assim já dentro da classificação da moral adulta autônoma de Piaget. Uma pesquisa dos índices da sádico-analidade segregativa/homicida do socratismo platônico excede os meus propósitos aqui, porém seria importante a meu ver.

12 Derrida também não distinguiu os dois níveis que a meu ver estruturam o Diálogo em termos de um discurso sobre a escrita. Ou seja, ele não cobriu os trechos do Diálogo em que se trata do texto de Lísias como do nível da lição de estilo. Como coloquei, o nível da lição onto-lógica, sobre o ser-do-logos não se confunde com esse na tessitura do Diálogo. Ficando apenas nesse nível do estilo, o limite da lição socrática seria a comparação entre o texto de Lísias reportado por Fedro, e o mesmo texto reescrito como em versão corrigida por Sócrates, aplicando ele sua própria concepção de escrita na qual se misturam as regra de gosto e moral. Ou seja, sua concepção imperativa de começar pela definição.

13 Ora, é algo muito nítido, a meu ver podendo-se considerar proposital, que o resultado da paródia retificadora socrática do texto espirituoso de Lísias de fato resulta insuportável, nitidamente ilegível de tão tediosa. Mas eis o que seria esperável, se como na interpretação de Jaeger, trata-se menos da regra dos começos do que do ajuste perfeito da forma ao conteúdo.

14 Lísias escreve espirituosamente visando o público exclusivo do livro, mas para Sócrates o que ele escreve é isento de espírito naquele sentido da loucura inspirada inerente à verdade ideal, à revelação divina. Limita-se a um dever de sensatez que se não fosse já se ter um conceito negativo do "metafísico" Sócrates, poderia ser colocado sob a crítica de um hippie de hoje, ou um new lefter da "teoria crítica". O dever de sensatez, do pensar no amanhã, a regra burocrática de vida burguesa, a mediocridade em pessoa, o cotidiano do tédio utilitarista que açambarcou até o erotismo ora destinado ao crivo da opinião pública, à nova moda ou à velha prudência poupadora. Assim o que Sócrates ironicamente reverte na sua defesa religiosa do apaixonado, isto é, possesso por Eros, contra o não-apaixonado sensato, é sua própria posição repressiva da liberdade da opinião como da pluralidade da sensação. É Lísias, a sofística que apregoa essas liberdade e pluralidade, que uniformiza radicalmente, utilitariamente, e conforme a coerção natural da poupança como condição da propriedade, do comportamento próprio como submissão à opinião da sociedade.

15 O Fedro se torna assim um documento do idealismo, desnudando a sua estrutura não isenta de paixão, bem inversamente, de modo que hoje ele se torna um tornassol, um papel de prova dos discursos que se dizem contestadores. Não obstante a perfeição do recurso crítico platônico no plano ideológico, inaugurando o tipo de crítica da democracia cujos melhores frutos foram colhidos, bem inversamente a Nietzsche, por Jaeger na Paideia, a democracia como embuste, como impossibilidade lógica, o novo Senhor "demos", etc. Porém uma crítica que não suporta a controvérsia a propósito de poder ser ela abrangente da essência ou apenas de uma possibilidade degenerativa da coisa ela mesma. Haverá uma essência da democracia? Mas se ela é em devir, não é por ser ela o regime histórico por excelência, isto é, aquele que não suprime a emergência do devir – ao invés de mero contrassenso? Essa questão suprema, verdadeiramente fundamental do político, torna-se impensável no platonismo e no idealismo cuja face recente se define pela redução eticista da ação, relativamente ao político da Constituição. Ou seja, onde a democracia está proscrita como a burocracia, o político está cerceado pela pecha de sua identidade ao capital, o respeito pela individualidade é reduzido a alienação da diferença já sabida, a resolução dos problemas pela conquista e garantia dos direitos políticos é refutada como apenas "reformismo", obstáculo à Revolução totalizante do que foi apenas unilateralmente definido, longe da complexidade refletida.

16 Em Platão, a lição da forma se converte pois num enunciado do conteúdo, porém ainda num mesmo nível se até onde ela vai é somente roçar o limite da liberdade, a colocação ordinária do problema político. Já o nível de estruturação do texto platônico em que se trata não só da questão do estilo, mas da significação mesma da escrita, onde a fronteira se transpõe e se atinge a onto-teo-logia, já vimos introduzida por Derrida na ambiguidade das condenações da escrita, entre a neurose auto-negadora de Platão e seu parentesco ao enunciado sofístico da ineficácia. Ao que me parece, "A Farmácia de Platão" não decide entre a condenação platônica da escrita por ineficácia ou, inversamente, por ser eficazmente desviadora.

17 Em Sexto Empírico, no "contra os retóricos", ambas as teses são examinadas como igualmente provas da vacuidade da pretensão de haver uma ciência da linguagem. Se a retórica é inócua, então ela não tem sentido como tal, e de fato os mestres da escrita, os grandes poetas e escritores como Platão mesmo, não precisaram estudá-la. Mas se é como ela apregoa, um domínio fascinante e infalível sobre a opinião, então ela é positivamente perigosa para todos os objetivos éticos e políticos. Seria o maior dos males que poderia acometer a Cidade, se o retor que Sexto exemplifica apregoando que tinha domínio sobre todo um país apenas pelo fascínio de sua verve estivesse sendo sincero.

18 Aqui Sexto não é muito correto no exame da possibilidade restante, a saber, a retórica forense e estilística. Ele examina esses tópicos, mas de um modo que reflete apenas os argumentos metafísicos. Já referenciei que ele considera que Platão e os grandes mestres da escrita não precisavam de estudos gramáticos ou retóricos, porém de fato isso não é verdadeiro quanto a Platão, que como estamos constatando, dependeu muito de seus conhecimentos dos ensinos dos sofistas, para bem ou mal. Quanto à retórica forense autêntica, a pecha de que o aticismo é verborrágico quando o requisitado é a prova material - em vez de um texto esmerado, o rei só tem tempo para uma petição curta entre os tantos assuntos de que deve se ocupar; em vez de muita argumentação, mostra o advogado os belos seios de Frinê, e o júri a absolve imediatamente pelo exercício da sua injuriosa profissão de prostituta.

19 Elogio aos Lacônios. Mas que de fato ignora o preceito de Córax e Tísias de que a retórica não deve ser usada quando a prova factual existe. É porém o instrumento necessário quando se está limitado a convencer por argumentos, mas o contexto dessa exortação sendo o tribunal forense ou a assembleia legislativa, enquanto o contexto da crítica sextiana é o Rei que delibera sozinho arbitrariamente. Mas assim vemos que a retórica não se limita ao ornamento. A reutilização pretendida por Platão e Aristóteles da retórica num status não "sofístico", apenas como auxílio da lógica ("dialética"), a serviço da Verdade, de fato apenas reconsidera o que como vimos, o Elogio de Helena de Gorgias autoriza a interpretarmos como o que o consciencioso retor ensinava, ou seja, a identificar os recursos utilizados na tessitura de um discurso, de modo a desconstruir as mistificações dos retores não conscienciosos.

20 Aqui um estudo das questões sofísticas, por exemplo os preceitos de ser impossível falar o falso ou ser impossível refutar, seria demasiado aos nossos propósitos, mas importante utilizar os resultados. Se é muito difícil entender hoje essas teses que nos parecem paradoxais, havendo tantas contribuições dos estudiosos a propósito do que poderiam significar, o Elogio de Helena parece apoiar a convicção de que não eram apenas pressupostos da venalidade, ao contrário do que Platão e Aristóteles pressupunham. Em todo caso, independente da necessidade de se esclarecer a relação escrita/retórica, e da duplicidade da crítica à escrita apresentada por Derrida, entre o desviação platônica, a ineficácia sofística, e a dúvida sobre se Platão se contradiz considerando também o ineficaz do escrito relativamente à "fala viva", o problema aqui é que o trecho referenciado não enuncia qualquer inutilidade ou ineficácia. Inversamente ao pretendido por Derrida ao menos enquanto o bastante para definir a equivalência das oposições fala/signo, animação/inércia. A referência é o comentário de Sócrates (275) ao que ele mesmo apresentara – na aparência parodicamente – como o mito egípico da invenção das letras por Thoth. Há de fato vários elementos questionáveis quanto a isso. E como espero ter ficado claro até aqui, são muitas as irredutibilidades de interpretação que podemos definir a propósito da Farmácia de Platão.

21 Inicialmente vemos que onde Derrida procede como se o mito egípcio-socrático de Thoth se endereçasse como a fala de Sócrates representando sua posição autêntica no Diálogo, há motivos para duvidar disso, e, inversamente, não faltam evidências de que o mito aí comparece não só como instrumental à argumentação. Isto é, como se dela fosse a figuração perfeita.

22 A meu ver é validável a leitura do texto na qual o mito mesmo comparece como citação do que é comum ouvir sobre o assunto, feita porém com intenção de se julgar a referência. E nesse juízo sobre o mito da escrita Sócrates dosa o sim e o não, mas para fazer do mito um meio de expressar sutilmente a decalagem das proveniências não-grega e grega quanto às estimativas sobre o assunto. Como o cerne da interpretação de Derrida se estrutura em torno do mito de Thoth, e desdobra tantos pontos incontornáveis, procederei primeiro um exame visando apenas reconstituir o estudo de Derrida em suas relações pertinentes. Em seguida desenvolvo a crítica que me parece hoje estar sendo muito necessária.

 

b) Um mito?

1 A princípio devemos lembrar que o mito da escrita no Fedro é narrado por Platão pontuando a fala de Sócrates como se este se lembrasse oportunamente do que já ouvira. Assim, que se trata de um mito egípcio é apenas o que o texto platônico cria na ambientação da conversa de Sócrates e Fedro sobre o sucesso recente de Lísias, o amor e a logografia. A parte inicial do Diálogo que Derrida não negligencia, aliás, é apenas a que serve à instrumentação da questão sobre o mito, abstraindo assim o que nessa parte configura toda a ambientação, o motivo mesmo, do Diálogo. Na parte não negligenciada, um comentário incidental sobre os mitos, é em que Derrida encontra a ocasião motivadora da sua personificação do "pharmakon". Isto é, da sua interpretação da metaforicidade mítica na qual a escrita é apresentada por Thoth como um "remédio", mas jocososamente renegada por Thamuz como um "veneno” - Platão jogando assim com os dois sentidos da palavra "pharmakon", que significa geralmente "filtro" ou "poção", isto é, "droga" (p.14 e segs.), e até "golpe' (p. 123).

2 A motivação de Derrida para uma definição do locus mítico no platonismo, é a estória mencionada pelos dois amigos a propósito de "Farmaceia". Brincava ela com uma amiguinha chamada Orítia, que foi arrebatada pelo vento precipitando-a contra as rochas próximas. Na introdução do Fedro, o local do acontecimento lendário é mencionado como aquele no qual Sócrates passeava com Fedro na ocasião que o texto está reconstituindo, havendo nos arredores um altar erguido ao vento Bóreas. Fedro arrastara Sócrates até lá para juntos examinarem o texto de Lísias, mas a questão para Derrida é somente que Sócrates aí se diz não muito crente de "mitos" como este relacionado a Farmaceia. Sócrates os manda passear, "khairein", ir embora.

3 Assim por um lado, Derrida explora a semântica do nome da moça da lenda, Farmacéia, como um derivado de pharmakon, que implica pois perigo, ambiguidade entre remédio ou veneno. Assim a lição da lenda conforme Derrida é ser perigoso brincar com Farmaceia. Isto é, na etimologia que Derrida reconstitui como ao fulcro desse trecho que encerraria a lição platônica no Diálogo, é perigoso brincar com o pharmakon, com o que tem eficácia de droga, por extensão, o que tem potencial de fascínio, de desvio à desrazão (op. cit. p. 14).

3’ Derrida extrapola o texto do Fedro para mostrar em outros textos platônicos que o pharmakon é tão temido que até mesmo sua potência de remédio é evitada. Supondo tudo natural e vivo, segundo a Escola médica hipocrática de Cós que ensina a relação do corpo como parte do todo-Natureza e assim visa a relação do organismo com o ambiente, o idealismo platônico considera que também a doença é desse modo, portanto tem um prazo de duração, não devendo-se interferir por meio do remédio para não prejudicar a vitalidade do corpo que é independente da vitalidade da doença. Derrida não analisa a atualidade dessa concepção, mas é algo bem conhecido que ela relaciona-se efetivamente com o "humanismo" de origem fenomenológica, a anti-psiquiatria de Laing e Cooper, e temas relacionados como a origem psíquica dos males físicos.

4 Porém como se pode verificar no "Sabedoria Incomum" de Fritjof Capra, na controvérsia entre vários profissionais registrada no livro uma médica colocou bem que ela podia ter essa concepção bem sabida e assimilada, assim como sabemos sobre o capitalismo da indústria farmacêutica multinacional, contudo se ela ministrar o remédio o doente se cura ou, se a doença for incurável, sobrevive, caso contrário não basta instruir a pessoa de que tudo é questão do seu psiquismo. Li na internet um artigo sobre Rolo May, que informava sua residência na Grécia como psicólogo humanista, e o caso da doença que teve e seu tratamento médico e farmacêutico, porém depois de curado declarando ele que a cura se deveu à sua intenção interior, não a algo externo. Como vemos, a controvérsia atual está subjacente a muito da perspectiva derridiana do Fedro.

5 Por outro lado, no reverso do que assim constituiu na apresentação do caso Orítia, para Derrida o khairein socrático dos mitos nesse início marcaria a oposição central do texto, o fora/dentro, a partir de pares de opostos derivados. O mito estaria para Derrida oposto à filosofia assim como a fantasia e a racionalidade, loucura/razão, aquilo que porém, inexplicavelmente, é o mito de Thoth que define centralmente como domínios do signo e da fala. Na interpretação derridiana do Diálogo, a mensagem platônica é que o logos é como o pharmakon, droga ambígua: ou fala terapêutica, vivificada pela verdade anímica interior, ou logro venenoso, fantasia de sentido a partir de signos inertes não obstante poderem ser artificiosamente ornados. Exatamente como o que figuraria a escrita na concepção de Thamuz quando se trata do mito narrado por Sócrates.

5’ O mito de Thoth, pois,segundo Derrida, bem inversamente à impressão de alguns sobre o Fedro, Diálogo mal composto onde a fala de Thoth comparece quando já tudo foi dito e portanto não se sabe bem o que faz aí, ocupa "o centro muito bem calculado do Diálogo (p. 12): Thoth apresenta ao seu pai, o pai dos deuses, suas invenções, entre as quais a escrita que ele designa "remédio" da memória contra o esquecimento.

6 Thamuz aprova muitas, mas a isto responde, não, apenas troca do certo pelo duvidoso, indução à fantasia da letra como verdadeira voz falante, "veneno" para a memória, esquecimento personificado. Aqui a crítica ao idealismo platônico seria bem fácil endereçar, pois a voz falante não é obviamente por si só isenta da possibilidade da mentira. O texto platônico encenaria, ademais, segundo Derrida, o desvio do pharmakon, nessa circunstância do Diálogo em que Fedro arrastara Sócrates para o campo, um lugar ermo, de modo que ele possa ler o texto de Lísias e conversarem a propósito.

7 Afinal as oposições loucura/razão, escrita/fala, morte/vida, etc., mais geral e circularmente entre o que não tem presença por si e o que é "o" presente em si, o fora e o dentro, são demonstradas por Sócrates um complexo anti-escritura da mentalidade antiga, como já vimos exaustivamente até aqui, assim não originalmente platônico. Platão só teria feito a reconstituição mais minuciosa e exemplar dessa mentalidade. Porém ela é e não é "antiga". O texto platônico apenas sistematiza a mentalidade vigente, ele não é original, porém ele não o faz mitificando, simbolizando nesse sentido. Ele (re)-cria a sistematização em si, a lógica inconsciente que a impregna como a ilusão da "verdade" primeira, isto é, a memória sem signo. Essa lógica fantasiosa, essa proscrição do meio mesmo pelo que se faz todo lógos, é sistematizada como a filosofia, é a filosofia em si enquanto "metafísica". E a filosofia ainda não se acabou na ciência. O trio Platão-Rousseau-Saussure comanda a sistemática da escrita que um ato prévio, uma motivação inconsciente, só permite considerar pensável "no interior de uma problemática da verdade" (p. 105) - ou seja, circularmente, aquela da verdade como tal apenas ser possível anterior ao signo, não construída por qualquer movimento ou axiomática já semiótica.

8 Nesse trecho Derrida está visando a reentry da escrita na tessitura do platonismo assim como reconstituível na leitura do Fedro. Ela foi expulsa, mas deve voltar: "Essa autoridade da verdade, da dialética, do sério, da presença, não se desmentirá ao fim desse admirável movimento, quando Platão, após ter de algum modo reapropriado a escritura, leva a ironia - e o sério - até a reabilitação de um certo jogo. Comparada a outros jogos, a escritura lúdica e hipomnésia" - assim pois, condenável - "a escritura de segunda ordem vale mais...", ela deve sobrepujar, tomar a dianteira, transitar "à frente de seus outros irmãos, pois ainda há piores na família. Assim, de vez em quando, o dialético se divertirá escrevendo, acumulando os monumentos, os hupomnémata". Se a escritura não é uma verdadeira memória, ela pode ser mais do que um rastro seco, estéril, dispêndio inútil de tinta, água, esperma, se ela for ainda uma reserva, uma poupança, um verdadeiro arquivo, escrita de um saber realmente existente na alma do escritor, inversamente a um exercício da letra pela letra. A escrita proscrita retorna como "grafia psíquica". Uma longa história conceitual subjaz sob essa expressão, inclusive Freud, o descobridor do sistema - porém que ele não podia admitir sem um "psiquismo" em algum lugar.

9 A proscrição da escrita é o ato fundador da metafísica em dois sentidos. Primeiro, é o ato inaugural do signo cristalizado, encerrado, na duplicidade do significante-significado. E é o ato eterno, a certificação existencial-discursiva, da alma. A alma enuncia pois o encadeamento do signo, a prisão do significante na subsunção ao significado. Uma anti-metafísica do signo não surgirá da abstração do caráter de subordinação sob as escusas da mera duplicidade, como faz Saussure. Na discussão corriqueira sobre o signo, se funcional-icônico ou saussuriano-arbitrário, apenas se faz a descaracterização do arbitrário, a limitação do que ele pode. Na Gramatologia, não há o inscritível - arbitrário ou não - porque houve um concebível. Há o concebível porque houve um inscritível. Não é porque há a coisa que se cria o projeto em que ela será utilmente articulada a outras coisas e aos gestos da atividade que as reúne na ação. Há primeiro o projeto, planificação semiótica, conjugação de traços, "grama" inscrita na mente atuante, e pelo projeto é que as coisas se qualificam como tais.

10 Se o caráter secundário da escrita extrapola para Derrida o contexto antigo, vejamos como foi feita a crítica dessa concepção da escrita proscrita no próprio contexto antigo, assim instituído como originário.

 

c) Da Farmácia, ao Escritório… e ao Aviário

1 Em "A Escrita de Orfeu", Marcel Detienne considerou que bem inversamente à oposição derridiana de escrita e fala instituída no Fedro, como na mais arcaica oposição do inconsciente segundo Freud, a de fora e dentro, há vários referenciais míticos e institucionais que mostram uma comunhão íntima na mentalidade antiga entre a escrita e a voz. Ora, quando ao mito de Orfeu, Detienne coloca que 'havia então no orfismo uma escolha da escrita, uma vontade do livro plural tão profunda quanto a renúncia ao mundo dos outros, aos valores políticos e religiosos da cidade. Com efeito, a salvação que se cultivava no meio dos puros e dos intelectuais se efetuava também por meio de uma literatura: ela era ganha por meio da escrita que coincidia de maneira absoluta com o gênero de vida órfico, uma escrita que contava o triunfo de Orfeu sobre a morte e o esquecimento." (op. cit. p. 89)

2 Detienne registra vários referenciais que mostram o acolhimento da escrita na alma politeísta antiga, de modo que a objeção ao exemplo órfico devido ao seu caráter iniciático e anti-social se torna neutralizada. Há a deusa da escrita: "Na terra dos Vênetos, há uma vintena de anos, descobriu-se um santuário mais estranho que os outros, datado de quinhentos anos antes de nossa era." (p. 80) Aí havia oferendas que se constituíam em material de escrita, plaquetas alfabéticas, estilete, buris de bronze, oferendas que os experts em vêneto decifraram serem feitas a Reitia, "aquela que escreve". A decifração dos arquivos da deusa Reitia permitiu aos historiadores da escrita itálica reconstituir a história do vêneto, desde o alfabeto modelo dos etruscos até o alfabeto consonântico que um clérigo letrado tornou conhecido. A relação da escrita com o sagrado na Antiguidade é minuciosamente coberta por Detienne. A tradição do livro sagrado não seria pois, unicamente bíblica, a bíblia sendo exemplo de práticas bem conhecidas.

3 Sobretudo, Detienne estuda o que considera a dupla escrita do mito no platonismo, entre o Timeu e o Crítias, onde se trata do texto platônico sobre a mitologia. E no interior do Crítias, mais especificamente. Entre o Timeu e o Crítias a recordação da origem depende da escrita egípcia, dos egípcios terem conservado por escrito a memória do passado. O mito depende da escrita, e assim a memória. A relação de mito e saber está garantida pela antiguidade do referencial relatado, o fato da origem.

4 Detienne encena também um platonismo localizado: "Escritório", contudo, enquanto Derrida o situa na “farmácia” (op. cit. p. 129 e ss.). Quanto a nós, se a questão é onde Platão se estabelece, observamos no Teeteto o próprio Sócrates instalar a memória no Aviário. Pois os conteúdos da memória são como aves caçadas que aí se aprisionam. Se essa referência é restrita à hipótese das lembranças deste mundo, de modo que restaria explicar a faculdade do juízo, naquilo que qualquer um pode se enganar, trocando um correlato mnésico relativo a algo percebido por outro - ou seja, restaria explicar “tudo do conhecimento” - o que mudaria se o terreno da caçada fosse a planície da Aletheia referenciada no Fedro? A “visão” continua sendo o veículo da aquisição da memória, mas se não do sensível, o ver theorein - sem mediação judicante - inteligível. Eis o ver tornado inatista aqui - mas não “lá” - que torna qualquer julgamento possível. E como vemos, farmácia, escritório, aviário, tudo convém ao estabelecimento do platonismo… menos a “Academia”. Os Diálogos socráticos jamais permitiriam supor que se faz filosofia além da conversação com os amigos e à vista de todos. Mas convém ser Platão o referencial do estabelecimento? Se não a Academia… Sócrates. O que Derrida e Detienne esqueceram na letra do platonismo.

5 A dupla escrita do mito em Platão seria pois gerativa. Nela Detienne discerne as duas tendências da antropologia atual. A mitologia-quadro e a mitologia-saber (p. 144), correspondem pois às realidades ou às idades da memória. A mitologia-quadro é um sistema de pensamento já organizado e escrito, como a memória arquivada dos egípcios nos Diálogos platônicos. Ela é pós-escrita, correspondendo à atualidade do método estrutural. A mitologia-saber inversamente é ante-escrita. Ela corresponde à ação investigadora do passado, tendo lugar numa sociedade como a dos gregos, instável, sempre recomeçando após os cataclismas, onde períodos sem escrita eram pois recorrentes. A mitologia-saber é a pesquisa minuciosa que na Antiguidade recobriu várias atividades de reconstituição do olvidado, é a forma narrativa ou histórica da antropologia. Em Detienne, porém, a mitologia-saber, a narrativa como o método histórico, decore "dentro da mitologia-quadro do pensamento". (p. 145) Inversamente ao costumeiro, o método histórico se desenvolve apenas a partir do estrutural.

6 Independente das questões de precedência, causa espécie a concepção de Derrida sobre o khaírein, em grego algo como mais simplesmente "expulsar", e Derrida traduzindo ao modo pitoresco, "mandar passear" os mitos, como a ordem socrática no início do Fedro (p. 12 e segs.). Uma vez que Platão é o metafísico que se utiliza dos mitos, até no mesmo Fedro, inversamente a Aristóteles que os considera procedimento pueril. Derrida cita Frutiger, que descobre "os únicos 'mitos platônicos que são rigorosamente originais: a fábula das cigarras no Fedro, e aquela de Theuth no mesmo diálogo'".

7 E como vimos, Derrida considera o mito de Theuth (como também se escreve) uma espécie de anti-mito, assim como o pharmakon é "a própria anti-substância", na qual o "basileu-patro-helio-teológico" (p. 85), pai dos deuses e o Real solar,  e a quem Sócrates vai dar razão sendo essse pai dos deuses contudo a razão mesma, personificada, a assistencia do Logos a quem não se desviar pelo signo, proscreve a escrita inventada pelo seu filho mais velho Theuth. O mito teria estabelecido pois a escrita como artifício. Mito do qual Platão se utiliza apenas para fazer o processo contra a escritura acusada de ser uma "manteia, Sócrates o disse (275 c)", isto é, uma magia, uma feitiçaria. Sócrates assim a considera, ele "cujo discurso vai, daqui em diante, dedicar-se a traduzir esta manteía em filosofia, a converter em moeda o capital" - bem ao contrário de Mallarmé, que ao contrário da moeda corrente da fala queria na poesia apenas o tesouro da língua, poderíamos recordar. E a esse capital, "fazê-lo valer, a dar conta e razão", sobretudo dar razão a Thamuz. A relação do mito com a obra metafísica seria pois de sucessão: "A transformar o mûthos em logos".

8 O uso do mito como o núcleo do Fedro em Derrida, depois do Khaírein dos mitos que o próprio Derrida instala como início definido do Diálogo, fica misterioso. Podemos crer nesse Khaírein? Na verdade a estória de Orítia que logo após se apresenta devido à localização do diálogo ser num local associado a essa estória, poderia não ser considerada um mito no sentido sagrado, mas lenda popular - além de que o texto platônico não culpa diretamente Farmaceia, a circunstância da brincadeira com essa menina, mas sim a ação do vento, a lenda aí contada transformando o fato de Orítia ter sido fatalmente arrojada contra os rochedos quando brincava com Farmaceia, na versão poética de que o vento Bóreas a teria assim raptado - como já vimos, por aí o tropo derridiano da Farmácia, isto é, o jogo de palavras entre Farmaceia e Farmakon, ambos perigosos de se brincar, o pharmakon podendo ser veneno ou remédio, dependendo do uso que se fizer dele, e como figura do logos, a palavra. Somente o que Sócrates rejeita nesse trecho do Fedro é porém esse tipo de estória popular, a lenda que degrada o mito, não o mito como substância do sagrado. E o mito verdadeiramente sagrado das origens, Aristóteles mesmo não rejeita desde que depurado de todo acréscimo ou distorção popularesca, como Aubenque fez ver, considerando ser a verdade religiosa irretorquível que caberia agora à filosofia estar enunciando por meio da demonstração conceitual. Assim também Detienne supõe tê-lo demonstrado quanto a Platão, e sobretudo quanto à escrita.

9 Ora, Derrida não ignora ser bem possível "dizer que Platão continua a pensar a escritura a partir do lugar do rei, a apresentá-la no interior das estruturas então proscritas", pela democracia, "da basileia" (op. cit. p. 107). Isto é, da "realeza" assim como designada no contexto homérico que é segundo Vernant em "As origens do pensamento grego" mais aos palácios circundados pelo demos silencioso dos tempos arcaicos da acomodação dos genos após a idade das trevas durante as invasões dóricas. Assim mais como a Ítaca de Ulisses, do que como Homero faz crer que seria o referencial micênico de séculos antes, o que ele jamais conheceu - Vernant não julgando porém que ambos os lugares históricos, ainda que com cargos reinantes peculiares, não deviam ser muito diferentes. O contexto dessa colocação é o comentário de Derrida sobre o contraste dessa cena de família que é o mito de Theuth no Fedro, conforme sua leitura: "Esta cena nunca foi lida pelo que ela é inicialmente, abrigando-se e manifestando-se ao mesmo tempo em suas metáforas: de família". Mas que família! Em cena, o pai Thamuz, Theuth, o filho rebelde… e o bastardo, a escritura.

10 Se a bastardia da escritura é o ser-simulacro, não uma fala mas a aparência de uma, se no Fedro Sócrates conclama a colocar o logos legítimo no lugar do logro bastardo, o caráter infixo da escrita é o correlato do simulacro - nem mesmo ela é "o" fora. Sendo o contrário do dentro, sim, mas por não ter características fixas, é o que fica aqui ou ali, não importa, é o que circula - ela é também o que não tem privacidade, o que está ao alcance de todo mundo, e eis o caráter grego democrático da escrita. Aí Derrida cita Vernant em "Mito e Pensamento entre os Gregos': "Na Grécia clássica, ao invés de ser o privilégio de uma casta, o segredo de uma classe de escribas trabalhando para o palácio do rei, a escritura torna-se 'coisa comum' a todos os cidadãos, um instrumento de publicidade..." assim como as leis "deviam ser escritas". Ao contrário, o platonismo abre uma via não-democrática à escritura. Derrida aqui é sutil, ao que me parece, porque ele permite notar que não se trata no platonismo, quando na subsequência da proscrição a escrita retorna, apenas do caráter iniciático da escrita ou do livo, mas de um fundo político.

11 Ora, em todo caso, o contraste das perspectivas de Detienne e Derrida poderia ser visado em torno da questão da precedência. Conforme Detienne, se no prólogo do Timeu a narração apresenta-se como a verdadeira história de Atenas, escrita no Egito, não significa que a escrita é secundária. A narração baseia-se nos escritos, não seria possível sem ela, e a escrita aparece com a organização do Estado egípcio, como um modelo universal válido inclusive para a Grécia. O curioso é que justamente tratando-se do Egito, proveniência mítica de Toth, segundo Detienne aí não há necessidade de inventor da escrita. Os escribas estão ocupados desde sempre, desde que existe o memorável, o que veio a ter forma, o Estado e as leis. Esse trecho poderia relacionar-se ao capítulo do mesmo livro de Detienne sobre Palamedes, o honesto herói que segundo a epopeia de Estásimo de Chipre, os Cantos Cíprios (séc. VII ac.), inventou o abecedário, jogos como gamão e dados, a métrica e os números, os pesos e as medidas. Antagonizado por Ulisses que se poderia caracterizar o astucioso senhor da fala, por tê-lo denunciado quando Ulisses se fingiu de louco para não participar da guerra de Troia, Palamedes, que inversamente a ele acreditava na verdade garantida pela escrita como o registrado da letra, sucumbe pela falsidade arquitetada por Ulisses, envolvendo cartas falsas que o faziam parecer cúmplice de Príamo. Detienne observa aí como também no Fedro, que Platão não estabelece diferença entre os números e os jogos, assim como entre as invenções que Thoth apresenta ao pai, a escrita consta junto com os números, num mesmo plano da geometria, astronomia, o gamão e os dados. Em todo caso, o contraste é claro.

12 Em Platão reconstitui-se a escritura modelo, originária, fiel da memória daquilo que é belo, grandioso e notável, como se pode constatar lá onde ela é sempre tendo sido, o Egito. Ao contrário, na Grécia, o mito de Palamedes mostra a invenção, o vir a ser da escrita, como o que os gregos teriam que reconstituir a partir da instabilidade fundamental de sua história. Em Derrida, inversamente, é já em Platão, mesmo se a escritura "intervem, pois, cada vez que a diferença e a relação são irredutíveis, cada vez que a alteridade introduz a determinação e põe um sistema em circulação. O jogo do outro no ser, Platão é obrigado a designá-lo como escritura num discurso que se queria falado em sua essência, em sua verdade, e que no entanto se escreve". (p. 118). Entre Detienne e Derrida poderíamos pois colocar o contraste do seguinte modo. Para o primeiro, a escrita na Antiguidade é pensada sob o modo da presença. Para o segundo, ao contrário, a presença é o contrário da escrita no pensamento antigo. Ela é o simulacro da presença, o rastro da ausência.

13 Ora, esse desacordo não implica uma tomada de posição tal que cada um dos virtuais litigantes estariam defendendo um conceito de escrita diverso do outro. Eles estão apenas se pronunciando sobre a mentalidade do politeísmo antigo. O método estrutural contemporâneo implica de fato uma concepção positiva do significante como ausência, ele se coloca pois como o impossível do mundo Antigo - não obstante a gênese "antropológica" postulada por Detienne em Platão. Aqui, então, vemos que o contraste verdadeiro que instrui o pensamento de Detienne não é esse, e sim entre o sagrado e o mundano, a escrita mítica e o rito como a presença, ou o signo materialmente construtor da presença, num palavra, o antigo ou o contemporâneo. Até mesmo aqui seria a oportunidade para retificarmos um tanto a atribuição do apenas estrutural a Detienne, quando ele já se expressa em termos do maquínico pós-estrutural para designar a sociedade de partes iguais que o mito institui. A letra do mito prescrevendo a multiplicação das partes desde um princípio de divisão igual, precede a prática em que os seres humanos se socializam de um certo modo. A letra é a máquina que funciona como a sociedade mesma. Ainda que essa escrita antiga não permita aceder à consciência do seu caráter construtor, de um certo modo a comunidade da escrita e da presença através do rito é uma construção em ato, fantasiada, i.e., vivida, como a coisa mesma construída. Aquilo que geralmente se entende por historicidade da consciência, o caráter irredutível do primitivo pré-egológico e do contemporâneo ego, aí se apreende com a maior clareza, como vemos.

14 A perspectiva contrária à máquina não é, pois, a derridiana, é sim a asssim designada humanista, a dos fenomenológos e existencialistas, que supõe a prática e o significado que a instaura precedendo como uma causa ativa à letra do mito que apenas a expressaria - isso, não obstante um humanista contemporâneo estar argumentando para mostrar que o ego não é construído como efeito da linguagem na mente, mas sim precedendo a qualquer signo, o que um primitivo como se considera nessas teorias procede como vimos por conjunção estrita de si ao locus comunitário. Assim a encenação da oposição real poderia ser o Limited Inc, onde Derrida confronta a crítica intencionalista e humanista de Searle à sua concepção da linguagem-letra como o que prescinde de destinatário na origem, não sendo comunicação nesse sentido intencional, mas as regras imanentes de seu funcionamento maquínico que podem, conforme o gênero de texto, construírem elas mesmas as posições aparentes de emissor e destinatário.

15 Ora, o que me parece notável assim é que essa concepção (pós)-estrutural repete o platonismo naquilo em que este condena, definindo como a escrita, ao menos na versão de Derrida. Ou o que o platonismo e a Antiguidade desconhecem como uma "autonomia da escrita" irredutivel à reposição da presença. Ou seja, enquanto a tese humanista se deixa reduzir ao equívoco platônico da presença, com ou sem a letra, a tese (pós)-estrutural revela-se apenas um platonismo, ainda que invertido. Isso é muito explicitado em Derrida, a fórmula da "desconstrução". Assim nos seus estudos sobre Rousseau, Saussure, Freud, do mesmo modo que Platão, trata-se de mostrar que nenhum deles ignora a autonomia do significante, a origem infixada da letra, porém todos eles o postulam apenas no modo da derrisão e como o que se necessita evitar por um puro idealismo do significado, ainda que como exceção, Freud menos condena como evita para tratar apenas, em relaão ao inconsciente, a "metáfora" da "escrita psíquica". Restaria a Derrida como o procedimento da desconstrução, então apenas mostrar a inconsistência desses discursos, as contradições necessariamente resultantes, contrastada à espantosa acuidade com que definem aquilo a que se opõem. E o definido oposto sendo pois o enunciado mesmo do significante na ciência pós-estrutural.

16 Quanto à Detienne, podemos notar que o contraste de sua concepção de escrita na mentalidade antiga à de Derrida só se define em torno da presença para caracterizar o mesmo contrassenso arcaico que Derrida aí situa. Podemos observar isso na concepção de Detienne a propósito da escrita não "autônoma" no sentido dessa autonomia oposto ao da materialidade do significante, isto é, como presença em si mesma. Entre os sofistas e os poetas laicos da Polis como Simônides de Ceos, a escrita não é o veículo sagrado do mito das origens sobre-humanas. Ora, nesse caso, como vimos, Detienne mostra apenas uma mentalidade na qual a escrita não é capaz de verdade, nenhuma linguagem, pictória, falada, etc., pode ser. Ela é o veículo das "artes do engano", tanto mais admiráveis quanto mais conseguem enganar aqueles que se aborreceriam se ela não o conseguisse, na verdade, como ficção bem arquitetada.

17 A verdade conserva-se apenas como efeito antinômico do arcaico "esquecimento" deslocado agora, no seu papel de contrário à verdade, pela "falsidade". Fora do modelo da presença, segundo Detienne, os gregos não descobriram o funcionamento imanente do significante, apenas o contrário do verdadeiro, o falso. A ingenuidade de um Simônides é patente, já que a letra menos o mito arcaico seria apenas o falso, porém o mito é propriamente a letra, nem poderia ser outra coisa.

18 A oposição comum a Detienne e Vernant entre por um lado os beletristas sofísticos do falso e por outro os filósofos religiosos do verdadeiro, que assim a seu modo restauram, contra a palavra-diálogo isonômica na Cidade, a palavra-verdade arcaica, que só era verdadeira pela posição sagrada do falante, o sacerdote em meio ao rito ou o rei mago, ambos sábios por jamais esquecerem as palavras do ritual garantidoras da presença dos deuses, não responde à questão sobre se o mercenarismo citadino da memória, pelo qual se paga alguém para compor uma poesia que eterniza o homenageado pela fama do poeta, ou a restrição sofística à doxa, implicavam irreligiosidade. Desdém franco pelo conteúdo da crença.

19 Guthrie em "The Sophists", revela a propósito que havia uma margem de irreligiosidade e iconoclastia na Polis democrática, porém a meu ver é mais importante notar que Protágoras defende a religião como liame cívico e esta era uma posição mais comum, haja vista o processo contra Sócrates movido à base a acusaçaõ de asebeia, impiedade como desdém pelos deuses da religião cívica. O fato de Protágoras criar mitos à vontade, que manifestamente poderiam ter o conteúdo expresso de outro modo, não significa que ele não tivesse fé alguma na realidade de Zeus como personificação da soberania e das tempestades, por exemplo, uma vez que, como Snell mostrou, para um grego antigo seria impossível não crer nos deuses, já que personificavam fenômenos naturais, como é impossível a alguém não crer nos fenômenos naturais eles mesmos, a menos que seja descrente da própria sensação na sua capacidade de apreender o ser das coisas. Para Snell uma história da linguagem teria salvo Sócrates, se ele objetasse que ninguém poderia não nomizethai - o termo na raiz de numismática, o que tem valor - não dar valor aos deuses, posto que eles são as coisas elas mesmas. Sendo porém a descrença na realidade por trás das sensações cambiantes e subjetivas, o caso na sofística e no ceticismo, a redução das significações à sensação não levava à irreligiosidade, apenas a reduzia, no ceticismo, à fé como à liberdade de crer ou não, inversamente à metafísica como prova teológica racional, e na sofística ao critério social do culto religioso, que ainda tinha na Grécia Antiga alcance legal.

20 Em todo caso, o que ninguém postulou até agora é que os gregos sabiam que o significante cria os critérios sobre os quais baseamos nossos juízos do bem e do mal, do falso ou do verdadeiro, o que nós hoje sabemos pelo fato de conhecermos a variação histórica, isto é, critérios que não são iguais aos nossos, e que no entanto funcionam do mesmo modo, produzindo os mesmos efeitos. Cabe aqui a resposta sobre se isso basta. Pois o que significa "histórico"?

21 Mondolfo, colocando a antinomia kantiana no lugar construtivo da inteligibilidade, ordenou uma história como progresso de milênios, da filosofia ao ceticismo e deste ao kantismo como descoberta da lei antinômica do espírito. Lembrando que os céticos opunham teorias rivais uma a outra como contrárias mas não viabilizando decisão sobre qual a verdadeira, a evolução seria pois dessa antinomia como aberração da razão, a prova da não cientificidade das teorias, até o kantismo que internalizou na razão mesma o pêndulo antinômico das opiniões opostas, mostrando que a indecisão pertence à própria razão que produz ideias além do que o entendimento, ele mesmo racional, pode coar da experiência, ideia portanto que não são válidas em si, como a do Mundo, do Eu e de Deus, mas podem ter um papel "regulador" ou um papel moral. Porém Mondolfo não observou que a dialética dos contrários, não a platônico-aristotélica mas aquela que Hegel poderia ter retomado de Heráclito, não inaugura a história sem a descoberta não kantiana da síntese como devir após a antítese do não-ser relativa à tese do ser. O que Hegel instaura como filosofia da história, é pois o que poderia situar a própria descoberta kantiana, não tanto o transcendental, nem só a antinomia, mas a antinomia como lei da subjetividade transcendental rumo à síntese definida como a consciência enunciadora dessa mesma lei, a auto-descoberta do homem como sujeito autônomo, a realização do espírito na e como a História da emancipação como da auto-consciência dos sujeitos quanto a sua subjetividade. Essa descoberta depende pois de certa antinomia, não qualquer, mas a assimetria da dominação que foi o motor da história, a dialética do senhor e do escravo que conduziu à libertação do escravo pelo seu trabalho convertido em conhecimento sobre a natureza. A libertação vem quando todos somos sujeitos perante a lei da autonomia da consciência, a constituição do Estado contemporâneo, ela é pois a modernidade.

22 Na polêmica heideggeriana contra o progressismo constitucional subjetivo de Hegel, consta a dúvida lançada à subsunção dos gregos a um estágio ultrapassado na história, ainda que com honrosa posição de estágio inaugural da filosofia. Para Hegel, como para a maioria dos modernos, os gregos não conheceram a subjetividade, para Heidegger eles foram, enquanto pré-socráticos, ante-metafísicos, aqueles que a pensaram como a pre-sença, a variação dos valores que porém apenas significa pluralidade de modos de ser fixados nas linguagens e sistemas de valor, ao invés de heterogeneidade real em devir. Ainda que não, pois, como individualidade abstrata - o que porém não seria de fato a concepçaõ hegeliana do sujeito livre. A presença metafísica do invariável desde Platçao não seria para Heidegger senão o erro de interpretação sobre a pre-sença, o ser aí a que se precede o seu contexto de significação. Porém é fato que os pré-socráticos não foram conceituadores de algo como Gewissen, consciência moral, etc. Nem poderiam eles anteciparem a História do Ser que Heidegger conceituou como a metafísica enquanto possibilidade de uma distorção interpretativo acerca dos pré-socráticos mesmos, tal que a ciência dominante que a metafísica produziu provocaria essa reação necessária, essa volta aos pré-socráticos na e como a verdadeira modernidade anti-dominadora, contra-modernidade da dominação. Assim, contrariamente ao que Heidegger colocou em termos da inexauribilidade da Grécia antiga, que ainda não teríamos pensado de todo, Hegel não estava errado ao situar os gregos num passado definido da História. Ou do pré-socratismo inocente da metafísica, ou da desleitura metafísica do pré-socratismo. Porém Heidegger não se limita a meu ver ao que Rorty designa, uma nostalgia da Grécia que limita a liberdade do futuro a uma esperança, portanto incapacidade de assimilar a emancipação que resulta da praxis política dos seres humanos já em curso na modernidade. Pois trata-se do julgamento sobre a História. A visão de Hegel, um progresso contínuo, já não seria seriamente crível na era do neocolonialismo afro-asiático e do monopolismo de cartel. Se não há de fato um passado diretamente acessível, nenhuma interpretação pode antecipar todas as demais possíveis. Mas se também a compreensão do passado é o que permite situar o presente periodológico, a interpretação é menos o limite que o estofo da existência já assim historicidade.

23 Não obstante toda a radicalidade da rejeição estrutural pela dialética hegeliana, uma vez que o estruturalismo segue Nietzsche numa inversão de Hegel ulterior à marxista, pela qual o sujeito da história é o senhor criador de valores ao invés do escravo laborante-sapiente na natureza - do que Lacan por exemplo se mofa,  se o senhor não faz nada que não seja se apropriar do saber do escravo, não precisando pois o senhor saber coisa alguma, bem nietzschianamente não há o "certo" dos fracos, há o "quero" dos fortes -  não parece pelo que vimos que os estruturalismos tenham pensado como Heidegger a propósito dos gregos. Como pensador da história progressista, Hegel insere a mesma perspectiva que a estrutural, ainda que por vias irredutíveis.

24 Se em Detienne os gregos nos precedem, na qualidade de mitificadores da presença nessa escrita que assim só precisamos praticar um pouco mais para descobrir dela as leis, enquanto que para Derrida os gregos nos precedem como a doença neurótica à cura libertadora, em todo caso não há comunidade deles conosco. E no entanto, para eles mesmos, há. Não ao modo de Heidegger, como o que instruiria o nosso pensamento atual na redescoberta da a-letheia pré-socrática ao cabo da rememoraçaõ da história (do esquecimento) do ser, a metafísica, mas como a origem desse processo próprio ao Ocidente, cuja atualidade porém seria a descoberta estrutural. Assim Detienne utilizou o termo "indígena" para a posição comum de Platão e do moderno antropólogo europeu quando se trata da antropologia da Grécia Antiga. Ambos estão escavando sobre o terreno comum à sua história, um terreno pátrio.

25 Em Cassin e suas co-autoras como Pechanski e Loraux, no já citado "Gregos, Bárbaros, Estrangeiros..." o modelo do falso que seria o mesmo que Detienne definiu para os sofistas, alcança um potencial político enquanto exclusivamente a mentalidade da produção do consenso. A Grécia não teria conhecido qualquer alteridade, não teria tido qualquer conceito de sociedade conflitiva a não ser como aquilo que ela considera necessário esconjurar. A democracia grega seria assim sádica, devoradora da diferença, mas quando isso se faz apenas pela retórica sofística, eis o inevitável e não dói, pelo contrário, agrada como a "música do consenso", a  alquimia social da crença comum nos objetivos fantasiados iguais a partir da habilidade do retor em convencer as pessoas em posições as mais irredutíveis, como o empresário e a cozinheira, de que a proposta que ele defende é a melhor. Cassin et alii não discutem se esses objetivos são, ou meramente podem ser, iguais. Vejamos porque.

26 Se um pensamento da guerra mãe de todas as coisas, como em Heráclito, se o funcionamento jurídico ele mesmo depende do litígio das partes, se a composição democrática das leis e decisões públicas se faz na presença da heterogeneidade partidária, é o que singulariza a Grécia, Cassin et allii supõem, ao contrário, que tudo isso é o lado negativo na mente grega voltada apenas ao positivo do “acordo” que se espera produzir pelas artes da Retórica. O acordo é o critério pelo que louvarão ou não os grandes artistas de quem se espera o belo discurso ou que logram cativar o público com um discurso. O acordo é o que o discurso visa produzir. Assim como na sociologia funcionalista de Durkhem a "anomia", ausência de "nomos", ser fora da "lei" que traduzindo dessa sociologia é a "coesão" social,  como a "sociedade" ela mesma, é a condição do conflito social definida pois como o avesso da sociedade, a ausência de "coesão" social, Cassin et alii atribuem a concepção grega do político. Um acordo sempiterno cujo obstáculo é o contrário, qualquer desacordo no seio da Cidade.

27 A coesão é aqui definida como o que o gênero epidítico, o Elogio, produz, entre os antigos gregos, mais profundamente que para qualquer questão do dia por resolver, os critérios inabaláveis do louvável. Os louvados pelos discursos memoráveis formam assim uma memória coletiva identitária da sociedade, não havendo outra forma qualquer de auto-consciência social, de significado pátrio, portanto, sendo a base dos valores sobre a qual se julgarão as questões ordinárias. Porém essa concepção do consenso estaria para as autoras subjacente a qualquer possibilidade do político, como vimos, pois o que poderia se opor a ela se cerceia como a metafísica, a ideologia da identidade, a verdade além das sensações subjetivas, eternamenter além do devir ou regulador dele, garantida pela teologia com que esperam os anti-democráticos convencer que estão com a Razão -  ela mesma.

28 Aqui há obviamente um problema de interpretação, já que a crítica da metafísica, como em "Ensaios Sofísticos", de Cassim exclusivamente, é feita conforme a perspetiva semântica, mas o problema social que a teoria do gênero epidítico em "Gregos, Bárbaros, Estrangeiros..." de Cassin et. alii, pretende resolver, é puramente pragmática. Ou até o que transcende o campo linguístico no sentido da sociologia e história. Inversamente a assim considerar, Cassin critica a posição dos políticos de hoje em dia que, como o que ela exemplifica do "partido socialista francês", vem comunicar projetos produzidos como solução de problemas, metas partidárias, etc., como se os comunicados fossem realmente o que pretendem, projeto de desenvolvimento resultado de estudos dos problemas, inversamente a uma peça de persuasão pela qual o partido ou seu líder almeja aprovação unânime das massas - o que nenhum discurso a seu ver pode deixar de ser, independente da ideologia ou metafísica. O irônico, conforme interpreto o "Grego, Bárbaros, Estrangeiros", é que nele supõe-se necessário, antes, uma base para o consenso devido à evidência das diferenças, mas o que coloca nesse locus não é a definição dos problemas concretos e as propostas de solução no plano social. E sim assegurar por meio da persuasão, uma crença comum, um conjunto de traços identitários a partir de valorações míticas, ficcionalmente produzidas, pela qual a aprovação ao político seria, dada, desde aí, "a priori" - como o resultado mental de um processo inconsciente, i.e, automaticamente. Ou seja, no que não teríamos dificuldade em reconhecer a manipulação do business de mídia como veículo ideal, que funcionaria como os cordões das marionetes, o empresário e a cozinheira esquecendo que não tem os mesmos objetivos e abraçando a mesma música do consenso como a carta de sua factícia igualdade – pois Cassin nunca considera que a música do consenso, a retórica como o anti-metafísico, tenha de direito tenha qualquer relação com a verdadeira anulação da diferença de classe. Ao contrário, a manha enunciada está nesse discurso retórico em que o empresário e a cozinheira acreditarão igualmente, mas sem deixarem de ser empresário e cozinheira, exemplarmente na demonstração mesma cassiniana de fato -  ou de direito(?) - os não-iguais.

29 Os gregos estão assim na ordem do político contemporâneo, mas num retorno que desfaz a tradição na qual "os gregos" formam o passado metafísico da "verdade" - como se, portanto, não houvesse consciência não-metafísica da realidade, do mesmo modo que os metafísicos mesmos acreditam. Apenas não como eles supondo que a metafísica existe, e como eles atuando a verdade metafísica como a crença inabalável na parole absoluta do retor mais hábil na praça pública. Em todo caso, como os conflitos sociais mesmos não são jamais sequer ventilados no texto, são nossos contemporâneos esses gregos que não são os gregos que se conhecia até então.

30 Em sua parceria com Giulia Sissa ("Os deuses gregos"), Detienne como que preenche a lacuna a propósito da religião da Polis, mas para solver a diferença da mentalidade cívica democrática e mítica arcaica. Assim, como para Cassin, trata-se de banir da grecidade aqueles gregos que não combinam com a figura que se quer pintar dela, ainda que fosse a mais conhecida, a saber, os filósofos santarrões e os justiceiros à Hesíodo. A religião da Cidade é a realização do gozo dos deuses, como já observamos, presentificado nas oferendas de deliciosos alimentos ou em simbolismos sexuais, em que os homens participam na qualidade de crentes e adoradores. A cisão pela qual os sacrifícios humanos são proibidos na religião cívica, avessos até aos textos da grande dramaturgia da Polis que deles fazem mofa ou crítica franca, não se trata. Pelo contrário, faz-se o corte analítico somente no plano dos costumes, assim podendo-se utilizar como referencial arcaísmos contrastantes à mentalidade política civilizada, mas preservados na literatura como o prazer do texto, o romance burguês contemporâneo encenado em lugares maravilhosos onde se servem manjares suntuosos, em continuum com a fruição eterna dos deuses em Homero, comunicando-se à prática ritual dos homens na Polis. Nem há questão referente às irredutibilidades regionais, como exemplarmente de Atenas e Sparta.

31 Naquilo que, como enunciei, seria a minha crítica à leitura de Derrida a propósito do locus da escritura em Platão, temos a questão de se o mito de Theuth é efetivamente atribuível à fala de Sócrates. Podemos considerar esse mito, como Derrida o lê, jamais segundo a exegese comum que o situa em disparidade total ao  tema estético do texto que se anuncia no início, mas sim "no centro bem calculado do Diálogo", segundo o espirituoso jogo de palavras em que ocorre a inversão da memória em esquecimento pelo artifício do registro, a escrita. Mas aí, o que Derrida não especifica, vemos a reprodução da história grega da memória, na época oral das invasões dórias, uma faculdade de aedos iniciados que tinham na memória que deviam formar das lendas, uma memória capaz de reproduzir fantasticamente referenciais extensíssimos, uma instituição sagrada, um rito que os sagrava dons vindos de Mnemosyne, a mãe das musas como a Memória personificada, e só depois o retorno da escrita. Porém o mito introduz uma escrita inventada, enquanto na história ela não tem início, onde existe é que retornou. O linear b micênico, retorno adaptado do linear a cretense; o grego, adaptado do fenícia na época da Polis. Inversamente à escrita sem início, existindo desde sempre, no Egito, em vez da Grécia, como vimos na colocação de Detienne, é na cena egípcia que vemos a escrita ser inventada, não na grega, e é interessante que ele faça alusão ao Fedro como apenas um locus de exceção na obra platônica. Essa lacuna explicativa em Detienne - por que há a exceção do Fedro? - deve ser ela mesma explicada.

32 Thamuz figura a desvantagem que Platão está deslocando ao plano da consciência: Gewissen ou Bewustssein? Vimos que no posto honroso da escrita que Detienne atribuiu na mentalidade antiga, o correlato seria a Gewissen, a consciência moral. Mas nesse mito forjado de Theuth no Diálogo platônico, em que se constata a exceção para Detienne, a regra para Derrida, em todo caso onde a escrita não tem figura própria, é apenas instrumento ao que, ao contrário dela, é primeiro, o que parece atribuído como o falseado da escrita é a Bewustssein, a consciência enquanto saber de si, vigília, atribuição do mero ser à experiência efetiva. Não obstante, o comentário socrático do mito lança a dúvida, relança a Gewissen, uma vez que faz referência aos tempos em que os oráculos provinham de árvores ou pedras sagradas.

33 A oralidade era pois o correlato da religião, e eis a circunscrição do contrário da escrita conforme o enunciado do mito, ou seja, na religião se define toda a circunscrição da verdade possível. Porém aqui a oposição fundadora não é de fala e escrita ou memória e esquecimento, e sim de religião e laicismo como estados de espírito. E como vimos, se em Detienne a Antiguidade não proscreve a escrita ao contrário do que pensa Derrida, é porque ela tem um lugar na circunscrição da verdade religiosa, é possível uma deusa da escrita, existe a instituição do livro sagrado.

34 É interessante que nessa tese de Detienne exista uma referência à sobrevinda da cultura de si, do sentimento da alma pessoal, de um saber introvertido a partir da relação do iniciado órfico com o livro. Mas assim haveria uma oposição a se compreender, do livro e da sociedade, da letra e da publicidade. Ao contrário, a tradição da escrita sagrada que conforme Detienne significa o status primeiro da escrita, é obviamente a inviabilização de qualquer cultura de si, se ela é, no espírito, ainda que não na concretude histórica, paralela, onde existe como no Egito, à cultura aristocrática oral grega arcaica. Tão num paralelo estrito como o comprovam o Timeu e o Crítias.

35 Por outro lado, Detienne menciona a popularidade da escrita na Grécia da Polis, onde ela já não era sagrada, porém não relaciona a contingência do que tratou como a cultura do falso, a dos sofistas e Simônides de Ceos, com essa escrita que já nem é tradicional nem de iniciados. Mas devemos lembrar que é a ela, esta escrita do pseudos, que engana a memória, ou do paradoxo, como do amante não apaixonado, a que o Fedro se dedica. Se unimos coerentemente esses fios, a trama desvendaria uma correlação essencial na mentalidade antiga, entre religião e memória. Eis o que não se admite que possa ser construído ou humano. E mesmo que Sócrates reprove ao sofista a técnica de rememorar, é duvidoso que para o sofista mesmo a faculdade da rememoração fosse reduzida à técnica. O que Sócrates quer rememorado e o que o sofista define rememorável pode não ser o mesmo, mas não conhecemos a teoria sofística da memória. Em todo caso, a anamnese socrática não sendo deste mundo, a religião de Sócrates tampouco era a mesma da Cidade, como se comprova pelo processo movido por impiedade, perversão da juventude e introdução de novos deuses.

36 A espessura entre a pessoa finita e o saber infinito é figurada nesse imperativo aristotélico da Poética,  pelo qual a memória do que é verdadeiramente, é originária enquanto o seu conteúdo mesmo não se limita aos feitos das pessoas – um conteúdo que assim se limita não é originário, é uma potência do falso como para Simônides. A memória originária é pois anti-histórica, é mítica, como a que reproduz o teatro sério ao contrário do que produzem os Heródotos do dia. A questão que se coloca a partir desse endereçamento é pois como que naturalmente a de se a escrita séria que Sócrates efetivamente sanciona na sua lição de estilo no Fedro mantém parentesco com a escrita sagrada da tradição originária sacerdotal como a egípcia, aquela que poderia registrar o conteúdo sagrado da oralidade como a memória dos aedos. Se não se poderia concordar que seja, então o Fedro está tratando de um quarto tipo de escrita. Nem a sagrada sacerdotal, nem a do Si órfico, nem a de Simônides e sofistas. Uma escrita professoral. Com o sentido dos “mathemata”, o conteúdo dogmático do aprendizado, para “professantes”, os mathematikoi - erradamente traduzido entre nós o seu título  como "contra os matemáticos" -  como status que Sexto Empírico já atribui criticamente como profissão de dominação cultural, de modo algo anômalo mas coerente ao que se institui desde Sócrates, tanto a dogmático como aos próprios sofistas que julgam ensinar técnicas de persuasão das opiniões. Mas isso é duvidoso, já que ninguem pode persuadir alguém de que sente o que não sente, ou que não sente o que sente, e mesmo um homem de bem jamais se deixa rebaixar a "escravo da opinião", ele se atém a suas sensações, e assim a sofística é inútil. Mas evidentemente se não é, se realmente o sofista tem o poder sobre os votos da Cidade, então ela é um perigo inominável que é preciso exconjurar. 

37 Entre o professante ou chefe de seita, e o professor, temos a oposição que hoje se quer fazer na Globalização novamente introduzir, do “mentor” ao professor. Pois a mentoria, argumentam, já tendo até se instituído nas faculdades de formação pedagógica, é o que seria necessário como orientação de valores ao aluno para que se torne, como nas expressões da propaganda, “alguém melhor”. A superioridade do mentor relativamente à formação comum docente, se endereça argumentando que, quanto ao conteúdo especializado, técnico, das matérias, ou seja, o conteúdo que até aí cabe aos verdadeiros professores que não pesuadem a opinião mas ensinam matérias efetivas, as crianças aprendem sozinhas na internet.

38 O que é uma falsidade total porque não há aparelho de contra-informação mais minuciosamente instalado que o “search” internet, com destaque invariável para sites com distorção ideológica ou mesmo falsidade, especialmente se o tema envolve história brasileira, cultura pós-moderna, e tudo o que não se coaduna com o regime “netflix” de idiotice arcaica, a dominação imperial da aristocracia da beleza, da força e da posse. A função do escritor de ideias, que atua como o que o mentor pretende ser mas ao contrário dele, num jogo plural de posições, é pois anulada pela Internet como franco dirigismo de status, não só no Brasil, mas nos R. Conquests (ver dele o "Dragons of Expectation", contra os teóricos que praticam o filosofês, de Hegel a Derrida) partidários de Searle e Sokals dos USA, perseguindo a Globalização a prosa teórica como se fosse alguma desonestidade traidora da mídia simplória, até a aberração de uma linguística prescritiva em pleno terceiro milênio. O subalterno autoritário da pseudo-esquerda local  guia o elevador munido de uma gramática do fundamental, fazendo cara feia para quem não se expressa  como se estivesse fazendo prova – conforme testemunhei pessoalmente. E o pós-moderno ele mesmo já espelha a tendência, com o livro mais recente da própria Judith Butler – reduto do pós-estruturalismo na teoria feminista dominada pela Teoria Crítica – sendo anunciado aqui como influenciado por… Hannah Arendt. Na defesa das Assembleias Populares, confomre o livro recente de Butler, que a meu ver são realmente assustadoras, pois nem mesmo se considera entre os juristas com muita simpatia os juris populares, abertos como são ao fascismo do preconceito, com o agravante deque assembleias de rua não tem previamente estruturado o que é votável ou não, conforme a cisão do público e do privado, etc. 

39 Nos USA portanto já não há alternativa ao narrativismo, o benhabib-habermasiano ou o arendtiano, qualquer que seja, moeda comum dos filmes fascistas do cinema comercial norte-americano que se espalha pelas televisões monopolistas deste mundo como a Rede Globo, porém opção que conforme estudei de Arendt e a Alemanha da guerra, não se diferencia muito do que abrangia as escolhas do Coronel Crik, adversário por igual de Heidegger e Einstein na universidade nazi. A cultura reduzida a lenda folclórica dos papeis sociais, a Grécia reduzida a SS, Sócrates e Sófocles. A própria narrativa conforme a um critério pré-dostoiewski, se desde esse autor, como Carpeaux observou, a linguagem do romance já não se separa da poesia.

40 Conforme o exemplo de Benhabib, muito influente entre os habermasianos que no Brasil tem feudo nas instituições, “narrativa” é o próprio sujeito, visto que ele ou ela é a informação do seu nome e o dos pais – a questão nem seria já que o enunciado dessa informação é expositivo, não narrativo, tão absurdo parece reduzir a complexidade subjetiva a isso.

41 Na pedagogia do mentor, o critério de pessoa superior quanto ao sujeito sendo evidentemente ideológico, o mentor sendo apenas uma função de inculcação de valores como se não fossem livre escolha da personalidade própria,o desejável sendo a pluralidade dos sujeitos ao contrário da homogeneidade ditatorial do sistema da dominação que recalca o das personalidades individuais, instaura-se um conceito de escola como formação dessa dominação, desigualdade de status já quanto ao próprio ser, como o jovem é tratado hoje na mídia, como raça superior que “nasceu na internet”, não do ventre da mãe. Uma “internet” que só as crianças entendem – como se isso não depusesse contra a mesma “internet”.

42 Ora, a oposição entre mentor/consciência e por outro professor/artifício é platônica mesmo se uma propaganda do artifício. O que se quer votar ao impensável é o referencial em que as antes designadas ciências humanas hoje estão ancoradas, a “teoria” no sentido não platônico, isto é, como campo da livre expressão e interpretação do que – assim – se postulará, não dogmaticamente mas como apenas roteiros da pesquisa, em termos de fenômeno. A “teoria” sendo deste ou daquele, não a coisa por si mesma, o que teria que ser desenvolvido seriam as aptidões a formular conceitos próprios, expressando-se livremente, e a interpretar os alheios. Ao contrário, duas “contemplações”: a do artifício que reporta dados a repetir, a do mentor que modela uma despersonalizada matéria mental. Na Grécia a transição da pedagogia do sofista, que ensinava publicamente a quem pagasse, à da seita, com um “sábio” a que se submetiam os discípulos como a uma regra de vida, já vimos como propedêutica à impossibilidade do pensamento leigo e pesquisa fenomênica, ambiente de loucura coletiva em que leis contra práticas de  feitiçaria como o defluxo, em que se inscreviam nas plaquetas de chumbo os nomes dos inimigos a eliminar, eram decretadas em número crescente já bem antes da conversão cristã do governo imperial.

IV) O Fedro e o Gorgias

 

1 Independente da controvérsia a propósito de qual teria sido a ordem cronológica dos escritos platônicos, a meu ver, apenas numa perspectiva temática, o "Fedro" estaria na subsequência do postulado platônico encenado exemplarmente no "Gorgias". Aí vemos ser expressa a acusação de que o “sofista” - termo derivado de sophós, cientista de um saber determinado e não filósofo da realidade em geral - como professor de matéria especializada nada ensina, ao contrário do que diz como profissional de lições de retórica - isto é, sobretudo, lições de escrita e logografia. A escrita de mentoria do Fedro tem um conteúdo mnésico, assim como Euclides encena o seu ato de escrita do Teeteto e exemplifica a natureza de lembrete que a prova útil. Pois com o encontro de Sócrates e Teeteto escrito e dialogado, agora Terpsião, assim como o leitor, pode conhecer o teor da conversa. Euclides ordena a um escravo que o leia para ambos, ele mesmo e Terpsião, comodamente ouvirem a reprodução da lição de Sócrates ao jovem Teeteto.

3 Aqui podemos incidentalmente considerar uma hipótese para o fim da tragédia na época clássica. Não apenas a subjetividade que se tornara expressiva com Eurípides, sendo contudo o pivô da invenção da literatura, meio da aventura subjetiva, gênero que se torna efetivamente praticada no Helenismo – Backtin cobre bem esse período inicial do romanesco. O jocoso entre Menandro e Calímaco, na hipótese de Snell, não me parece suficiente explicação, pois ocorre depois da cessação da tragédia, não podendo portanto ser o motivo. Aristófanes teria razão ao invectivar a filosofia como o gênero que precipitou o fenecimento do trágico. Mas não considerou a filosofia como um gênero textual, pelo que vemos do seu ataque a Sócrates nas Nuvens, que se passa apenas no plano da conversa. Com gênero textual, Platão transformou a filosofia num tipo de literariedade sui generis, atravessando a oposição aristotélica de fortuito histórico e universal poético, no rumo do romanesco mas despojado de ficcionalidade.

4 O Teeteto supera a tragédia como gênero porque a despe da necessidade dramática associada ao aprisionamento do conteúdo no mito, inserindo-a na realidade cotidiana. O Diálogo transcorre como num mundo possível da livre atuação do intelecto incontaminado por qualquer interesse alheio a si. Sócrates se supera na reconstituição das concepções que não são as suas, nas réplicas possíveis às próprias objeções a elas, objeções que exemplificariam, ao contrário, o seu pensamento como defesa do ser e do inatismo racionalista. Conseguindo assim o efeito contrário a qualquer capitulação do absoluto frente a relatividade individualista do sensualismo, tipicamente o protagórico.

5 No Teeteto ocorre portanto a reversão do pressuposto de que o sensualismo individualista é a verdadeira subjetividade, assim como no Fedro vimos a reversão da promessa liberal democrática não pela exigência caturra da repressão, mas pela demonstração de que a democracia não cumpre a promessa, que ela, ao contrário, é o domínio do cálculo mundano sobre a verdade subjetiva. Uma crítica que poderia valer para a Antiguidade, mas não na atualidade quando o correlato da cidadania é o sujeito, não a pertença coletiva à nação – assim a crítica ideológica moderna pode se enunciar contra o Estado de direito, como no marxismo, mas aquilo do que se faz é o que o Estado de direitos civis permite interpretar como inferência infalível, pelo que, quanto mais uma sociedade multiplica regras em nível de costumes, quanto mais nesse nível as regras são confundidas com coerção, menos ela é democrática em nível de leis ou de cumprimento das leis.

6 Mesmo na Antiguidade porém como crítica o platonismo deixava muito em suspenso, por exemplo a questão da escravatura, que na “Politeia” se reifica na atribuição hierárquica das castas pelo que seria a própria natureza anímica. Geralmente se considera como Guthrie que para a Grécia Antiga vale atribuição do estágio primitivo da legalidade, assim nela não havia ainda cisão de leis e costumes – como exemplificaria o conflito de Antígona. Porém atualmente não consideramos que haja total ausência de cisão mesmo em sociedades muito mais simples que a Grécia. O conflito mesmo da Antígona poderia ser lido, inversamente à mistura de ambos, como conflito de exigências do costume e da lei. A dramaturgia não cingindo-se à época arcaica, evidentemente. Nesse sentido Heidegger e Nietzsche tem razão ao ver no platonismo uma mutação mas eles não notam que ela é regressão ao regime arcaico despótico, que porém estava sendo atual na derrocada da independência grega pelos impérios típicos da Antiguidade.

6 O Teeteto supera o drama por desnecessário. Não é no plano que congrega o humano e o divino, aquele plano em que os deuses põe os olhos nos homens para preservar a ordem universal, mas apenas no plano dos fatos, que um movo contraste, mais lancinante ainda, se estabelece. Aquele contraste do Um-heimlich, ínsito a um real unívoco, como do acosso do fora e da ordem do dentro. Os dois homens, o velho o jovem, que participam com tanta aplicação, tanto denodo, do Diálogo, tão concentrados neles mesmos, na naturalidade do cotidiano, estão tragicamente condenados na vida real. Logo de início Euclides reporta a Terpsião o grave estado de saúde do jovem Teeteto, e o Diálogo, reportado de memória no livro escrito - inclusive com consultas ao próprio Sócrates - se encerra com Sócrates prometendo a Teeteto que o encontraria depois, visto que Sócrates teria que dali ir apresentar-se ao Pórtico para responder a acusação de Mêletos contra si.

7 O conteúdo da memória, o que compõe a escrita sancionada por Sócrates como útil no Fedro, estabelecendo assim uma pioneira regra “clássica” do estilo literário - como Backtin classificará, o contrário da polifonia até aí costumeira - está circunscrito como tal ao círculo socrático-religioso da verdade, mas não à tradição sagrada, templária ou cívica. Nem à iniciação órfica, uma vez que o conteúdo da verdade, no Fedro, ora se endereça à pessoa mesma que escreve assim como ela será no futuro, na velhice, quando precisará de um auxílio à memória, ora aos leitores ou pupilos, como real lição da verdade. Mas sobretudo porque garantida pela circunscrição da verdade, a escrita daquele que sabe não precisa ser a escrita do conteúdo religioso, nem o saber já se resolve assim. Inversamente o conteúdo está relacionado agora a um saber definido pelo termo novo, Episteme, a pioneira reverberação do significado que hoje conhecemos do termo "Ciência", mesmo se não a primeira forma dela como prática e reflexão metodológica. Não incongruente com a religião, ao menos ali onde ela nasceu. Porém não de todo a mesma coisa que a teologia. Outros logoi, outras "logias".

8 Há aqui uma estranha convergência, pois por um lado, Sócrates revê a escrita a partir de sua possibilidade epistêmica professoral, e toda possibilidade didática condicionando-se pelo a priori religioso. Por outro lado, a Polis assume o conteúdo leigo da cultura. A logografia alicerça o regime forense que tem ampla repercussão na democracia, assim como vimos, já desde Hesíodo a consciência da importância das leis tornarem-se escritas. Na historicidade em Heródoto, a “das ações dos homens” é a escrita construtora da memória na publicidade “para que o tempo não as oblitere” (I, introdução).

9 Memória dos acontecimentos e também dos costumes dos povos, história antropológica, que tem tão pouco a ver com o elogio como se comprova na cisão aberta dos gregos: os espartanos só apoiaram os atenienses e incitaram à guerra contra uma proposta medo-persa de paz, por temor – ao contrário da sua famosa coragem militar – visto que um oráculo previra a aliança dos medos com Atenas para expulsar todos os dórios do Peloponeso (livro VIII, CXLI). E os atenienses só não aceitam a proposta de paz do emissário Alexandre, porque incitados pela verve dos espartanos, nada lacônica, feita ao que parece para os apaixonar, pois que eles “ouvem com atenção” (CXLIII), o que faz lembrar o testemunho do apóstolo Paulo sobre os atenienses, em atos dos apóstolos 17, 21, que amam ouvir falar alguma coisa nova, “η legein ti kai akouein kainoteron”, como se poderia entender que amam ouvir logoi.

10 O efeito retórico se comunica aliás ao filosófico. O que em Atenas se ama ouvir não são ditos quaisquer, mas o que é bem composto, o “discurso” nesse sentido. Assim Paulo mesmo se expressa conforme o estoico Cleanto em seu “Hino a Zeus”, uma das duas escolas curiosas da doutrina que ele afirmava ter e que o instaram na ocasião a pregar, como também a epicurista. Conforme se atribui a sentença que ele aí emprega acerca de Deus, mesmo se desconhecido: “Pois nele vivemos, nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos aliás já disseram, porque somos também de sua raça”, em autw gar zwmen kai kinoumeθa kai esmen ws kai tines twn kat umas poieton eirhekasitou, gar kai genos esmen. Referência comum a Cleanto e ao poeta Arato, autor dos “Fenômenos”.

11 A escrita que se tornou na Polis um dos alicerces do funcionamento do regime, está constituída porém sobre uma base de cultura que é religiosa, a religião cívica da Polis, a relação da Cidade com os oráculos e os eventos de culto cívico, que inclui o teatro. Aqui não é já pharmakon contra pharmakon, o de Sócrates contra o dos sofistas, como colocou Derrida, mas religião contra religião, a dos sofistas, ou em geral da Cidade, contra Sócrates. E eis o conteúdo da acusação de "impiedade" que o Estado ateniense moveu a ele. A Cidade não reconhece as divindades que Sócrates introduz. Mesmo se no Fedro ou no Banquete elas tem os mesmos nomes do panteão. A propósito, o regime monárquico da Politeia é bastante atenuado no Fedro, pois aqui qualquer um é sábio desde que escreva apenas o que viu no mundo das ideias – logo não só o sábio vê. Nas Leis, o regime se reduz a uma constituição dos preceitos imutáveis, que se resumem na hierarquia do mando: nobres mandam nos não-nobres, os mais velhos nos mais jovens, etc. Algo parecido com o que já vimos em Aristóteles, só que neste idealizado como o cerne mesmo dos costumes já estabelecidos na e como a Polis. Além de que Aristóteles não considera que Sócrates estivesse certo ao rejeitar exemplos quando perguntava o que é justo, pois para Aristóteles não há um justo universal, mas sim vários julgamentos do justo conforme o status particular: do homem e da mulher, dos pais e dos filhos, dos senhorios contra os escravos. Porém é falso dizer como de costume, que Aristóteles defende aí os sofistas, pois para ele não há relatividade além das naturezas próprias aos status definidos. Os sofistas não acreditavam pois na natureza quanto a status, somente na convenção do costume e das leis.

12 Gostaríamos de ter trazido a controvérsia sobre a base formativa da mentalidade politeísta antiga até essa antítese de humanismo sofístico e teocentrismo socrático monarquista que revelaria a essência problemática do Fedro como um espelho da realidade do conflito político-social na Grécia Antiga. Não seria forçado em História alongar a duplicidade de Heródoto, e vislumbrar na inspiração de Sparta em Platão e Xenofonte, documentada exaustivamente por Jaeger, um ideal monarquista cujo referencial era o grande rei persa – assim a biografia mesma de Xenofonte como mercenário na tentativa do golpe de Estado na Pérsia seria instrutiva. Aqui, inversamente, o "humanismo" sofístico ateniense significando apenas um tipo de materialismo que a subsequência imperial e feudal baniu da consciência possível, por mil anos até a modernidade.

13 Resta a questão da abrangência desse humanismo na Polis democrática, pois como Guthrie demonstrou, nem todos os antagonizados por Sócrates eram “sofistas” no sentido de serem mestres retores, assim também nem todos, “sofistas” ou não, tinham ideias políticas iguais.

14 Porém há um limite do pensamento antigo que pela própria escolha moderna da ciência meramente humanística temos que confrontar, uma vez que histórico- efetivamente, ao contrário de qualquer idealização que façamos, a Polis democrática era um regime leigo porém lá não ocorre um tipo de cisão de Igreja e Estado que nós conhecemos como a base da legalidade constitucional democrática moderna. Uma cisão entre fé subjetiva e legalidade estatal que é a base da constitucionalidade como a cisão do privado e público, da qual se segue o princípio da legalidade moderna, a atribuição a cada um do seu ato, por ele responsável, assim como dos seus direitos. A meu ver a questão mais preponderante na história do pensamento humano, relacionada pois a tudo o que se puder fazer nesse campo, é como resolver o mistério pelo qual ninguém duvida que os antigos tivessem personalidade, porém nunca a personalidade foi realmente pensada, tematizada, como o referencial não apenas temático mas da tematização qualquer dotada com um mínimo de relevância. Eu tenho acreditado que a modernidade como a emergência do Sujeito Pensável ocorre na descoberta da irredutibilidade cultural a partir da independência das ex-colônias, visto que aí o assim apropriado como primitivo já não podia ser limitado a natureza, tornava-se pois ser da cultura. E o sujeito é pois o que vem a ser na cultura mas como esta é pluralidade, ele mesmo se torna pensável como formação e personalidade.

 

 

 

V) A Grécia Antiga e a Globalização : os dois gumes da Escritura

1 Em todo caso, se concordarmos no parentesco do Fedro com o Gorgias, considerando assim que a controvérsia sobre a escrita no primeiro é dublê do ataque à pretensão didática da sofística no segundo, teríamos a conclusão pela qual a escrita em tela do Fedro, a proscrita, não é qualquer, mas sofística, a que corresponde à doxa de Simônides. Aparentemente, como Derrida crê, Sócrates estaria visando a escrita na sua maior generalidade, assim como ela se faz desde um pensável facultado pelo alfabeto substitutivo das escritas não-lineares, ou seja, sinais inscritos que simulam sons representativos de coisas enquanto sons imitativos das palavras.

2 Na verdade, até agora, só apontamos a carência de ouvidos para a espirituosidade do mito. Não nos colocamos na posição de alguém para quem nada menos que a escrita estivesse sendo apresentada pela primeira vez. Aquilo que Sócrates designa a profecia de Amon, a rejeição da escrita como remédio da memória, e, inversamente, a reação a ela como um perfeito filtro do esquecimento, teria que ser apreciada como um tipo de piada.

3 O que é isto, a escrita? A coisa aí, ela não é obviamente a coisa no mundo, a coisa em si e para si. As letras estão perante os ouvidos espantados de Thamuz, os sons ressoam os nomes das coisas mas não há ninguém dizendo nem os referentes situados que justificariam a fala. Então Thamuz imagina os outros que pudessem estar no mesmo lugar que o dele, porém destituídos do privilégio dessa assistência providencial que é a do próprio inventor da escrita ali presente para explicar como ela funciona. De repente a escrita é introduzida no mundo e os pobres homens tem que se a ver com ela.

4 A fantasmagoria da escrita os enganará infalivelmente, e, das duas, uma. Ou eles pensarão que havendo palavras há uma voz emissora, de modo que não ficarão restritos à mensagem escrita e atribuirão à voz quaisquer mensagens que possam supor contentá-los, como esses que por analogia praticam a bibliomancia, atribuindo a trechos de um livro, por analogia, reposta significativa à pergunta que fazem a ele por interesse pessoal sem relação com o assunto do próprio livro. Ou irão tomar a fantasmagoria por um encanto sério, de modo que apenas por estar escrito o teor tem origem mágica de revelação inquestionável. Em todo caso a escrita seria o veículo da superstição, não desse saber a que Theuth se refere pelo termo "memória", o correlato significado dos significantes textuais unicamente presentes.

5 A superstição é a antítese, a réplica antitética da religião, e poderíamos aqui figurar as posições de Theuth e Thamuz, como de um Hermes ladrão do gado de seu irmão Apolo, e Zeus que desvenda a trama. Realmente Hermes que é considerado correlato grego do Theuth egípcio, se atribui como deus das falsidades, das artimanhas, dos latrocínios, das estradas, dos mercadores. Ele é pois aquele que logra enganar o saber, este domínio do deus da revelação que é Apolo. Assim como Hermes – mais que Dionísio quanto a isso, já que a embriaguez não se opõe diretamente à verdade - é aquele que desfaz a fixidez, o deus das trocas, como do produto pelo dinheiro, da terra pela viagem, o conhecido pelo inventado, o gado pela lira - o modo pelo qual concilia-se com o irmão.

6 Derrida não defende a tradição supersticiosa do livro como mensagem da autoridade do saber suprassensível, como vimos, pois para ele a escrita não tem sacralidade na Antiguidade - senão derivada como esfera do deus secretário, filho ou bastardo. Mas é essa tradição supersticiosa do livro que Sócrates ataca: "A crença de que a escrita pode inevitavelmente gerar resultados sempre claros e certos". (275 d)

7 A oposição do fixo e do infixado pode ter sido o que Derrida tencionou estabelecer nessa cena inaugural da metafísica, a expulsão da escrita no Fedro. Oposição que é um a priori do Inconsciente lacaniano como locus problemático do imaginário da fixação, horror vacui. Ao contrário, o bom simbólico resulta de um acordo inter pares da letras, um prazer de ajuntar que releva a dispersão, a disfarça, a encobre, não sem a incluir como peça no jogo. Mas a oposição não parece bem acomodada como entre a fala e a escrita, ao contrário do que Derrida posiciona. E se a crença na escrita é algo que existe, por exemplo no Orfismo, também mais coisas existem reprováveis para Sócrates como a limitação sofística à psicagogia retórica – a limitação da alma, ou dos atenienses, ao prazer dos logoi, modulação da sacralidade mântica pitagórica.

8 Na sofística o prazer de falar, logou chárin, que Cassin comentou como o veto transcendental de Aristóteles à sofística, poderia ser porém apenas metonímico. Para o próprio Aristóteles, pois, a fala desse prazer não é uma realmente. Se alguém realmente fala, então há mais que prazer, há logos, razão, princípio de identidade, o que para Cassin é a negação número um da sofística seguindo Heráclito e segundo Aristóteles.

9 Entre a pseudo-fala de Aristóteles e a escrita sofística de Platão, não há muita diferença. A metonímia da fala é pois de tudo que também abrange a escrita, a livre expressão infixada, a metaforicidade sem próprio, a polifonia dos gêneros. Pois o que ambos, Platão e Aristóteles, não consideram possível produzir-se é algo fixo desde o infixado.

10 E por que o que se produz é o fixo? Assim na oposição da monarquia/oligarquia à Polis democrática dos sofistas não se trata de uma classe por outra, como parece crer a análise estrutural, mas do dominante fixado e da mobilidade social. No começo socrático, mais que a insurgência contra ensinar-se a qualquer um, foi contra a Aretê ensinável. Uma vez que o conceito e as possibilidades práticas de mobilidade social sejam suprimidos, como na Globalização, ou, o que é o mesmo, limitadas a casos de paternalismo regrado, exemplaridade do heroísmo, Big Brother fascista, etc., então não se trata de alternativa entre duas “classes” - ou posições políticas como de direita e de esquerda. Tudo se confunde num só aparato da dominação.

11 Na era pop lia-se em revistas que nos Estados Unidos um maltrapilho podia visitar uma concessionária de Rolls Royce, lá ficar à vontade o quanto quisesse observando os carros. Ele poderia ser um milionário excêntrico. Como credencial da Globalização, até para um rico pagar habitação em condomínios como o Tortugas na Argentina, é preciso não ser divorciado, prova vicária de que não veio de outra classe. O que mostra como a Globalização, plenitude do retorno do Império Antigo iniciado no século XVII absolutista, é mais estruturada como “Politeia” de genos interiorano grego platônico, do que cosmopolita-comercial romano – pois em Roma o divórcio era moeda corrente, e a independência da mulher quanto a isso era o costume, como documenta Paul Veyne (“Sexo e Poder em Roma”). Aí, ou mesmo em Foucault (“História da Sexualidade - O cuidado de si”), comenta-se sobre a mobilidade social em Roma, um motivo pelo qual revoltas de escravos não eram muito comuns. Pois, como nas exortações de Epiteto sobre a recompensa do controle e esforço da vontade, a posição do escravo era muito variada, podendo ocupar altos postos administrativos, até se converter em próspero liberto.

12 Na Globalização, nas lojas, mesmo os grandes supermercado do RJ, examinar atentamente os rótulos, demorar frente a prateleira dos produtos, o que antes era algo comum e evidentemente correto, desperta suspeitas se bem que não de gente instruída: consumidores caipiras se mostram hostis, reclamam agressivamente em voz alta, as jovens funcionárias do estabelecimento vem se postar junto à mercadoria numa atitude de suspeição ou francamente perguntam elas o que a pessoa quer. O estruturante da linguagem da mídia na Globalização, especialmente a música, é o âmbito humano reduzido a factum – isso tanto mais o termo “social” é a palavra mais usada em qualquer amostra que seja representativa do linguajar comunitário, da mídia à escola.

13 O acontecimento social, como os papéis relacionados, são fatos imutáveis como o modelo que subsume o tratamento até do mais íntimo, o romanesco – que como vimos está agora tendo a concorrência do religioso, ao contrário do processo histórico que institui a modernidade quando do religioso se transitou ao estético e romanesco.

14 Não há a menor suspeita de que as atribuições são questões sociais, que o sofrimento e a inferioridade definem problemas que requerem solução - médica, psicológica, administrativa, política, etc. - e que a sociedade é o conjunto atual desses problemas assim como o mero número dos seres humanos que a compõem. E a responsabilidade institucional das soluções, portanto uma realidade em devir.

15 Como o professor Bottomore anotou, está provado que nenhuma defasagem racial subsiste como correlato de inferioridade de performance progressita do bem estar social, pois quando se atinge um nível satisfatório de saúde, alimentação, letramento, habitação, constituição liberal com autonomia da personalidade, da população, a performance é igual a qualquer país desenvolvido.

16 A instituição na Globalização, ao contrário, é o Ur-Factum, tornou-se proverbial no Brasil a repetição na boca dos professores que não tem crítica social: “os errados são aqueles que querem que a instituição se adapte a eles em vez de serem eles que tem que se adaptar à instituição”, não importando em que condições estes “eles” se encontrem. O “tem que” isso ou aquilo é quase tão constante na fala como o “social” - inúmeras injunções perfeitamente arbitrárias mas que se centuplicam ao acaso entre o povo, obrigação imposta a quanta sobre o sujeito que assim se anula como tal, posto que não pode haver nada senão o Factum.

17 Mas à lembrança de que os problemas não são puro factum, então não se segue deduzir que as instituições estão falhando, que os impostos estão sendo cobrados mas os serviços não estão sendo oferecidos, que o investimento na educação é deficitário e por isso a mobilidade social está freada. Mas sim apenas que o sujeito não faz nada para “mudar”, que “está sofrendo porque quer”, a igreja tem solução para tudo, a propaganda da seita de massa agressivamente ordena que a pessoa “para de sofrer”.

18 O sujeito pensável independente do reducionismo oportunista do pseudo-social, é pois a possibilidade da infixação, da mobilidade, do “subir” que tanto aterroriza a competição do medíocre pela compra de mercadorias a que se reduz as relações “sociais” populares, como “guerra de posições” de consumo conspícuo. Uma guerra que não pode ser ganha por ninguém, portanto, compete-se para não haver mudança qualquer. Assim entretanto os pobres ficam cada vez mais pobres e os ricos sempre mais ricos, com a aliança entre a faixa da prosperidade mormente imigrante e a monarquia de Orleans, recolonizadora, ostensivamente consolidada.

19 Nos anos noventa estava em moda evocar Hermes como um correlato grego dos espíritos mensageiros, brincalhões ou sexuados como os "exus" africanos, para teorizar sobre o signo construtor da verdade “pseudés”, assim como Henry Louis Gates. Ou seja, exaltando-se como o correlato materialista exatamente aquilo que o idealismo metafísico fixa na posição do engano, da falsidade. Um postulado derridiano, uma crítica do signo como da dependência do significado, em favor do significante.

20 Porém se, conforme Derrida no platonismo "a escritura só intervem pois, no momento em que o sujeito de um saber já dispõe de significados que a escritura então apenas consigna", a fricção entre "memória" correlato do saber e evocação ou "rememoração" (hypomnésia) como correlato da escrita, faz abstração de que esse saber é o que permite julgar sobre o conteúdo da mensagem, tanto falada como escrita. A "rememoração" que Derrida interpreta como a categoria mesma da secundariedade, está ao que me parece duplicada no contexto do Fedro. Quando Thamuz a opõe à memória, ele não deve estar falando do mesmo que Sócrates quando a considera um substituto oportuno ao esquecimento.

21 Aliás aqui seria importante notar que Derrida não faz menção à relação qualquer entre a atribuição do pharmakon por Thamuz como um veneno, e a hypmnésia ou rememoração como figura da secundariedade. Ora, se há rememoração nesse sentido, que é obviamente o de Sócrates quanto à escrita revista, então não é a fala de Thamuz que a consigna, mas a de Theuth quando a apresenta como a virtude terapêutica, hipomnésica, da escrita. Derrida mesmo arrola a hipomnésia na reentry da escrita após a expulsão, mas assim ele não poderia manter Sócrates do lado dos termos que se deixam nomear por Thamuz, no rol das oposições. Pois Thamuz sempre se opõe à hipomnésia e é Theuth quem a encarece.

22 Quando Thamuz fala da evocação ou rememoração, quanto à escrita, a interpretação possível é que ele esteja falando da letra como transporte da palavra naquela condição de que Sócrates zomba, limitando-se ela a ser como uma pintura, uma mera imagem ao contrário da coisa. A ausência da coisa.

23 Não sendo possível juntar numa unidade de sentido a escrita evocação de Thamuz e a escrita rememoração de Theuth, já que significam respectivamente o veneno e o remédio, o movimento do Fedro desde o trecho do mito de Theuth em diante, é então a conversão e a desconversão. O remédio convertido em veneno se desconverte e torna a ser remédio.

24 Assim, que o mito de Theuth pela boca de Thamuz repete a mensagem do Fedro platônico, enquanto esta é a secundariedade da escrita em relação à fala, como da sombra em relação ao sol, é algo ambíguo. A leitura de Derrida depende de que a repetição esteja garantida pela identidade Sócrates-Thamuz, a escritura veneno ao invés de remédio, porém o movimento do Diálogo conduz ao contrário, à secundariedade possível apenas se a escritura socrática for o remédio recomendado por Theuth. Escrita lembrete, feita para guardar o conteúdo certo de um saber de que precisaremos nos lembrar depois. Remédio sem veneno, remédio curativo do esquecimento.

25 Porém nessa estipulação, o mito expõe menos que o próprio Sócrates, se considerarmos a relação do Fedro com o Gorgias. Pois, no Gorgias, a condenação da troca do certo pelo duvidoso, da coisa pela mera imagem, do lar pela estrada, do fixo pelo infixado, porta sobre uma pretensão sofística que não é a da escrita, mas da linguagem mesma como sendo aquilo que, uma vez tendo-se das regras do funcionamento dela o conhecimento, e enquanto realidade pragmática, temos as portas franqueadas a todos os saberes, inclusive o político. É essa a tese principal contra a qual o socratismo se constitui como a doutrina apresentada por Platão como a de seu mestre Sócrates.

26 O ponto aqui não é pois que ao contrário da escrita, a fala por si mesma encerra a verdade, nem poderia ser. Nem é aquilo a que no "Gorgias" e na República se revela como o substrato garantidor do Saber possível, a eternidade da alma, a substância religiosa da crença num mundo igualmente eterno, invariável, feito de realidades imutáveis. Ou seja, o saber é possível se existe um correlato do Saber que transcende o sujeito e o significante com que ele constrói suas representações. Se existe a essência das coisas elas mesmas, o "Ser" invariável do cognoscível. O Fedro parece já ter por garantida a demonstração religiosa do substrato, que ele apenas torna especificada quanto à alma e a morada supraceleste das realidades essenciais, e estar relacionado unicamente ao conteúdo do saber possibilitado, a Episteme.

27 Assim a controvérsia da escrita seria um símile da questão principal sobre a relação do saber com a linguagem, de modo a não ser a linguagem, e sim a essência como ser da coisa, o substrato do saber. Algo que se relaciona à história do platonismo bem melhor do que a versão do platonismo como o enunciado metafísico na história. Poderíamos de fato colocar a questão de que importância capital teria o platonismo, se ele fosse apenas mais um anúncio do que todos já pensavam e diziam, uma gota no oceano da fantasia antigo-metafísica do significado.

28 E se Derrida não considera senão que a secundariedade da escrita mascara, desloca, mas ao mesmo tempo que personifica exemplarmente, a petição de princípio desejante da verdade, pela qual é o saber e não a escrita ou mesmo a fala a primeiridade, mas o conteúdo na alma, ele se movimenta porém numa ambiguidade notável. Já que a escrita que deslocaria o saber é segundo ele mesmo, conforme a tese gramatológica, uma primeiridade, porém não como aquela que a maioria de nós denotaria pelo nome, e sim como um sistema de signos inconsciente. Mas Derrida não faz as transposições necessárias ao argumento, quando se trata de dois conceitos de escrita que ele mesmo põe em trânsito – a notacional que todos designam pelo nome, e a psíquica, ou melhor, inconsciente. Procede sempre com um só termo.

29 Se a Episteme ao invés da fala ou mesmo das paixões da alma que a fala veicularia, no sentido da paixão que não é o veículo do saber, que não é a visão anímica, vem a ser o correlato da questão socrática contra o criticismo duvidoso do saber; se a escrita que Sócrates questiona no Fedro não é qualquer mas aquela que à sofística se relaciona; vemos que o platonismo embasa a história do pensamento futuro. Por um lado ele será o refúgio da ciência possível na era da teologia dominante. É por princípios platônicos que a pedagogia se organiza na Bizâncio cristã, ou se reorganiza nas Universidades da cristandade ocidental. O Oriente árabe e judeu seguem o mesmo destino, ainda que o matiz aristotélico não seja tão obscurecido como na Europa até a recuperação das comunicações com o Leste já nas proximidades do Renascimento – se bem que é entre São Alberto Magno e São Tomás que se desfaz a confusão dos árabes dos escritos de Aristóteles com os do neplatonismo.

30 Por outro lado, o platonismo será para a teologia dominante o referencial que preenche as lacunas da explicação de mundo necessária, como o ser do conhecimento na sua dependência à fé. Uma possibilidade do platonismo como ceticismo radical - que na Antiguidade existiu como Carneades e Arcesilaus, de modo que se o saber depende das ideias, estas são apenas uma hipótese ultramundana não uma realidade acessível - extinguiu-se na conversão de Santo Agostinho.

31 Porém o cromo histórico de um Renascimento científico que seria a modernidade afinal realizada, o abandono da metafísica na descoberta da ciência experimental, também não se viabiliza. A lacuna histórica é aqui sobre que temos muito o que pensar.

32 A Episteme é um legado platônico-socrático, mas a Ciência moderna enuncia-se numa dobra na qual se desenvolveu o questionamento de toda metafísica. Na extensão dessa dobra muito já se fez e se processou, perfazendo-se a história da auto-compreensão da Modernidade, gênese das Teorias modernas da Ciência e do Homem. Porém já desde uns cem anos pelo menos, quando se abandonou quase que completamente a versão grosseira da Ciência Experimental como corte abrupto com o passado e o platônico especialmente, versão que nunca vigorou só mas sempre num paralelo com a concepção oposta, o desenvolvimento da crítica à metafísica não mais se fez sem o testemunho conjunto da presença inabalável da metafísica na modernidade da ciência dominante, e como o porque de ter-se - ainda - que falar de "dominação". Os testemunhos não se consideram nem "pós-" nem "ante-" modernos, eles se pretendem a realização dessa modernidade falhada até hoje pela metafísica, porém compreensível em todo caso, a partir de não ser redutível à metafísica. Uma ruptura que existiu e ainda se constata por vir a se concretizar. Nesse mistério a "pós-modernidade" que se assume como um status específico na relação com o saber, não tem um postulado único definido, e mais recentemente tem inclusive se feito enunciar uma neometafísica. A questão central é a historiografia, na qual a solubilidade se entretece, qualquer que seja. Ao ser fazer historiográfica, a problemática retorna, portanto, às relações por se compreender dos criadores de época, dos revolucionários do saber, com seu intertexto histórico.

 

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